CÍRCULO MONÁRQUICO DE CURVELO


Luiz Cláudio

José Emílio Ferreira Soares

        Luiz Cláudio de Castro, nascido em Curvelo, foi um dos cantores mais talentosos que já conheci, de voz suave e aveludada. Desde criança, na Curvelo de ruas poeirentas dos anos 40, convivi com sua família, sendo seus pais o  farmacêutico José de Castro e Dona Amélia, professora e diretora do Grupo Escolar Monsenhor Rolim.

        No período em que aqui morou, gozou de grande amizade com os rapazes de sua época. Aqui ele começou a desenvolver seus pendores artísticos, não só como cantor e compositor, como também desenhista e pintor. A lápis crayon, ele fez o retrato do escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, que era patrono do Grêmio Literário do Ginásio Padre Curvelo. Nessa década, quando eu morava na rua Silveira Lobo, certa manhã deparei com ele de prancheta nas mãos, retratando o contorno da rua com suas casas, pegando, lá no alto, parte da Matriz de Santo Antônio com suas torres.

       Ele era um artista polivalente. Como cantor, ele e alguns companheiros curvelanos criaram o conjunto musical Os Três Luízes, formado por Luiz Cláudio, Luiz Carlos Santana e Washington Luiz. Faziam apresentações nas casas e nas festas, animando a vida social da Curvelo daquele tempo. Chegaram até a gravar um disco, que fez muito sucesso.

         De Curvelo, Luiz Cláudio partiu para Belo Horizonte, depois mudando-se para o Rio de Janeiro, onde se projetou na sua vida artística e profissional. Ao lado de seus irmãos, o músico e arranjador Marcos de Castro e de Antônio Maurício de Castro, fez parceria com o músico Pacífico Mascarenhas, compondo lindas modinhas. Musicou letras de Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa. Suas canções traduziam as emoções do sertão curvelano, quando nelas recordava-se da tradicional poeira de nossas ruas naquela época, referindo-se também ao Tibira, Tibirinha, Passaginha, Cacimbinha e outros lugares que a memória saudosista e eterna, luta para alcançar. É o passado que emerge das entranhas do presente.

        Mais tarde, no Rio, Luiz Cláudio formou-se em arquitetura e, como artista que era na pintura, ele mesmo ilustrou a capa de seus discos e álbuns musicais. Também empreendeu uma longa turnê pelo exterior, apresentando a sua música com sucesso e participou de um filme, em parceria com a famosa cantora Ângela Maria.

        Em 1972, quando Dr. Márcio de Carvalho Lopes era prefeito de Curvelo, a TV Itacolomi lançou uma gincana com o título Mineiros Frente a Frente. Curvelo entrou na disputa e  Luiz Cláudio foi solicitado para defender sua terra, em um dos quadros apresentados. Ele e seu irmão, Marcos de Castro, compareceram em Belo Horizonte e deram o maior show. Foi um sucesso. Curvelo liderou mais uma etapa, vencendo todos os  quesitos até o final.

       Não faz muito tempo, conversei com Luiz Cláudio por telefone. Ele já estava residindo em Guaratinguetá, onde faleceu recentemente. Às vezes, fico matutando e chego a procurar uma resposta em João Guimarães Rosa. Na sua obra Grande Sertão Veredas, ele diz: “A gente não morre. Fica encantado”. De fato, Luiz Cláudio de Castro não morreu. Ficou encantado. E assim, haveremos de ficar todos nós um dia!                            

                                 

                                                                                                     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                        

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 11h40
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares

 

      Acontecem certos episódios na vida da gente, que apesar da distância do tempo, vão se tornando mais avivados na lembrança, nos mínimos detalhes. Deixo a minha imaginação campear livremente o passado, em busca de casos interessantes e jocosos, dignos de boas risadas.                    

       Lembro-me sempre de quando eu “navegava” pelas bandas de Santa Rita do Cedro, Saco Novo e São Geraldo do Jataí, das boas figuras humanas que lá conheci, convivendo com aquela gente simples e generosa. Cada um com seu tipo, seu modo de ser, compondo aquela paisagem social, rica em poesia no ambiente sertanejo.

       Certa ocasião, Zé Lúcio e eu tomamos outro rumo. De Paraúna até Gouveia, tivemos a grata companhia de Seu Messias de Castro Machado, cidadão que sempre admirei. Depois do almoço, tomamos os rumos da fazenda do Tigre, de propriedade do Cel. Sica Pio Fernandes. No pátio, uma vetusta jaqueira  ostentava sua beleza.

       A chuva caía quando nós seguimos as pegadas de Capitão Felizardo, um pequeno povoado das redondezas, próximo ao lendário Cemitério do Peixe. Paramos o furgão na beira de um córrego volumoso, cuja correnteza formava sulcos que nem cova de cana, e pegamos carona empoleirados num carro de bois, que depois de atravessar as águas bravias, nos conduziu até o destino. Enfim, apeamos na porta da casa de um senhor, que conversava na sala com um amigo. Lá fora, duas crianças brincavam, e na cozinha, uma mulher nova, com uma considerável barriga, às vésperas do dia de parir, confabulava com sua empregada. Esta, que figura! O seu cabelo parecia que nunca tinha visto pente, todo arapoado. As narinas, carregadas de pó, humilhavam qualquer cornicha. Na simples casa de adobe, com aberturas nas paredes, eu pensava: será que nesses buracos tem barbeiro?

      A noite caía e o frio apertava, quando fomos nos alojar num quarto arrumado pela dona da casa. No colchão de palhas, perfumado de detefon para matar as pulgas, o cheiro provocava na gente uma leve sensação de tontura. No final, passei a noite dependurado no estrado, pois a certa hora, dele soltou uma tábua. De manhã, na cozinha, a empregada preparou o nosso café, apresentando os cabelos mais assanhados do que na véspera.

      Neste mesmo dia pegamos o caminho de volta, ficando na minha memória as recordações daquele povoado simples, de casas de adobe, lugar de gente boa, sempre amável e hospitaleira. Quem sabe, um dia ainda voltarei lá?        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h40
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Gente do Sertão

 

 

José Emílio Ferreira Soares

 

      Na minha saudosa infância, em certa ocasião assisti, no Francisco Nunes, em Belo Horizonte, a uma peça de teatro de marionetes.  Aqueles cenários e representações  estão, até hoje, gravados em minha memória, como se os tivesse visto no momento presente. Lembro-me de um episódio de fino humor, que fez toda a plateia estourar de rir. Tratava-se de uma bela cantora de ópera, acompanhada por um elegante pianista, cuja casaca não poderia faltar. O músico iniciava com toda ênfase a ária. A cantora se preparava, mas, ao dar o agudo, não se ouvia voz, e sim miado de gato. O acompanhante, sem entender, levantava-se, examinava por baixo do piano e, nada encontrando, voltava a tocar. E os episódios se desenrolavam neste ritmo, trazendo aos espectadores muita alegria e entusiasmo.

      Todas estas recordações passavam-me pela lembrança, quando visitei um moribundo ventríloquo. Num  minúsculo e humilde quarto, aquele homem terminava, sobre um estrado grosseiro, seus últimos dias. Quem ali entrava, observava sobre uma tosca mesa a famosa garrafada  e o seu cachimbo, semelhante ao do jagunço do Conselheiro.

       De farta cabeleira e bigodes brancos, grandes olhos azuis, Jerônimo Pereira fitava, delirante, um ponto qualquer. Talvez passasse por sua fraca memória, alguma recordação da mocidade.

     De fato, sua juventude deixara-lhe reminiscências indeléveis, de quando andava pelo país com seu teatro de marionetes, fixando-se, por alguns dias, em cidades interioranas. Ao chegar, o povo logo dizia: lá vêm as marionetes de Seu Jerônimo.  Ele levantava rapidamente sua humilde casa de espetáculos,  apresentando à população variadas peças cômicas. Os bonecos conversavam entre si, às vezes sobrando alguma pergunta maliciosa para o espectador distraído.

     Quando Seu Jerônimo partia rumo a outras plagas, deixava saudade naqueles corações hospitaleiros.    Palmilhando esta vida, um dia lá, outro cá, certa ocasião, ao passar por Curvelo,  já velho, doente e cansado daquelas andanças, resolveu permanecer nesta cidade.

      A noite caía quando me despedi daquele artista andarilho e rumei para casa. No dia seguinte, à tarde, na hora em que o céu de minha terra recebia as primeiras pinceladas rubras do sol poente, ouvi sinos a defunto. Seu Jerônimo falecera!

 

    



Escrito por Curvelo Imperial às 16h40
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Gente do Sertão

 José Emílio Ferreira Soares

 

 

     O tropeiro, geralmente de estirpe reinol, foi um dos personagens mais notáveis deste País. Durante anos seguiu as trilhas serpenteantes dos caminhos com sua tropa, levando mercadorias a seu destino.

    Joaquim Eugênio Pereira, meu bisavô, descendente de família portuguesa, foi um deles. Inúmeras vezes, na sua mocidade, fez o trajeto do Rio de Janeiro, capital do Império, a Formosa dos Couros, no sertão de  Goiás. Assim que ali chegava, recarregava a  tropa de couros e outros produtos da terra e pegava o caminho de volta. A tropa seguia guiada por sua madrinha - mulinha toda enfeitada, agitando cincerros e guizos – que indicava o caminho.

    Em tempos memoráveis, quando a tranqüilidade provinciana assentava-se sobre as famílias curvelanas, e o comércio tinha significado expressivo na região, havia aqui vários ranchos de tropeiro. Dentre eles destacam-se:  rancho Pereira Diniz, rancho João Pitanguy, rancho Terto Pena,  e outros que a nossa memória não consegue alcançar. Quando chegavam as tropas com seus balaios de lado a lado, carregados de mercadorias, no rancho de João Pitanguy, era uma festa para a criançada. Corriam todas ao encontro dos tropeiros para serem presenteadas e brincavam sobre os balaios, numa satisfação contagiante. Dentre estes tropeiros, destacou-se Tão Barroso, alto, claro, de longas barbas brancas, figura paternal e amiga, homem bom e atencioso com as crianças. Quando ele apeava no rancho, sempre trazia pra criançada panelinhas de pedra, do Serro do Frio. Tão Barroso, também conhecido como Tão Velho, nasceu num lugar chamado Vau, próximo a São Gonçalo do Rio das Pedras, que seguindo em direção ao Serro, passa por Milho Verde, povoado constantemente visitado pelos turistas. Este velho tropeiro desfrutava de um largo círculo de amizades em Curvelo, razão pela qual demonstrava uma admiração especial pela cidade.

     À noite, no rancho, os tropeiros reuniam-se, cantavam e tocavam viola, tendo à sua volta a constante presença da meninada. As modinhas encantavam os corações nas noites enluaradas e com certo mormaço, característico do sertão mineiro. A figura do tropeiro, portanto, muito contribuiu para a nossa formação histórica, e até hoje povoa a imaginária fantasia das lendas. 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 15h55
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares

 

 

         Pelos caminhos de ferro do sertão, o trem seguia sua trajetória, num galopar ritmado e constante. Naquela época, a gente percorria longas distâncias, de estação a estação, para chegar, noite escura, em Pirapora. Era uma viagem um tanto quanto romântica. No serpentear das curvas, a máquina lançava fagulhas na escuridão do céu, que iam se apagando ao longo da estrada de ferro. Os passageiros contavam seus casos, e as estórias formavam-se  cheias de fantasia e criatividade. De cada parada, guardo uma lembrança: em Porto Faria, de um tal Antônio Sete Flechas, também conhecido em sua região como Antônio Violão, pois era violonista dos bons, apesar de sua demência. Ele andava dizendo que por ali, as galinhas caminhavam  de cincerro no pescoço e que gente virava anjo. Em Contria, comentava-se as peripécias de um tal Rodolfo Pereira, com suas tiradas filosóficas, como: “tem cada uma, que mais parece duas, e se desdobrar, dá até três.” Pagar passagem não era de seu feitio, pois era emérito caroneiro. Toda vez  que  viajava, era chamado ao carro do chefe do trem. Certa vez, quando ele procurava o chefe no lugar de costume, assustou-se  ao deparar com a presença do itinerante - nome dado ao fiscal de trem – e tentou voltar. Curioso, o fiscal  lhe perguntou:

- O que o senhor deseja?

- Estou vendendo uns filhotes de “passo preto”.

- O senhor está com eles aí ?

- Se não morreu ou fugiu algum, eu tenho uns seis ou oito.

Certo dia, estava ele viajando todo tranqüilo, quando o chefe apareceu na porta do vagão de passageiros com um telegrama, e em voz alta pronunciou:

- Rodolfo Pereira..

Todo vaidoso, ele respondeu:

- Seu criado.

- Na próxima estação, o senhor vai descer pra comprar o bilhete.

Assim ele foi vivendo, até que certa ocasião resolveu dar uma esticadinha até a capital. Aí, foi outra estória. Abordado na rua por um vigarista, que, segundo ele, “com sua lábia, me arrastou que nem um carcará na corda”, Rodolfo logo se envolveu numa complicada compra de um anel de estimação, posto à venda por necessidade. Apesar de valioso, o negócio poderia ser fechado a preço baixo, pois, de acordo com o tal vigarista, a  sua família o esperava com urgência no nordeste. O anel cintilava que nem uma estrela, e o cara insistiu tanto, que o caboclo caiu que nem um patinho, fechando o negócio. No dia seguinte, matutando com seus botôes no quarto da pensão, observou, surpreso, o azinhavrado anel de latão. Achou um desaforo, e  pôs-se na rua atrás do malvado. Por sorte, o encontrou. O danado, ao vê-lo, saiu desatinado pelas ruas, acompanhado pelos gritos de Rodolfo: pega ladrão, pega ladrão. Enfim, o trapaceiro foi preso e os dois dirigiram-se para a delegacia, onde a discussão continuou braba. O delegado, já sem paciência, aos gritos desabafou: esses gravatas-tortas só vêm aqui pra dar trabalho pra gente!

       

 

                                              

                                        

 

 

       



Escrito por Curvelo Imperial às 09h49
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares       

  Na vida social de Curvelo, desde longa data, apareceram tipos populares que se notabilizaram pelo seu modo de ser, suas variadas reações psico-sociais e suas doidices, o que vinha justamente evidenciá-los diante das famílias, que bondosamente os aceitavam em sua casa. Ali eles prestavam-lhes serviços e tinham o de comer. Dentre essas figuras pitorescas que marcaram a vida de nossa terra, encontrava-se Saluzinho, sempre vestido à moda inglesa: paletó comprido batendo nas canelas, calças largas, também a indispensável gravata, bengala, chapéu, sapatos de numeração 33 a 44 – porque, de acordo com ele, todo número lhe servia –  tudo isso compondo sua estatura baixa, que ostentava no rosto sereno, um ralo bigode.

        Pois bem, Saluzinho, na sua labuta diária, não deixou de registrar fatos notáveis, que nunca irão desaparecer na lembrança do povo. Quando o chamavam de Salu Rodeiro, era perigoso ele mandar a pessoa à pedra noventa, pois o seu nome era Salustiano Luiz Beltrão. É claro que todo mundo sabia disso, ora essa!

        Ele vivia numa humilde casa praticamente despida de paredes, pois as poucas paredes de enchimento encontravam-se parcialmente destruídas pelo desgaste natural do tempo. Interessante é que, quando ele saía, a trancava a sete chaves.  Frequentemente, tio Geraldo e Paulo Cunha caminhavam até a sua simples moradia, para conversar com ele na hora do jantar. Lá o encontravam como um lorde, todo engravatado, sentado numa tosca mesa de refeições, aos cuidados de sua irmã, Maria Brasil. Esta, por sua vez, era também uma figura notória, apesar de trabalhadora como ela só e de possuir um coração de anjo. Quantas vezes ela buscou água no chafariz  da praça de Santa Rita, palmilhando o mesmo itinerário, pés nus sobre o chão de terra! A molecada, quando a via aproximar-se, cercava-lhe o caminho com pedrinhas, só para ouvir suas reclamações. O ritual era o de sempre: ela baixava a pesada lata no chão, tirava as pedras do caminho, retornava a carga sobre a rodilha na cabeça e seguia em frente  resmungando. E assim, se foram anos!

        Enquanto a gente divaga por este mundo de meu Deus em busca de saudáveis reminiscências, começo a ouvir os planos astronômicos que Saluzinho tinha em mente, e a ver suas realizações se concretizarem. Como num sonho, ele desaparecia da realidade e passava a vislumbrar o seu fazendão de gado, porcos e frangos com fartura, em cujas posses ele comandava seus camaradas de pés embotinados, semelhantes aos da estória de Jeca Tatu. Lá, suas galinhas não seriam como as magricelas que transitavam pelo seu quintal de chão batido, lideradas por Seu Defunto – galinho de estimação e inseparável amigo, que até dormia com ele na cama.

       Saluzinho, durante toda a sua existência, foi  um cidadão bem informado e politizado. Nutria um afeto especial por Adhemar de Barros, político da velha guarda e ex-governador de São Paulo. Em época de eleições, quando lhe perguntavam em quem votaria, a resposta era conclusiva: Adhemar de Barros. E a mente de Saluzinho fazia prodígios! Foi por causa disso mesmo, de seu alto espírito visionário, que numa daquelas campanhas políticas, quando foram eleitos Dr. Evaristo Soares de Paula, prefeito, e Targino Raimundo de Figueiredo, vice-prefeito, que seu nome, na base da troça, foi lançado como candidato à Câmara Municipal de Curvelo. Cédulas e panfletos foram distribuídos pela cidade afora com seu retrato, tirado na praça de Santa Rita, em posição hitlerista, careca exposta ao sol, numa elegância fora do comum. Quem lia seus boletins de propaganda, deparava com o mais interessante lema: “ Mais carnaval/ mais angu/ para vereador, Salu”. Foi assim que ele saiu em campanha, prometendo trazer água de Três Marias,  juntamente com os mais encorpados peixes, através de enormes tubulações.

Passaram-se os anos, o tempo correu... Convencido de que fora eleito, ia sempre à Prefeitura reivindicar alguma coisa em favor do povo.

        Saluzinho foi também um romântico extremado. Em certa ocasião, viu-se loucamente apaixonado por uma viúva, permanecendo por várias horas do dia nas imediações da casa dela. Ao ser interrogado pela autoridade policial, foi logo dizendo: “ Se amar é crime, prenda-me, sou criminoso “. Ele apreciava mulheres altas – dizia que quanto mais altas, melhor - para alimentarem sua paixão. Pra ele, a maior satisfação seria chegar em seu quarto conjugal e deparar com aquela mulherona, comprida que nem uma palmeira, todinha para a sua serventia. Sempre alguém lhe dizia ao pé do ouvido, que o velho  político paulista Adhemar de Barros providenciara pra ele lindas senhoritas, todas dentro dos conformes. Não é que um belo dia, ele resolveu caminhar até a casa de  Lia – moça da elite curvelana – para lhe pedir a mão em casamento? Arrumou-se todo, pôs água de cheiro e subiu a rua. A pretendida veio lhe atender à porta.

- Bom dia, Saluzinho.

- Bom dia, Dona Lia. Eu queria conversar com a senhora.

- Pois não, vamos entrar.

Chapéu na mão, assentou-se na sala e foi direto ao assunto:

- Eu vim aqui pedir a sua mão em casamento.

- Está certo, Saluzinho, seria uma honra pra mim me casar com você,                                            

porém, como sabe, eu sou uma moça rica, gosto de vestidos caros, jóias                                                                             requintadas, e para isso preciso de muito dinheiro. Você é um rapaz muito bom, trabalhador, não resta a menor dúvida, mas não vai poder atender às minhas exigências de senhorita vaidosa.

Ele pensou, analisou os fatos e certificou-se de que aquela noiva não era pra ele. Sem saber o que dizer, como num desabafo de paixão, respondeu      simplesmente:

- É, eu também tenho as minhas pendurezas!...

Entretanto, nunca desanimou, sonhando sempre com mulheres esguias.

        Durante o dia, quem passava por sua porta ou mesmo de longe, ouvia o raque-raque do seu torno tocado a pé, feito por ele mesmo, a fabricar brinquedos como o pião – o pião das cantigas de roda – bilboquês, o piloto – espécie de jogo muito usado naquela época – e também cabos de espanador, tudo para vender.

        À tardinha, durante a Semana Santa, pegava a Bíblia pra ler a palavra de Deus em voz alta, na porta da rua. Também em plenos olhos da noite, cutucava um violão desafinado, cantando com voz tatibitate para afugentar a imensa solidão. Acredito que nesse momento de êxtase, ele via as mulheres mais lindas do mundo, de uma altura incalculável, em volta de sua modesta pessoa.

       Por dezenas de anos, Saluzinho residiu naquela casinha em péssimo estado de conservação. Mais tarde, a caridade cristã reconstruiu-a, proporcionando-lhe um  relativo conforto e ali, ele passou o resto de sua vida. Aos poucos, sua saúde foi sendo debilitada pelo peso dos anos, manifestando-se um incômodo que ele chamava de “espinhela caída”, do qual uma vez me queixara na rua, além de outras doenças. Certo dia, tive notícia de que Saluzinho tinha sido internado no hospital e que, depois de alguns dias, viera a falecer. Sim, ele sucumbira de verdade, entretanto o seu espírito, de homem sonhador e romântico, nunca há de desaparecer. Nunca mais!.. 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h42
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    Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares

    Vitrinho das Moças, dotado de peculiar simplicidade, era uma alma ingênua, não conhecendo a maldade que campeia pelo mundo. Era um desses mortais sonhadores! Baixo, escurinho, trabalhava biscateando. Era encontrado sempre na casa do Coronel José Soares dos Santos, então Chefe do Executivo municipal. Lá ele prestava serviços domésticos a D. Zulmira, esposa do coronel. Ele era também responsável pela condução da tampa dos caixões de defunto, pois naquela época usava-se conduzi-lo a descoberto. Garboso e solene, ia carregando a incumbência à frente do cortejo fúnebre. Entusiasmado com as moças, não perdia a missa das oito e meia no Santuário. De banho tomado, usando diversos sabonetes pra clarear a pele, perfumado, engravatado, paletó até as canelas – acomodava-se na igreja para admirar, platonicamente, as jovens que chegavam pra rezar. Certa ocasião, criou coragem e foi à casa de um certo Capitão, para conversar com suas filhas. Uma chicotada fez o coitado saltar ao meio da rua. De lá, assustado e furioso, respondeu ao dono da casa: “Deixe estar, quando o senhor morrer, não vou carregar a tampa do seu caixão”. E a promessa foi cumprida.

       Neco Lage era famoso por sua força gigantesca, capaz de quebrar balcão de venda com cabeçada. Era um cara bem dotado, com músculos de ferro. Escravo liberto, quis continuar na cidade prestando serviço às famílias. Um fato interessante lhe ocorreu, marcando-o pelo resto da vida. Andava sempre com um porrete, como arma de defesa. Certo dia, levava um pilão na cabeça, da cidade à fazenda das Porteirinhas. Às margens do Sucuriú descansou e bebeu água, seguindo depois sua viagem de léguas. Já na porteira da fazenda, a cachorrada veio em cima dele. Lembrando-se de ter esquecido o porrete na beira do córrego, virou pra trás num carreirão danado, não dando ouvidos ao pessoal que gritava: “Neco, largue o pilão”. O infeliz correu outras tantas léguas conservando o pilão na cabeça, naquele sacrifício de rachar. Depois, coitado, por ironia do destino e a fama de ser um dos mais gulosos da região, pediram-lhe que bebesse uma garrafa de cachaça. Foi a conta. Grave coma alcoólico matou-o quase instantaneamente. E lá se foi o Neco Lage.

       Procedentes da Itália, também aqui chegaram os irmãos Pagliaminuta, para fixar residência e trazer o seu conhecimento profissional ao povo do sertão. Leopoldo, Garibaldi e Napoleão integraram-se, de maneira singular, às famílias curvelanas. Devido ao comportamento exótico de Leopoldo, o espírito observador do povo não deixou de manifestar-se, surgindo logo alguns apelidos. Começaram a chamá-lo de Flor de Amor, porém o cognome que mais o marcou foi o de Menelick, imperador da Abissínia na época da invasão italiana. De fato, Leopoldo participara daquela guerra, e levado pelo ódio ao rei daquele país, repudiava com veemência o seu nome. Dizia-se que, durante todo o período do levante armado, o imperador, por vingança, havia encarregado as mulheres do árduo ofício de castrar os italianos prisioneiros. Embora ele não tivesse caído nas mãos das negronas, considerava o maior insulto chamá-lo de Menelick, pois isto insinuava que ele estivera nos braços do belo sexo daquela terra, mestra no oficio de capação. Aos poucos a cachaça foi tomando conta da sua vida, enquanto a meninada não se cansava de recitar pelas ruas, atrás dele: “Napoleão alfaiate, Garibaldi sapateiro, Leopoldo cachaceiro”. E assim foi, pelo resto de sua existência.

       Mestre Cândido Jatobá foi uma das figuras mais pitorescas que  conheci. Dono de imaginação fértil e fantasiosa, fazia brotar de seu espírito estórias interessantes, que me deixavam absorto por horas e horas, sentindo suas palavras penetrando o âmago de minha alma. À porta de sua casa no Curiango, nas quentes noites de verão, estava ele sempre assentado num velho toco de pequizeiro, cismando a paisagem crepuscular que ensangüentava, lentamente, o manto azul do céu de minha terra. Nestes momentos, o velho caboclo trigueiro das bandas do Sergipe, de cabelos cor de prata, olhos castanhos brilhantes e profundos, parecia  ter saudades de sua infância nordestina que já ia bem longe, porque aquele cenário na tarde moribunda, identificava-se com a do seu torrão natal. Ao passar à sua porta, a gente se detinha por uns instantes para um agradável bate papo, de onde só poderia sair um conto rico de fantasias. Na lucidez dos seus oitenta e tantos anos, conhecia na palma da mão fatos interessantíssimos que a tradição oral se incumbiu de passar aos mais jovens, desde quando aqui chegou ainda moço, à vanguarda de uma boiada. Sempre me aproximava de sua porta, permanecendo ali algum tempo para ouvir as estórias de assombração, da época em que, praticamente, não havia luz elétrica na cidade. Contou-me vários episódios, que ainda não me saíram da mente. A mulher do sobrado!.. Sim, a mulher grandalhona, que toda noite assentava-se no telhado do sobrado de Dr. Pacífico Mascarenhas, entre os buritis  que ali se erguiam, colocando seus pés no chão. Todo mundo que descia a antiga rua Direita durante a noite, tinha medo daquele fantasma que o espreitava  - quem sabe, para escarreirá-lo sem destino. Ele contava que Zé Curió foi cercado pelo mulherão, numa noite de lua cheia. O medo apavorante fez aquele caboclo velho de guerra dar um rodopio, acabando por passar por debaixo das longas saias da matrona. Desorientado, chegou em casa depois de uma correria tremenda, quase pondo a alma pela boca. Êta mulher danada, fez muita gente não sair de casa em época de quaresma! Dizia-se, até, que ela tinha parte com o pemba! Já se teve notícias de pessoas desaparecidas, sacrificadas por ela para fazer tachadas de sabão!

        E Mestre Cândido fantasiava suas estórias, com mestria que fazia gosto... Um outro fato, que não me sai da memória, foi o da beata Dona Florsina do Bicudo. Supondo estar na hora da primeira missa – cinco horas – levantou-se do aconchegante leito, e sem observar o tempo,  dirigiu-se à porta da matriz de Santo Antônio. Achou estranho aquela plêiade de gente emudecida, véus brancos cobrindo-lhes a cabeça. Certo momento, quase sem nenhum rumor, as figuras começaram a tomar rumo para se organizar em procissão, e ela, ingênua, as acompanhou. Ao se aproximar da que se encontrava na retaguarda, notou sua fisionomia cadavérica. Neste momento, uma voz surda lhe chegou aos ouvidos: aqui são almas do outro mundo! Dizem que, ao clarear do dia, ela encontrou sobre sua janela um resto de vela transformado em osso humano. Coitada de Dona Florsina, foi a segunda vez que lhe aconteceu um fato dessa natureza! Pouco tempo antes, por antecipar horários, encontrou, na boca da madrugada, a igreja de portas abertas. Um padre celebrava em latim, porém, como ventava muito, o celebrante pediu ao sacristão que o ajudava, para fechar a porta principal. Do altar, ele apenas estendeu a mão, cumprindo a ordem recebida. Diante disso, a velha, apavorada, decidiu ir pra casa rezar o terço, porque lhe estava aparecendo muita coisa estranha.

        Estórias de capeta sempre aconteciam por este sertão afora, ampliadas pelo imaginário popular, conforme a mente supersticiosa e criativa do povo.

Conta-se por aí que, há tempos, nestas plagas sertanejas, começaram a surgir notícias de casas mal assombradas. Por volta da meia noite, sem saber de onde vinham, misteriosas pedras caíam nos telhados. Numa dessas casas, dormiam apenas um casal de velhos e uma empregadinha, que lhes fazia o de comer. Ela tinha aparência de santa – mas quando se vê mulher muito santinha, pode desconfiar. Não saía de casa e nem gostava de namorar, porém, ao escurecer, sempre na hora de costume, ela era acometida por mil doenças nervosas e chiliques, fazendo os velhos correrem a seu quarto, justamente no instante em que se ouviam as primeiras pancadas de pedra no telhado. Entretanto, era pura encenação, pois estava tudo combinado. Quando tudo se acalmava e os velhos se recolhiam novamente, ela caía no verde com um fulano das redondezas. Numa das noites da suposta crise histérica, os pobres velhos, não suportando tal agonia, resolveram chamar o padre, porque tudo indicava que a mocinha estava possuída pelo demônio. O sacerdote atendeu-lhes o chamamento, exorcizando a moça com água benta, para afastar dela os maus espíritos. Na verdade, este fato foi dado e passado na cidade do Curvelo, em ano já perdido na distância do tempo, pois diz a tradição que o demo, ao sair do corpo da donzela, foi visto no boteco de um tal Zé do Araticum, virando uma boa dose da “Espalha Brasa”. Os boateiros de plantão lançaram na praça que, após beber a pinga, ele disse aos presentes: - “Agora vou pegar o caminhão de Germano Borá, porque tenho contas a acertar com Manuelzão da Rita, hoje mesmo, lá no  Bagre”!

          Se alguém quiser maiores informações, pergunte ao velho Cipriano. Ele deve estar por aí, arquitetando outras estórias, em alguma esquina do mundo.

         São coisas da vida. De fato, essa gente não deixou de contribuir para que a monotonia, existente naquela época, tivesse um colorido humorístico que transcende o tempo.

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h44
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Gente do Sertão

 José Emílio Ferreira Soares       

 Curvelo sempre primou pelo dom (que lhe é peculiar), de atrair em seu  seio, pessoas procedentes de diversas plagas. Sejam elas de qualquer “status” social, aqui sempre encontraram abrigo para viver feliz, alimentando o seu espírito, convivendo com a gente simples e sincera do sertão centro-norte mineiro. Talvez seja essa a razão pela qual os variados tipos populares buscaram guarida nessa terra, apesar das suas mais desencontradas maluquices, que os diferenciavam no meio social. Dezenas deles ainda se encontram na lembrança dos mais velhos, que nos transmitem as suas jocosas estórias, que marcaram época e contribuíram para o enriquecimento do folclore curvelano.

        Um desses tipos foi Maria Carlota, a preta africana, que nas festas de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, dançava o candomblé na praça da Matriz, ao som da cuíca de Camilo Preto. Com maestria no batuque, ela rebolava, fazendo os mais rápidos movimentos acrobáticos, quase agachando-se ao chão, sem deixar cair a garrafa que equilibrava na cabeça. Também nas fogueiras de Santo Antônio, ela dava o mesmo espetáculo.

          Havia também a Negra dos Chifres, cujo nome já se perdeu na distância do tempo, figura que a tradição oral fez chegar até nós. Dizia-se que ela tinha um par de chifres de carneiro, mostrando-os àquele que lhe passasse cem réis. As crianças, atemorizadas, achavam ser ela o capeta.

        Outro tipo foi João Bobo, responsável pela matraca da Semana Santa e capaz de tocá-la o dia todo, num rítmo só.

        Já Chico Caixão, mestre em xingatório cadenciado, era só ouvir da molecada a frase: “Jinu morreu”, pra começar de pronto a sua cantilena: “puta que pariu, o rabo da mãe”!... e assim por diante.  Toda vez que ele passava neste estado de fúria, pela porta do Cônego José Alves Ferreira, o padre o chamava: Francisco, venha cá. Na paz do interior da residência do padre José, aquele filho de Deus recebia atenção especial e acalmava-se, não lhe faltando o de comer. Porém, era só colocar os pés na rua e já recomeçava a cantilena, no mesmo rítmo.

        Outro personagem interessante  foi Guindó, que, de faquinha em punho, ficava dias cortando grama nas calçadas das casas, a quinhentos réis. Se lhe falassem que alguma moça dali queria casar-se com ele, dispensava o pagamento, bastando lhe dar um prato de comida. Dizem que ele gostava de cantarolar este verso: “Quem matou papai, vovô, foi nosso “Imperadô”. Depois pronunciava, com a mesma cadência na voz: “repo, repo, repo!”...

        A figura interessante de Brocó, pra uns, e Chapinha pra outros, era responsável pelos programas do cinema de Orestes Minucci. Entretanto, não os distribuía a toda a população da cidade, mas somente aos freqüentadores, porque os conhecia na palma da mão. Gostava de usar camisa xadrez, para se identificar com os ídolos da época, sentindo-se orgulhoso se alguém o chamasse de Boock Jones ou Tom Mix. De vez em quando trabalhava nas casas, no árduo ofício de socar arroz no pilão. Um dia, quando já estava suado de tanta labuta, alguém lhe propôs casamento com uma das moças da casa, porém, com a condição de, primeiro, furar o pilão. Coitado, trabalhou com todo seu entusiasmo, mas não conseguiu realizar o seu desejo.

        Quem não se lembra do famoso Mané da Pasta? Era um tipo até simpático, moreno, com cabelos pretos e lisos. Como ele gostava de um rabo de saia! Só saía pelas ruas vestido de paletó e gravata, com sua indispensável pasta preta, parecendo um grande executivo. Ninguém sabia o que ele guardava nessa pasta, isso era segredo de Estado, só que ele não a largava por nada nesse mundo. À noite, quando as moças faziam o footting na praça do antigo Fórum, ele ia logo se aproximando e se encostava ao lado de uma delas, pra ir “de bonde” com alguma donzela bonita. Ele chegava a entortar o pescoço, pra colocar a cabeça quase nos ombros da escolhida. Quando ela percebia sua presença e o ”rifava”, ele logo procurava se emparelhar ao lado de outra jovem. Acredito que ele não tivesse maldade, era apenas um pobre coitado que sonhava em se casar.

           Também viveu aqui o saudoso Saluzinho, figura romântica, apreciador de mulheres bem altas e esguias, que em certa ocasião, viu-se  loucamente apaixonado por uma viúva. Ao ser interrogado pela autoridade policial, foi logo dizendo: “Se amar é crime, prenda-me, sou criminoso”. Andava sempre vestido à moda inglesa: paletó comprido batendo nas canelas, calças largas, a indispensável gravata, bengala, chapéu, tudo isso compondo sua estatura baixa, que ostentava no rosto sereno, um ralo bigode. Também calçava sapatos de numeração 33 a 44 – porque, de acordo com ele, todo número lhe servia. Quando o chamavam de Salu Rodeiro, era perigoso ele mandar a pessoa à pedra noventa, pois o seu nome era Salustiano Luiz Beltrão. Quando alguém ia até sua humilde casa, na hora do almoço ou jantar, o encontrava como um lorde, todo engravatado, sentado numa tosca mesa de refeições. Interessante é que, apesar de viver numa casa em péssimo estado de conservação, praticamente despida de paredes, quando ele saía, a trancava a sete chaves. Durante o dia, quem passava por sua porta ou mesmo de longe, ouvia o raque-raque do seu torno tocado a pé, feito por ele mesmo, a fabricar brinquedos, como piões e bilboquês e também cabos de espanador, tudo para vender. À tardinha, durante a Semana Santa, pegava a Bíblia pra ler a palavra de Deus em voz alta, na porta da rua. À noite, gostava de cutucar um violão desafinado, cantando com sua voz trêmula para afugentar a solidão.   Saluzinho era um cidadão bem informado e politizado. Nutria um afeto especial por Adhemar de Barros, político da velha guarda e ex-governador de São Paulo. Em época de eleições, quando lhe perguntavam em quem votaria, a resposta era conclusiva: Adhemar de Barros. Assim, por causa desse seu espírito visionário, numa daquelas campanhas políticas de Curvelo, seu nome, na base da troça, foi lançado como candidato à Câmara Municipal. Cédulas e panfletos foram distribuídos pela cidade afora com seu retrato, tirado na praça de Santa Rita, em posição hitlerista, careca exposta ao sol, numa elegância fora do comum. Quem lia seus boletins de propaganda, deparava com o mais interessante lema: “Mais carnaval/ mais angu/ para vereador, Salu”. Foi assim que ele saiu em campanha, prometendo trazer água de Três Marias e também os mais encorpados peixes, através de enormes tubulações. Convencido de que fora eleito, ia sempre à Prefeitura reivindicar alguma coisa em favor do povo. Aos poucos, sua saúde foi sendo debilitada pelo peso dos anos, manifestando-se um incômodo que ele chamava de “espinhela caída”, além de outras doenças, vindo a falecer num hospital da cidade. Entretanto, o seu espírito, de homem sonhador e romântico, nunca há de desaparecer. 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h16
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares

 

 

         Pelos caminhos de ferro do sertão, o trem seguia sua trajetória, num galopar ritmado e constante. Naquela época, a gente percorria longas distâncias, de estação a estação, para chegar, noite escura, em Pirapora. Era uma viagem um tanto quanto romântica. No serpentear das curvas, a máquina lançava fagulhas na escuridão do céu, que iam se apagando ao longo da estrada de ferro. Os passageiros contavam seus casos, e as estórias formavam-se  cheias de fantasia e criatividade. De cada parada, guardo uma lembrança: em Porto Faria, de um tal Antônio Sete Flechas, também conhecido em sua região como Antônio Violão, pois era violonista dos bons, apesar de sua demência. Ele andava dizendo que por ali, as galinhas caminhavam  de cincerro no pescoço e que gente virava anjo. Em Contria, comentava-se as peripécias de um tal Rodolfo Pereira, com suas tiradas filosóficas, como: “tem cada uma, que mais parece duas, e se desdobrar, dá até três.” Pagar passagem não era de seu feitio, pois era emérito caroneiro. Toda vez  que  viajava, era chamado ao carro do chefe do trem. Certa vez, quando ele procurava o chefe no lugar de costume, assustou-se  ao deparar com a presença do itinerante - nome dado ao fiscal de trem – e tentou voltar. Curioso, o fiscal  lhe perguntou:

- O que o senhor deseja?

- Estou vendendo uns filhotes de “passo preto”.

- O senhor está com eles aí ?

- Se não morreu ou fugiu algum, eu tenho uns seis ou oito.

Certo dia, estava ele viajando todo tranqüilo, quando o chefe apareceu na porta do vagão de passageiros com um telegrama, e em voz alta pronunciou:

- Rodolfo Pereira..

Todo vaidoso, ele respondeu:

- Seu criado.

- Na próxima estação, o senhor vai descer pra comprar o bilhete.

Assim ele foi vivendo, até que certa ocasião resolveu dar uma esticadinha até a capital. Aí, foi outra estória. Abordado na rua por um vigarista, que, segundo ele, “com sua lábia, me arrastou que nem um carcará na corda”, Rodolfo logo se envolveu numa complicada compra de um anel de estimação, posto à venda por necessidade. Apesar de valioso, o negócio poderia ser fechado a preço baixo, pois, de acordo com o tal vigarista, a  sua família o esperava com urgência no nordeste. O anel cintilava que nem uma estrela, e o cara insistiu tanto, que o caboclo caiu que nem um patinho, fechando o negócio. No dia seguinte, matutando com seus botôes no quarto da pensão, observou, surpreso, o azinhavrado anel de latão. Achou um desaforo, e  pôs-se na rua atrás do malvado. Por sorte, o encontrou. O danado, ao vê-lo, saiu desatinado pelas ruas, acompanhado pelos gritos de Rodolfo: pega ladrão, pega ladrão. Enfim, o trapaceiro foi preso e os dois dirigiram-se para a delegacia, onde a discussão continuou braba. O delegado, já sem paciência, aos gritos desabafou: esses gravatas-tortas só vêm aqui pra dar trabalho pra gente!

  

Curvelo, 10/01/1999          

                                              

                                              



Escrito por Curvelo Imperial às 10h05
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Procópio Ferreira

 

José Emílio Ferreira Soares

 

                Sem dúvida, Procópio Ferreira foi um ator admirável, e ainda me lembro dele, já velho, percorrendo as cidades de Minas com a sua companhia de teatro. Em Curvelo, esteve algumas vezes, arrancando aplausos da platéia, com sua natural arte de representar. Em sua vida de luta alcançou, na simplicidade, a glória do teatro brasileiro. Quem conhece a peça “Deus lhe pague”, de Joracy Camargo? Como Procópio a interpretava  bem!  Além do teatro, ele participou de vários filmes de sucesso. Guardo na lembrança que, quando ainda menino, assisti ao filme “O Comprador de Fazendas,” comédia de arrancar risadas de qualquer cristão, na qual ele atuou. Tratava-se de uma enganosa arte de tapear, em que o velhaco vendedor montava, artificialmente, na calada da noite, ambiente favorável para impressionar o interessado. Outro filme de destaque foi “A Sogra”, em que Procópio interpretou um agente ferroviário que era, também, proprietário de pensão. Naquela época, os cometas - nome dado aos representantes comerciais - só viajavam de trem para fazer a praça, de cidade em cidade e também, eram os únicos que levavam as notícias por este sertão de meu Deus. Depois, as mercadorias eram entregues através da rede ferroviária. As pensões e hotéis localizavam-se próximos às estações, em local de fácil acesso aos viajantes. Na pensão desse agente da estação morava sua sogra, cuidando dos afazeres domésticos. Porém, ela não perdia tempo em dar uma olhadela no entra-e-sai dos hóspedes. Quando se interessava por algum deles, logo lhe reparava os cabelos, pois o seu fraco era a cabeleira do pretendente. Certa ocasião, ela criou coragem e deu uma espiada pela fresta da porta do quarto de um cidadão. Diante do espelho, ele escovou os negros cabelos, mas depois, para decepção dela, a careca  do homem alumiou,  pois tratava-se de uma cabeleira postiça. Entretanto, ela não perdia a esperança e, à procura de um novo amor, foi conferir outro hóspede. Desta vez, não teve dúvida, o fulano escovou e friccionou os cabelos e, ao penteá-los, ela assegurou-se de que eram naturais. Estava conferido, a sogra fez cara de satisfação e logo pensou: é com este que eu vou. 

      Procópio Ferreira não se encontra mais entre nós, no entanto, sua presença continua vivinha da silva, no teatro brasileiro e no coração daqueles que o conheceram.  Ele é, pois, um patrimônio nacional.

Curvelo, 22/01/2000

 



Escrito por Curvelo Imperial às 18h31
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

         Duas palmeiras imperiais, vetustas e elegantes, como guardas a defenderem castelos medievais, colocavam-se, de extremo a extremo, defronte ao sobrado de estilo colonial, hoje tombado pelo Patrimônio Histórico e adquirido pela Prefeitura Municipal de Curvelo, da família Antonino Diniz Couto, no centro da cidade.  No passado, este casarão, de sacadas artisticamente decoradas, com linhas arquitetônicas que retratavam a imponência de um palácio, era  propriedade do Dr. Pacífico Gonçalves da Silva Mascarenhas, médico e político curvelano, de grande expressão em Minas Gerais. Ainda hoje, suas paredes são testemunhas de grandes acontecimentos  políticos, marcados por acirradas discussões, pois nesta época, Curvelo tinha presença respeitada no cenário político e econômico do Estado e do País. Naqueles tempos, as famílias Viana e Mascarenhas, duas forças antagônicas, dominavam todo o sertão das gerais. Assim, este respeitável solar hospedou, em  1904, o Presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves, ex-conselheiro do Império e  monarquista dos quatro costados, com sua comitiva, quando aqui chegou pelos caminhos de ferro, na histórica viagem inaugural do trecho ferroviário que se estendia até Curvelo. Esta efeméride  não sinalizava apenas uma importante realização para os curvelanos, pois significava também a efetivação de um projeto ferroviário dos tempos imperiais, o qual, passando pelo planalto central, chegaria ao planalto de Tocantins, no Estado do Pará, projeto criminosamente abortado pela República. Pois bem, de acordo com a tradição oral, fatos inexplicáveis e sobrenaturais aconteciam neste majestoso sobrado. Os centenários salões deste solar eram frequentemente percorridos  por fantasmas, criados pelas mentes visionárias daquela gente simples e humilde do sertão. Conta-se que, em determinada hora,  na escuridão da noite, uma mulher muito esguia sentava-se no telhado do sobrado, colocando os pés no chão. Ninguém ousava por ali passar e, quando passava, ao se deparar com ela, saía em disparada, quase colocando a alma pela boca. Entretanto, ao raiar do dia, tudo voltava à normalidade na então pacata cidade de Curvelo.

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h38
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Gente do Sertão

                          José Emílio Ferreira Soares

 

O coronelismo, durante o período da República Velha, como também  no Estado Novo, desempenhou papel de manipulador das massas populares, cabendo aos chefes políticos, a decisão das eleições. O povo não tinha voz, nem vez . Era sempre encabrestado, a fim de prevalecer o poder de mando. Em época de eleição, a jagunçada aparecia, para garantir a vitória do candidato apontado pela oligarquia política dominante. Os cemitérios ficavam despovoados com o ressuscitamento dos defuntos, que se encaminhavam às urnas para darem o seu voto e a sua assinatura de além-túmulo. As atas eram lavradas a bico de pena, em conformidade com aqueles que almejavam alcançar o poder. Crianças, jovens, velhos e defuntos, todos depositavam sua assinatura  em tão importante documento. A vitória do candidato era dada de acordo com os interesses dos chefes políticos locais. Os romances regionalistas brasileiros retratam, dentro de uma visão crítica e sociológica, esse quadro jocoso, porém, triste, das primeiras fases da nossa desastrosa vida republicana. Entretanto, nos tempos atuais, quase nada mudou, pois, cabe ao jogo do poder o uso da mídia e do lobby, como meios eficazes para a classe dominante  ganhar sempre as eleições.

 

Estado de Minas - Cartas à Redação16/07/1992

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 16h05
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares-Curvelo-MG.

 

         O movimento revolucionário de 30, que levou ao poder Getúlio Vargas, apoiado pela Aliança Liberal, teve consideráveis reflexos em Curvelo. A cidade vivia clima de expectativa, devido à insuficiente comunicação da época. Não é que três “valentes” rapazes apearam de seus cavalos, na porta do então Agente Executivo, Cel. José Soares dos Santos, para lhe comunicar terem visto, pelas bandas do Alto do Tote, um grupo de homens postos para invadir Curvelo?  Logo, o chefe do governo municipal tomou as devidas providências, e pessoas da sociedade armaram-se de unhas e dentes. A população ficou apreensiva. A cidade encontrava-se desguarnecida, pois a polícia local fora fortalecer as tropas de Belo Horizonte, combatendo juntamente com o 12 RI. Diante disso, Zeca de Assis Leal fardou-se de sargento, formando um batalhão de bate-paus para defender a cidade. Os curvelanos armaram-se, uns de medo e outros de coragem.

         Em 24 de outubro, quando os revolucionários encontravam-se na praça Voluntários da Pátria, diante do fórum, ouviram do Dr. Gastão Coimbra, do alto da sacada, a leitura do telegrama, comunicando a deposição do Presidente Washington Luiz. Tiros de regozijo ressoaram pela cidade, dando a sensação de um ataque armado. O seu efeito psicológico fez com que muitos, apavorados, embrenhassem pelo mato adentro, mulheres parissem  fora do tempo e outros,  se armassem para defender o seu solar.

         Assim, Curvelo inaugurou a era Vargas, depois de um bang-bang, que, na verdade,  nunca existiu.         

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h54
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares-Curvelo-MG

 

     A psicose revolucionária que culminou com a queda de Jango, em 64, cujo objetivo principal foi a luta contra o comunismo, teve notável participação de Curvelo. De fato, um grupo de pseudo-esquerdistas curvelanos, presente em um comício em Corinto, foi de lá escarreirado, sob as balas de um coronel sem patente. Pois bem, logo depois instalou-se o QG no prédio da Associação Rural, onde já funcionava a Câmara Municipal de Curvelo. Reuniram-se, ali, as elites dominantes da região, comandadas por um capitão do Exército. Não é que, neste clima de pânico, noticiou-se uma suposta invasão de Curvelo  por tropas do exército, fiéis a João Goulart? A primeira medida tomada pelo visionário comandante seria estourar a ponte sobre o Córrego da Paciência, que liga os municípios de Curvelo e Paraopeba.  Um político curvelano organizou o batalhão dos “caçadores”.  Armados de espingardas de caçada - só faltou cachorro perdigueiro - e munidos também de matalotagem, para fazerem um senhor piquenique nas horas de folga, aqueles bravos curvelanos, em incômodas carrocerias de caminhão, foram enfrentar sofisticadas armas do exército. Entretanto, tudo não passou de um blefe. E os valentes  “espingardeiros,” após penosa empreitada, quando  regressaram ao recinto da Câmara,  apenas ouviram do chefe do Executivo Municipal:  “Os comunistas serão presos”.  Portanto, os curvelanos cumpriram sua missão e, posteriormente, foi deflagrada a revolução em 31 de março.

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 18h01
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

 

 

     A sociedade curvelana sempre acolheu tipos populares que aqui chegaram, os quais prestavam-lhe serviços domésticos e outros mais. Houve alguns deles que passaram a morar em casas de família e ficaram conhecidos, muitas vezes, pelo nome do  proprietário. Um deles foi João da Paz, o João Bobo, que viveu no lar de Seu Luiz da Paz, e outro foi João Barata, porque se encontrava sob a proteção da família de José Barata A esta consideração atribui-se, portanto, a aceitação dessa gente simples no seio das famílias, também devido ao tamanho exíguo da comunidade na época, onde os laços de conhecimento entre todos eram bem mais estreitos. Todos conheciam todos. À medida em que a cidade foi crescendo com  o progresso econômico, começou-se a perceber um certo distanciamento entre as pessoas, o que contribuiu para o deslocamento dos tipos populares para a periferia. Hoje, muitos deles são conduzidos a hospitais e asilos.

      De vez em quando, a gente deparava na rua com Antônio Sete Flechas, um dos últimos remanescentes da geração dos tipos populares. Parece que ele teria vindo da região de Porto Faria. Quantas  vezes ele contou que, por aquelas bandas, as galinhas costumavam andar de cincerro no pescoço e que lá, o povo virava anjo! Exímio violonista, apesar da demência, dava um show que não estava no gibi, motivo pelo qual era conhecido também por Antônio Violão.  Apaixonado pelo militarismo, andava constantemente com o chapéu cheio de medalhas, imaginando se identificar com um comandante qualquer.

     O tempo passa e os últimos remanescentes começam a desaparecer. Assim é o gira-mundo da vida!.. 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 09h36
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