CÍRCULO MONÁRQUICO DE CURVELO


Guerra de Canudos

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O triste episódio de Canudos, marcado pelo confronto entre o Exército brasileiro e os integrantes de um movimento popular de fundo sócio-religioso, no último quartel do século X1X, assinalou uma das páginas mais negras da nossa história.

 

A “Tróia de Taipa” dos jagunços, instalada às margens do rio Vaza-Barris, próximo ao arraial de Monte Santo, no sertão da Bahia, transformou-se em uma poderosa barreira contra as expedições do governo Prudente de Morais, empenhadas em dizimar aqueles pobres sertanejos.

 

Liderados por Antônio Conselheiro, eles se opunham ao autoritarismo de uma república, que ao longo de sua existência,  usou sempre a força ditatorial para manter-se.

 

De mãos crispadas e rostos marcados pelo sofrimento, enfrentaram com altivez e determinação a criminosa intervenção do governo. De fato, Canudos jamais foi vencida, pois deixou à posteridade um exemplo de luta contra qualquer tipo de opressão.

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h00
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Coroação de Dom Manuel II

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O episódio do regicídio, que abalou Portugal em 1º de fevereiro de 1908, sinalizou uma crise institucional das mais lamentáveis. Ao regressarem de Vila Viçosa, foram assassinados pela Carbonária no Terreiro do Paço, em Lisboa, El rei, Dom Carlos I e seu filho, Dom Luiz Filipe, príncipe herdeiro da Coroa. O infante Dom Manuel, Duque de Beja, regressara dias antes, devido a seus estudos preparatórios para se ingressar na Escola Naval. Quando ele foi esperar os pais e o irmão, estava armada a emboscada, vendo-se no meio de um tiroteio que lhe atingiu o braço.

 

A Carbonária, sociedade secreta que tinha como objetivo atuar nos movimentos revolucionários, principalmente em Portugal, França e Espanha, assentava suas raízes na Itália, destacando-se como seus principais líderes, Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi. Este foi cognominado Herói dos Dois Mundos, pois atuou durante a unificação italiana, no século XIX, e também no Brasil, onde se destacou na Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul.

 

Consternados com a morte do seu rei, os portugueses pressentiam dias obscuros na vida nacional, pois uma crise política estava instaurada. Desafiando aqueles momentos difíceis da nação, é coroado rei dos portugueses, Dom Manuel II, que, com pulso firme, se dispôs a sacrificar-se pelo seu povo.

 

Com apenas 18 anos, traumatizado ainda pela tragédia do regicídio, assumiu a chefia do Estado Português, com a determinação de assegurar a proteção das instituições nacionais e do Estado de Direito. Enfrentou, com energia, a oposição republicana, manipulada pelo terrorismo da carbonária, pois chegou a ser ameaçado de morte, o que teve repercussão na imprensa internacional. Mesmo assim, a sua subida ao trono foi um sucesso, sendo aclamado por todo o país: “Rei e Povo estão unidos”!

 

Dom Manuel II manifestou singular preocupação com a questão social, pois a revolução industrial do século XIX,  que mudou toda a  ordem mundial, iria repercutir no alvorecer do século XX. Uma nova teoria econômica, fundamentada na dialética, que seria apresentada na obra Le Capital, de Marx, e em seu Manifesto Comunista, em parceria com Engels, norteavam o proletariado para a luta de classes, ao suscitar sérios questionamentos. Sabiamente, a Igreja, nesta época, apresentou sua teoria fundamentada nos princípios evangélicos, através da  encíclica Rerum Novarum,  do Papa Leão XIII,  rebatendo o materialismo dialético e orientando a  humanidade a seguir os caminhos seguros da caridade cristã.

 

No seu curto reinado, Dom Manuel II teve que enfrentar a exacerbada oposição do Partido Republicano. Este, com sua ação reivindicatória, colocava em questão os sérios problemas econômicos do País devido à sua fraca industrialização. Respeitando os princípios constitucionais, o rei aliou-se ao Partido Socialista, que existia desde 1875, apesar de nunca ter tido representação parlamentar. O objetivo principal dessa aliança, não enfocava a inexpressiva classe operária do país, nem tão pouco as divergências internas de cunho  doutrinário. A estratégia visava, sobretudo, o equacionamento formulado para combater o radicalismo do Partido Republicano, retirando dele o apoio do proletariado urbano, para estabelecer o equilíbrio da Coroa portuguesa.

 

Em 1909, o rei convidou o sociólogo francês, Léon Poinsard, para elaborar um estudo em seu país, objetivando combater o clientelismo derivado do rotativismo. O cientista político-social concluiu que a solução mais eficaz para a concretização da reorganização do trabalho e administração locais, estaria na  reforma política, que, como conseqüência, viria a se realizar naturalmente.

 

O rei expôs ao presidente do Conselho de Ministros, Venceslau de Lima, a importância de se reorganizar o Partido Socialista, pois entendia que a sua colaboração com o regime era imprescindível. Os socialistas seriam os únicos capazes de desviar a classe operária, que apoiava o Partido Republicano. A chefia do Governo, com a liderança socialista, apesar dos esforços para atingir o seu objetivo, não conseguiu impedir que o Congresso Nacional Operário atravessasse sérias dificuldades, devido ao boicote que sofreu por anarquistas e republicanos, com a realização de um outro congresso.

 

Entretanto, os socialistas não desanimaram, pois tinham a garantia do apoio régio, que assegurava a oposição aos republicanos. Alfredo Aquiles Monteverde, dirigente do Partido Socialista, relatou ao rei, em outubro de 1909, a falência do Congresso Sindicalista e lhe agradeceu o interesse pela classe operária. No entanto, a instabilidade governamental continuava, mesmo com todo o apoio régio, pois o governo necessitava, com urgência, de medidas concretas que mostrassem a aproximação aos socialistas.

 

Em julho de 1910, no governo de Teixeira de Sousa, criou-se uma comissão integrada por três socialistas, dentre eles Azedo Gneco, com o objetivo de estudar a fundação de um instituto de trabalho nacional.. Apesar dessa medida, a insatisfação ainda persistia nos meios socialistas. Aquiles Monteverde, então, alegou que se deveria conceder à comissão meios eficazes e de caráter permanente, para que os delegados socialistas pudessem ter acesso ilimitado aos meios de transporte, a fim de promoverem sua propaganda.

Ciente da situação, o Rei encaminhou ao governo a reivindicação, acatada imediatamente pelo ministro de obras públicas, que aceitou a criação do Instituto de Trabalho Nacional.

 

Quanto à política externa do Rei, foi bastante intensa, apesar do seu curto e tumultuado reinado. Visitou oficialmente a França, Espanha e Inglaterra, esperando destes países o seu apoio para o fortalecimento do trono lusitano. Em novembro de 1909, a Coroa inglesa lhe havia conferido o título de Cavaleiro da prestigiada Ordem da Jarreteira. No mesmo ano, recebeu a visita de Afonso XIII, rei da Espanha, e em 1910, do presidente eleito do Brasil, Hermes da Fonseca.

 

A exemplo de seu pai, El Rei Dom Carlos I, o monarca procurou desenvolver uma política de aproximação com a Grã-Bretanha, não só por orientação geo-política, como também para assegurar a proteção da Casa de Bragança, pois havia estreita amizade entre a Coroa portuguesa  e a Casa real britânica, na pessoa do seu rei, Eduardo VII. Para  selar esse intento, já estava desenhado o projeto do casamento do rei português com uma princesa inglesa, cujo enlace não se realizou devido à morte do rei britânico, amigo pessoal de Dom Calos I, e às sucessivas crises internas da nação lusitana. Esta situação norteou o novo governo liberal inglês a não se interessar em defender o trono português.

 

Crises políticas sucederam-se com freqüência em decorrência das constantes questiúnculas, que contribuíram para a divisão dos partidos da base monárquica. A fragmentação da base do governo refletiu consideravelmente nas eleições legislativas de 28 de agosto de 1910, ao corroborar a vitória do partido republicano, que aumentou o número de deputados de oposição  no Parlamento.

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h00
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Como o Congresso de Setúbal, de 24 a 25 de abril de 1909, já havia decidido a tomada do poder, a causa revolucionária foi favorecida com o resultado do recente pleito eleitoral. A crise se ampliou de forma significativa e em 4 de outubro de 1910 estourou a revolução, que no dia seguinte, 5 de outubro, culminou com a proclamação da República em Lisboa.

 

O palácio das Necessidades, residência oficial do rei foi bombardeado, exigindo a retirada do monarca, que, a conselho de seus líderes, dirigiu-se ao Palácio Nacional de Mafra, onde iria encontrar-se com a rainha sua mãe e sua avó, a rainha-mãe Dona Maria Pia de Sabóia. Diante da vitória republicana, o rei decidiu-se embarcar na Ericeira,  no iate real “Amélia”, com destino ao Porto. Percebendo a grave situação, os oficiais a bordo teriam demovido Dom Manuel dessa intenção ou raptaram-no simplesmente, levando-o para Gibraltar. Ao desembarcar em Gibraltar, a família real logo recebeu a notícia de que o Porto aderira à República. O golpe de Estado estava terminado. A família real seguiu dali para o Reino Unido, onde foi recebida pelo rei Jorge V.

 

Exilado na Inglaterra, o rei Dom Manuel, acompanhado de seus bens particulares, fixou residência em Fulwell Park, Twickenharn, nos arredores de Londres, local onde sua mãe, Amélia de Orleães nascera, também no exílio, durante a ocupação do trono francês por  Napoleão III, em 1848. Somente após a queda do império, em 1871, os Orleães puderam voltar ao seu país.

 

Apesar das tentativas de restauração da monarquia em 1911,1912 e 1919, Dom Manuel procurou construir ali um ambiente português, mantendo-se em evidência na sociedade inglesa. Casou-se com sua prima, Dona Augusta Vitória,  princesa alemã de Hohenzollern-Sigmaringen, em 4 de setembro de 1913, na capela do castelo de Hohenzollern. Continuou a seguir, de perto, a política portuguesa, exercendo influência junto aos círculos políticos, nomeadamente as organizações monárquicas. Alimentou uma constante preocupação de que a anarquia da primeira república provocasse uma eventual intervenção espanhola, o que poderia desestabilizar a soberania nacional.

 

Desempenhou importante papel no campo da diplomacia, quando a Inglaterra não aceitou as credenciais de um novo diplomata português, devido à instabilidade provocada pelo golpe republicano, refletida na sucessiva troca de embaixadores. Nesta ocasião, as negociações de liquidação  da dívida de Portugal com a Inglaterra encontravam-se em andamento, exigindo uma política conciliatória das mais coerentes. O Ministro dos Negócios Estrangeiros se viu na obrigação de recorrer ao rei Dom Manuel para desbloquear esta situação.

 

Satisfeito por ajudar o seu país, o monarca, com seu prestígio, recorreu ao governo inglês, incluindo, provavelmente, o seu amigo Jorge V, o que teve imediato resultado  para o governo português.

Dom Manuel sempre gozou de elevado grau de patriotismo, e mesmo deposto e exilado, declarou em 1915, no seu testamento, a doação de seus bens ao Estado português para a fundação de um Museu, manifestando também a vontade de ser sepultado em Portugal.

 

Sob a liderança do carismático Henrique de Paiva Couceiro, os monarquistas exilados se concentraram na Galiza com o  beneplácito do governo espanhol, para entrarem em Portugal e restaurarem a monarquia. O Paladino - alcunha dada pela imprensa republicana ao líder monarquista – acreditava que bastaria uma demonstração de forças para que o povo rural aderisse à insurreição, porém, nada aconteceu como se planejara.

 

Dom Manuel apoiou estas incursões, apesar de seus parcos recursos financeiros nos primeiros anos do exílio. Porém, ocorreu um fato que merece consideração. A primeira incursão, feita sob a bandeira azul e branca, mas sem a Coroa, foi precedida por um manifesto de Paiva Couceiro, que a defendia como um movimento neutro, porém, reclamava um plebiscito para decidir a forma de regime. Dom Manuel, sendo um monarca constitucional e legalmente jurado, não aceita ser sujeito a um referendo. Só após a aceitação de que a restauração seria baseada na sua pessoa e na Carta Constitucional de 1826, o rei passou a apoiar os exilados da Galiza.

 

A segunda incursão ocorreu em 1912, mas apesar de ter sido melhor preparada, não obteve sucesso. O governo espanhol viu-se obrigado a ceder às pressões diplomáticas, diante do reconhecimento da república portuguesa. Os conjurados, diante desta situação, tiveram que decidir se seriam desarmados ou se retornariam a seu país. O governo espanhol acabou por desarmar os combatentes restantes, cuja presença na Galiza já era considerada ilegal.

 

Dom Manuel, entretanto, nunca aceitou a restauração baseada na força, porém a maioria dos monarquistas mais radicais não acatava a sua orientação. O monarca defendia que a restauração só poderia legitimar-se através de vias legais, com a participação popular através do voto. Dom Manuel, preocupado diante dessa delicada situação, da falta de sintonia entre ele e o grupo restauracionista, previa o surgimento de um movimento anarquista, que só poderia trazer sérios problemas para o seu país.

 

Com o começo da primeira grande guerra a situação agravou-se, pois os relacionamentos políticos e diplomáticos entre a Inglaterra e Portugal poderiam sofrer sérios problemas. Dom Manuel receava que a aproximação da Espanha às potências ocidentais, levasse a Inglaterra a substituir Portugal pelo seu vizinho, como seu aliado, e que o próprio país seria o preço cobrado por Afonso XIII pela sua entrada na guerra.

 

Dom Manuel, sendo anglófilo, admirador do espírito britânico, defende, a partir da entrada de Portugal na guerra, uma participação mais ativa, instando os monarquistas a unirem-se aos republicanos objetivando a unidade lusitana, pois seria desaconselhável qualquer movimento de cunho restauracionista durante o conflito. Ele chegou, mesmo no exílio, a solicitar sua incorporação no exército republicano português. Entretanto, a maioria dos monarquistas portugueses, sendo germanófilos, não responderam às expectativas do rei, pois acreditavam que a vitória do Kaiser facilitaria a restauração da monarquia.

 

Dom Manuel, por sua vez, temia a perda de suas colônias em decorrência da ambição germânica, caso os alemães conquistassem a vitória, e com o apoio britânico a unidade lusitana estaria garantida, não importando qual  a forma de governo adotada. No entanto, aqueles mais próximos ao rei que se ofereceram para lutar, foram recusados, pois o governo republicano não aceitou serviços de nenhum monarquista.

 

O próprio monarca ofereceu seus serviços aos aliados para servir como melhor pudesse. Foi colocado como oficial da Cruz Vermelha Britânica, onde desempenhou importante papel ao longo da guerra, participando de conferências e recolhimento de fundos, visitando hospitais e mesmo os feridos na frente, o que acabou sendo-lhe muito gratificante. As visitas às frentes de batalha foram dificultadas pelo governo francês, porém, sua amizade com Jorge V desbloqueou todos esses entraves. Apesar de tudo, seu esforço não foi reconhecido.

 

Anos mais tarde, em entrevista a Antônio Ferro, lamentou-se: “A sala de operações do Hospital Português em Paris durante a guerra, foi montada por mim. Sabe o que puseram na sua placa de fundação? De um português de Londres”. Coube ao rei a criação do departamento ortopédico do hospital de Sheperds Bush, que, por sua insistência, continuou a funcionar até 1925, assistindo aos mutilados de guerra. Jorge V, ao convidar Dom Manuel para ocupar a tribuna de honra e assistir ao desfile da vitória em 1919, demonstrou uma prova de reconhecimento dos ingleses para com o monarca e Portugal.

 

Com a queda da monarquia constitucional em Portugal, deflagrou-se um movimento de renovação nacional, conhecido como Integralismo Lusitano. Formado por um agrupamento sócio-político tradicionalista português, exerceu sua influência entre 1914 e 1932, e por intermédio dos seus dirigentes fundadores e discípulos, na oposição ao Estado Novo de Oliveira Salazar.

 

Este movimento originou-se entre os católicos e monarquistas portugueses exilados na Bélgica em 1913, a princípio, de caráter cultural, em reação ao anticlericalismo da primeira república. Em 1914, o movimento tornou-se político, incorporando também republicanos desiludidos com a república, ao ser formalmente constituído no mesmo ano na cidade de Coimbra, em torno da revista Nação Portuguesa.

 

Entretanto, os proponentes nunca deixaram de evidenciar que a forma monárquica que defendiam, diferia da que fora derrubada em 1910. Eles propunham a forma tradicional das corporações e dos municípios, e não aceitavam a representação parlamentar assentada exclusivamente em partidos ideológicos, defendida pela Constituição. Dom Manuel, apesar de concordar com eles, manteve, é claro, sua fidelidade aos princípios constitucionais, aos quais prestou juramento. Quaisquer alterações na Constituição, segundo o monarca, teriam que passar pela apreciação das cortes reais da nação, uma vez restabelecida a monarquia.

 

Com o crescimento das forças das idéias integralistas entre as hostes monarquistas, aumentavam as exigências sobre Dom Manuel pedindo a sua manifestação, porém, ele continuava fiel a seu juramento à Carta Constitucional portuguesa. Diante desta problemática e do fracasso da Monarquia do Norte, ao acusar o rei pela sua falta de interesse na restauração, a Junta do Integralismo Lusitano declarou-se desobrigada de sua fidelidade para com o antigo monarca em outubro de 1919.

 

Em julho de 1920, representantes do movimento reuniram-se com o ramo Legitimista e decidiram transferir sua lealdade ao terceiro filho de Dom Miguel II, o então ainda menor, Dom Duarte Nuno, Duque de Bragança. Em 1942, ele casou-se no Brasil com Dona Maria Francisca de Orléans e Bragança, princesa do Brasil, bisneta de Dom Pedro II. De seu casamento nasceu Dom Duarte Pio, Duque de Bragança e atual Chefe da Casa Real Portuguesa.

 

De fato, Dom Manuel foi um monarca iluminado, pois durante o seu reinado desempenhou, com objetividade, suas funções de Chefe de Estado. Bibliógrafo, nutriu atenção especial pela veracidade histórica, destacando-se os livros antigos e a literatura portuguesa. Cognominado O Patriota, manteve preocupação constante pelos assuntos pátrios. Também os monarquistas lhe deram o nome de O Rei–Saudade, pela saudade que lhes deixou após a abolição da monarquia.

 

A sua morte repentina no exílio levou o governo português, chefiado por Antônio de Oliveira Salazar, a lhe conferir honras de Chefe de Estado. Os restos mortais do rei foram sepultados no Panteão dos Bragança, no mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Os seus bens particulares, juntamente com os da Casa de Bragança, foram constituídos, por iniciativa do Governo de Salazar, na Fundação da Casa de Bragança.

 

Ë oportuno que se destaque a importância de São Vicente, padroeiro de Lisboa, na história secular da monarquia e da nação portuguesas. Foi proclamado padroeiro de Lisboa em  1173, quando suas relíquias foram transferidas do Algarve para uma igreja fora das muralhas da cidade. Em 1582, começou a edificação da igreja, no lugar onde Dom Afonso Henriques tinha mandado construir um primeiro templo, também em honra de São Vicente.

 

Ficam aqui as nossas considerações acerca da história do grande povo lusitano. De fato, Dom Manuel II, coroado rei dos portugueses em meio ao tumulto das revoluções republicanas, soube desempenhar suas funções de Chefe de Estado com firmeza e dignidade até o final de seus dias, numa demonstração de que a história é a testemunha da vida!  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 16h46
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Luiz Cláudio

José Emílio Ferreira Soares

Luiz Cláudio de Castro, nascido em Curvelo, foi um dos cantores mais talentosos que já conheci, de voz suave e aveludada. Desde criança, na Curvelo de ruas poeirentas dos anos 40, convivi com sua família, sendo seus pais o farmacêutico José de Castro e Dona Amélia, professora e diretora do Grupo Escolar Monsenhor Rolim.

No período em que aqui morou, gozou de grande amizade com os rapazes de sua época. Aqui ele começou a desenvolver seus pendores artísticos, não só como cantor, compositor e violonista, como também desenhista e pintor. A lápis crayon, ele fez o retrato do escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, que era patrono do Grêmio Literário do Ginásio Padre Curvelo, onde estudava.

Nessa década, eu morava na rua Silveira Lobo, onde, certa manhã, deparei com ele de prancheta nas mãos, retratando o contorno da rua com suas casas, pegando, lá no alto, parte da Matriz de Santo Antônio com suas torres.

Era um artista polivalente. Como cantor, ele e alguns companheiros curvelanos, criaram o conjunto musical Os Três Luízes, formado por Luiz Cláudio, Luiz Carlos Santana e Washington Luiz. Faziam apresentações nas casas e nas festas, animando a vida social da Curvelo daquele tempo. Chegaram até a gravar um disco, que fez muito sucesso.

De Curvelo, Luiz Cláudio partiu para Belo Horizonte,  mudando-se depois para o Rio de Janeiro, onde se projetou na vida artística e profissional. Ao lado de seus irmãos, o músico e arranjador Marcos de Castro, e de Antônio Maurício de Castro, fez parceria com o músico Pacífico Mascarenhas, compondo lindas modinhas.  Luiz Cláudio, este curvelano de talento extraordinário, musicou  letras de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Também interpretou canções de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Toquinho, Caetano Veloso e muitos outros compositores brasileiros de renome internacional.

Suas canções traduziam as emoções do sertão curvelano, quando nelas recordava-se da tradicional poeira de nossas ruas naquela época, referindo-se também ao Tibira, Tibirinha, Passaginha, Cacimbinha e outros lugares, que a memória saudosista luta para alcançar. É o passado, que emerge das entranhas do presente.

Mais tarde, no Rio, Luiz Cláudio formou-se em arquitetura. Como artista que era na pintura, ele mesmo ilustrou a capa de seus discos e álbuns musicais. Também empreendeu uma longa turnê pelo exterior, apresentando sua música com sucesso.  Também participou de um filme, em parceria com a famosa cantora da época, Ângela Maria.

Em 1972, quando Dr. Márcio de Carvalho Lopes era prefeito de Curvelo, a TV Itacolomi lançou uma gincana com o título Mineiros Frente a Frente. Curvelo entrou na disputa e  Luiz Cláudio foi solicitado para defender sua terra, em um dos quadros apresentados. Ele e seu irmão, Marcos de Castro, compareceram em Belo Horizonte e deram o maior show. Foi um sucesso. Curvelo liderou mais uma etapa, vencendo todos os  quesitos até o final.

Não faz muito tempo, conversei com Luiz Cláudio por telefone. Ele já estava residindo em Guaratinguetá, SP, onde faleceu em 2013. Às vezes, fico matutando e chego a procurar uma resposta em João Guimarães Rosa. Na sua obra Grande Sertão Veredas, ele diz: “A gente não morre, fica encantado”. De fato, Luiz Cláudio de Castro não morreu. Ficou encantado. E assim, haveremos de ficar todos nós um dia!                            

                                 

                                                                                                     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                        

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 15h17
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Cultura Brasileira

 

José Emílio Ferreira Soares

 

A formação cultural do povo brasileiro é o resultado de um longo processo de assimilação de costumes de várias outras culturas. A etnia do Brasil, ainda em processo de definição pela mistura de raças e diferentes tipos, só nos engrandece, pois é na diversidade que se busca a identidade cultural e racial de um povo.

 

Assim aconteceu também com outras civilizações, que herdaram de seus ancestrais, considerável bagagem cultural. A lamentável destruição das civilizações inca, maia e asteca pelos sangüinários espanhóis, deixou empobrecida a história das civilizações latino-americanas, pois os povos da América pré-colombiana guardavam consigo, conhecimentos dos mais avançados que o mundo contemporâneo possa imaginar.

 

A Península Ibérica, ocupada pelos árabes, recebeu deles notável contribuição para a sua formação cultural. Assim, também, como no Velho Mundo, o Brasil recebeu influência de várias culturas que determinaram sua gente.

 

Os vaqueiros nordestinos, vestidos de couro, lembram os cavaleiros da Idade Média, que envergavam pesadas armaduras para sangrentas lutas, dos quais herdaram, no inconsciente, este importante legado.

 

Também a literatura de cordel e os repentistas, cantadores das feiras do nordeste, encontram-se em sintonia com o classicismo greco-romano, espelhado no renascimento camoniano, isto é, na obra de Camões.

 

Eis aí, algumas considerações a cerca de nossas raízes, as quais serviram de base para a nossa cultura.

Entretanto, motivados pelas escolas de língua inglesa, querem nos impor uma cultura que nada tem a ver com a nossa formação. O halloweem, por exemplo, que passou pela Irlanda, atingindo os Estados Unidos e Canadá, é de origem celta - povos anglo-saxões que viveram nas ilhas britânicas, cinco séculos antes de Cristo.

 

É necessário, pois, que os jovens brasileiros revejam seu passado histórico, sem o qual, jamais construirão o presente, preparando-se para um futuro promissor!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 09h20
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Marechal Rondon

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, que completaria 150 anos neste mês de maio, recebeu o título de Herói da Pátria, pelos nobres serviços prestados ao país. Ele foi desbravador dos sertões do Brasil, pacificador de inúmeras tribos indígenas brasileiras, além de implantar as linhas de telégrafo, pelo ainda desconhecido norte do Brasil. Ele emprestou seu nome ao Estado de Rondônia e ao importante Projeto Rondon, de repercussão internacional.

 

Recentemente, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou este projeto de lei, conferindo-lhe este título em caráter terminativo, o que passou praticamente despercebido pela maioria da população brasileira. Esperamos que logo seja convertido em lei.

 

A cidade de Curvelo teve, durante muito tempo, uma bela avenida Marechal Rondon, que partia da Vila de Lourdes até o Bairro Bela Vista. Foi uma justa e sensível homenagem prestada pelos munícipes curvelanos ao ilustre brasileiro. Entretanto, assim que ela recebeu asfalto, a Câmara Municipal de Curvelo, como sempre, com seu puxa-saquismo e falta de conhecimento histórico, aprovou a mudança do nome para avenida Renato Azeredo, nome de um deputado de Sete Lagoas, do antigo PSD, que era sempre eleito com os votos de Curvelo, (seu curral eleitoral), a quem o povo curvelano não deve favor e nenhuma obrigação.

Porém, nem tudo está perdido. Cabe aos moradores da referida avenida, a iniciativa de requerer à Egrégia Câmara Municipal a restauração do seu nome primitivo: Avenida Marechal Rondon. Como “o poder emana do povo”, a autoridade, portanto, cabe aos munícipes, aos quais os políticos devem respeitar.

Em Curvelo acontecem coisas do arco-da-velha!...

       

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h10
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Golpe Republicano

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O golpe militar de 15 de novembro de 1889, que derrubou a Monarquia na calada da noite, sem o conhecimento da Nação brasileira, e instituiu a República Provisória do Brasil, trouxe graves consequências, que se arrastam até os nossos dias.

 

É importante lembrar que a referida quartelada teve sua origem num rabo-de-saia, disputado entre o Marechal Deodoro da Fonseca e o gaúcho Gaspar da Silveira Martins. O Marechal Deodoro era monarquista, amigo pessoal de Sua Majestade, o Imperador Dom Pedro II, e lhe devia incalculáveis favores. No entanto, estando ele acamado com grave crise de apneia, recebeu a visita de um grupo de traidores da Pátria que tinha em mãos o decreto nº 1, que instituía a República Provisória do Brasil, redigido pelo conspirador, Dr. Rui Barbosa. Nesse momento, ouviu de um deles o seguinte comunicado: “Gaspar da Silveira Martins será nomeado Primeiro Ministro por Sua Majestade, substituindo o Visconde de Ouro Preto”. Sentindo-se corneado, sem titubear foi logo dizendo: “Deixem-me assinar esta porcaria”. Com esta assinatura precipitada, Deodoro estava declarando a sentença de morte do Brasil-Império.

 

Daí por diante, a República imposta ao povo brasileiro destruiu a ética e as qualidades morais do Império, ao assaltar o Tesouro Nacional, patrimônio da Nação brasileira, desenvolvendo um processo inflacionário sem limite. É bom lembrar que chegamos ao ponto em que outro conspirador, Silva Jardim, chegou a propor o fuzilamento da família imperial. Algum tempo depois, por ironia do destino, ele viu-se tragado pelas chamas do vulcão Vesúvio, na Itália.

 

O Marechal Deodoro da Fonseca tomou posse como primeiro Presidente no governo provisório da República, encontrando pela frente graves problemas. A crise econômica se agigantou de tal forma, que o governo não conseguiu solucioná-la. Tomou medidas autoritárias, acabando por fechar o Congresso, o que desencadeou  uma crise institucional que o levou à renúncia.

 

Ao assumir o governo, o seu vice, Marechal Floriano Peixoto, conhecido como Marechal de Ferro, adotou medidas extremamente autoritárias. Logo no princípio do seu governo, impôs sua mão de ferro para calar as vozes que clamavam por justiça. Em Santa Catarina, na região de Nossa Senhora do Desterro, assassinou centenas de inocentes através do Cel. Antônio Moreira César, que acabou alvejado e morto pelas balas dos jagunços de Antônio Conselheiro, na guerra de Canudos, na Bahia, durante o governo do primeiro presidente civil, Prudente de Morais.

 

O episódio da Revolta da Armada, no Rio de Janeiro, detonou uma das mais graves crises no governo do sanguinário Floriano Peixoto. A Marinha do Brasil exigiu o cumprimento da Constituição, pois deveria ser convocada imediatamente nova eleição presidencial com a renúncia de Deodoro. Lideravam o movimento da Armada o almirante Saldanha da Gama, Eduardo Wandenkolk e Custódio de Melo, ex-ministro da Marinha e candidato declarado a sucessor de Floriano. Sua adesão refletia o descontentamento da Armada com o pequeno prestígio político e popular da Marinha, em comparação com o Exército. No movimento encontravam-se jovens marinheiros monarquistas. Houve sangrentas batalhas em diversas unidades encouraçadas contra a artilharia dos Fortes, em poder do Exército. Com o agigantar do movimento, o ditador e traidor Floriano pediu a ajuda de navios assassinos norte americanos, que atiraram contra os jovens marinheiros. Uma página negra se abriu na história da Pátria brasileira.

 

Há mais de cem anos, a pseudo república provisória do Brasil permanece com seus vícios, como golpes de estado, estado de sítio, impeachment, ditaduras, como o Estado Novo de Getúlio Vargas e seu consequente fechamento do Congresso Nacional, os vinte anos do período militar, iniciado com a revolução de março de 64, assaltos ao Tesouro Nacional pelos políticos, com raríssimas exceções, com este presidencialismo, que não deixa de ser uma ditadura constitucional, pois, através de decretos-leis e medidas provisórias, legislam em causa própria, cabendo ao Congresso apenas o dever de corroborar.

 

De fato, concluímos que a República é um balcão de negócios. Nada funciona! Assim segue nossa pátria no seu triste caminho, que nem um samba de crioulo doido. Apesar de tudo, o nosso Brasil, aos poucos, se encontra com o seu destino nos legítimos caminhos de sua História, e ao restaurar a Monarquia Parlamentarista, pela vontade do povo, voltará a ser uma grande Nação, respeitada e acatada como sempre fora durante o Império do Brasil!

 

É o passado reconstruindo o presente!



Escrito por Curvelo Imperial às 11h03
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Agradecimento ao Legislativo e Executivo curvelanos, por ocasião da inauguração da rua Juvenal Pereira Soares

 

Autoridades curvelanas.

Soares, parentes e amigos.

Queridos munícipes.

 

Com imenso orgulho estamos aqui, Soares, Parentes e Amigos para agradecer ao Legislativo Curvelano, a aprovação do Projeto de Lei do Vereador Gerson Roberto de Oliveira, que nominou rua Juvenal Pereira Soares no bairro Palmeiras. Agradecemos, também, ao Executivo curvelano, que homologou o referido projeto, transformando-o em lei, pelas mãos do então prefeito, Dr. José Maria Pena. Queremos evidenciar, outrossim, que o mérito coube exclusivamente ao Sr. Vereador, sem nenhuma interferência da família, pois ele soube reconhecer os valores morais de meu pai, que tanto trabalhou por sua terra natal.

 

Juvenal Pereira Soares nasceu em Curvelo, em 7 de agosto de 1911, era o segundo  filho de Raymundo Soares de Sant’Anna e Emília Pereira Diniz. Ele e mamãe, sua querida Auxiliadora, formavam um casal exemplar, vivendo 70 anos de um feliz matrimônio.

Nesta oportunidade, quero relatar alguns momentos de sua vida.

 

Bem criança ainda, em Pirapora, ele se levantava de madrugada para assumir a responsabilidade do caixa de um açougue.

Já agora, ao apagar das luzes, ele se lembrava de um fato inusitado, lá pelos anos de 1922.  Ele e seu irmão Vicente tocavam na banda de música Santa Cecília  de Pirapora, sob a regência de Mestre Galvão, quando aconteceu a inauguração da ponte Marechal Hermes da Fonseca, sobre o rio São Francisco, com a presença de autoridades da União e do Estado. Perante o Presidente da República, Epitácio Pessoa, o Presidente eleito, Arthur da Silva Bernardes e o Presidente do Estado de Minas Gerais, Raul Soares de Moura, eles brilharam com seus dobrados.

 

Em 1924, com apenas treze anos, ele pegou o trem de volta para Curvelo, vindo residir em companhia de sua avó, Guiomar da Silva Diniz, para trabalhar na empresa Pereira Diniz & Cia, de propriedade de seus tios José Pereira Diniz e João Pereira Diniz, onde assumiu algumas tarefas. Quando o trem apitava, anunciando sua chegada na estação,  ele corria com as correspondências, feitas na última hora, para colocá-las no carro dos Correios. As correspondências eram datilografadas com fita cópia, depois transportadas para o copiador de cartas, através de um sistema de prensa.

 

Naquela época, por várias vezes Papai recebeu também a incumbência de embarcar milho na Estação de Mascarenhas. Lá, ele passava o dia, filando a boia dos carreiros do Cel. José Júlio Mascarenhas, da fazenda São Sebastião. À tarde, pegava o trem de volta.

 

Certa ocasião, José Barata lhe pediu para levar, em Montes Claros, um dinheiro a seu sobrinho, o fazendeiro e escritor Nelson Viana, em pagamento a uma partida de gado. Papai embarcou no trem,  com uma considerável soma, viajando o dia todo. Já tarde da noite desembarcou na estação da cidade. Na mesma hora seguiu para a casa do destinatário, entregando-lhe o pagamento esperado.

 

Papai foi, também, funcionário concursado do Banco do Brasil, quando da instalação de sua agência em Curvelo, tendo como seu primeiro gerente, o Sr. Virgílio Pedro de Almeida. Papai tornou-se homem de confiança da gerência, por isso recebia dela importantes incumbências. Quantas vezes ele pegava o trem com seu amigo e colega de banco, Antenor Patrício, levando, sob sua responsabilidade, alto numerário para a agência central do Banco do Brasil em Belo Horizonte. Contra a vontade do gerente, ele se desligou do Banco do Brasil para abrir duas empresas atacadistas: Vicente Soares & Irmão, em Pirapora e Irmãos Soares & Cia., em Curvelo.

 

Na política, teve papel de destaque, sendo eleito Juiz de Paz em dezembro de 1947 pela UDN, cujo mandato foi até 1950. Por indicação, ele assumiu o referido cargo por várias vezes.  Foi eleito vereador, também pela UDN, no mandato de 1951 a 1954. Posteriormente, foi eleito vereador pela Arena, de 1971 a 1972, e vice-presidente da Câmara nesse período. Conforme o consenso político da época, seu nome foi indicado para ser candidato único a Prefeito Municipal de Curvelo. Entretanto, com interferência alheia à política, sua candidatura foi abortada.

 

A sua vida social foi vasta. Teve papel de destaque na fundação do Curvelo Clube, como secretário, ao lado de seu tio José Pereira Diniz, primeiro presidente e fundador. Posteriormente, papai foi presidente e tesoureiro dessa entidade. Desportista, participou da diretoria da Liga de Futebol de Montes Claros, ocupando sua presidência por algum tempo, quando lá morava. Foi um dos fundadores do Clube Atlético de Curvelo, em 1929, presidindo-o entre 1947 e 1948.

 

Participou da fundação do Rotary Clube de Curvelo em 1954 e foi seu segundo presidente. Mais tarde, participou da fundação do Lions Clube de Curvelo, em 1967, sendo seu primeiro presidente. Participou da instalação da Faculdade de Filosofia de Curvelo e também da Fundação Educacional, sua mantenedora, presidindo o seu Conselho Curador. Participou da diretoria da Escola Industrial de Curvelo, da Fundação Educacional Professor Ricardo de Souza Cruz.

 

Meu pai foi homenageado, em 1977, como o Decano dos Contabilistas de Curvelo, pois, além de possuir escritório por muitos anos, foi responsável pela contabilidade do Pereira Diniz, ainda muito novo. Fez parte do Conselho Deliberativo da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, APAE, por mais de dez anos. Entre 1951 e 1952, assumiu a secretaria da Mesa Administrativa da Irmandade de Santo Antônio, mantenedora do Hospital Santo Antônio.

 

Também participou da fundação da Loja Maçônica Fraternidade e Justiça (nome sugerido por ele), ocupando vários cargos na direção. Secretariou o Revólver Clube de Curvelo, biênio 1932/1933. Dele nasceu o Curvelo Esporte Clube. Durante muitos anos, Papai fez parte da diretoria da Telefônica de Curvelo, no cargo de tesoureiro. Pertenceu à diretoria da Associação Comercial e Industrial de Curvelo, no cargo de secretário, inclusive, foi homenageado em vida, com uma sala nesta associação que leva o seu nome.

 

Ao lado do Professor Claudovino de Carvalho, como seu secretário, desempenhou importante papel na luta pela reabertura da Escola Normal e Oficial de Curvelo. Nesta luta, o curvelano embaixador Bolivar de Freitas, secretário do governo estadual na época e o governador Clóvis Salgado foram sensibilizados, atendendo o nosso apelo. Também foi um dos fundadores da Academia Curvelana de Letras e escolheu como patrono de sua cadeira, o historiador e professor, Antônio Gabriel Diniz.

 

Meu pai, além de conhecer bem a história de Curvelo e da região centro-norte, era um exímio contador de estórias. Escreveu o livro Síntese Histórica de Curvelo, a pedido do Governo Municipal, na época chefiado pelo Sr. Paulo Dayrell de Oliveira. Por indicação de seu amigo, o Juiz de Direito Dr. Wilson Advíncula Veado, tomou posse como correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

 

Papai faleceu em 15 de novembro de 2009, aos 98 anos, em sua residência, ao lado de sua família, nos deixando muita saudade e somente boas recordações. Os seus casos mereciam um livro de memórias. Que bom seria!

Vou terminar por aqui, senão, acaba saindo um livro.

Deus lhes pague por tudo!

Um grande abraço.

 

      José Emílio Ferreira Soares



Escrito por Curvelo Imperial às 10h08
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Luiz Cláudio

José Emílio Ferreira Soares

        Luiz Cláudio de Castro, nascido em Curvelo, foi um dos cantores mais talentosos que já conheci, de voz suave e aveludada. Desde criança, na Curvelo de ruas poeirentas dos anos 40, convivi com sua família, sendo seus pais o  farmacêutico José de Castro e Dona Amélia, professora e diretora do Grupo Escolar Monsenhor Rolim.

        No período em que aqui morou, gozou de grande amizade com os rapazes de sua época. Aqui ele começou a desenvolver seus pendores artísticos, não só como cantor e compositor, como também desenhista e pintor. A lápis crayon, ele fez o retrato do escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, que era patrono do Grêmio Literário do Ginásio Padre Curvelo. Nessa década, quando eu morava na rua Silveira Lobo, certa manhã deparei com ele de prancheta nas mãos, retratando o contorno da rua com suas casas, pegando, lá no alto, parte da Matriz de Santo Antônio com suas torres.

       Ele era um artista polivalente. Como cantor, ele e alguns companheiros curvelanos criaram o conjunto musical Os Três Luízes, formado por Luiz Cláudio, Luiz Carlos Santana e Washington Luiz. Faziam apresentações nas casas e nas festas, animando a vida social da Curvelo daquele tempo. Chegaram até a gravar um disco, que fez muito sucesso.

         De Curvelo, Luiz Cláudio partiu para Belo Horizonte, depois mudando-se para o Rio de Janeiro, onde se projetou na sua vida artística e profissional. Ao lado de seus irmãos, o músico e arranjador Marcos de Castro e de Antônio Maurício de Castro, fez parceria com o músico Pacífico Mascarenhas, compondo lindas modinhas. Musicou letras de Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa. Suas canções traduziam as emoções do sertão curvelano, quando nelas recordava-se da tradicional poeira de nossas ruas naquela época, referindo-se também ao Tibira, Tibirinha, Passaginha, Cacimbinha e outros lugares que a memória saudosista e eterna, luta para alcançar. É o passado que emerge das entranhas do presente.

        Mais tarde, no Rio, Luiz Cláudio formou-se em arquitetura e, como artista que era na pintura, ele mesmo ilustrou a capa de seus discos e álbuns musicais. Também empreendeu uma longa turnê pelo exterior, apresentando a sua música com sucesso e participou de um filme, em parceria com a famosa cantora Ângela Maria.

        Em 1972, quando Dr. Márcio de Carvalho Lopes era prefeito de Curvelo, a TV Itacolomi lançou uma gincana com o título Mineiros Frente a Frente. Curvelo entrou na disputa e  Luiz Cláudio foi solicitado para defender sua terra, em um dos quadros apresentados. Ele e seu irmão, Marcos de Castro, compareceram em Belo Horizonte e deram o maior show. Foi um sucesso. Curvelo liderou mais uma etapa, vencendo todos os  quesitos até o final.

       Não faz muito tempo, conversei com Luiz Cláudio por telefone. Ele já estava residindo em Guaratinguetá, onde faleceu recentemente. Às vezes, fico matutando e chego a procurar uma resposta em João Guimarães Rosa. Na sua obra Grande Sertão Veredas, ele diz: “A gente não morre. Fica encantado”. De fato, Luiz Cláudio de Castro não morreu. Ficou encantado. E assim, haveremos de ficar todos nós um dia!                            

                                 

                                                                                                     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                        

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 11h40
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares

 

      Acontecem certos episódios na vida da gente, que apesar da distância do tempo, vão se tornando mais avivados na lembrança, nos mínimos detalhes. Deixo a minha imaginação campear livremente o passado, em busca de casos interessantes e jocosos, dignos de boas risadas.                    

       Lembro-me sempre de quando eu “navegava” pelas bandas de Santa Rita do Cedro, Saco Novo e São Geraldo do Jataí, das boas figuras humanas que lá conheci, convivendo com aquela gente simples e generosa. Cada um com seu tipo, seu modo de ser, compondo aquela paisagem social, rica em poesia no ambiente sertanejo.

       Certa ocasião, Zé Lúcio e eu tomamos outro rumo. De Paraúna até Gouveia, tivemos a grata companhia de Seu Messias de Castro Machado, cidadão que sempre admirei. Depois do almoço, tomamos os rumos da fazenda do Tigre, de propriedade do Cel. Sica Pio Fernandes. No pátio, uma vetusta jaqueira  ostentava sua beleza.

       A chuva caía quando nós seguimos as pegadas de Capitão Felizardo, um pequeno povoado das redondezas, próximo ao lendário Cemitério do Peixe. Paramos o furgão na beira de um córrego volumoso, cuja correnteza formava sulcos que nem cova de cana, e pegamos carona empoleirados num carro de bois, que depois de atravessar as águas bravias, nos conduziu até o destino. Enfim, apeamos na porta da casa de um senhor, que conversava na sala com um amigo. Lá fora, duas crianças brincavam, e na cozinha, uma mulher nova, com uma considerável barriga, às vésperas do dia de parir, confabulava com sua empregada. Esta, que figura! O seu cabelo parecia que nunca tinha visto pente, todo arapoado. As narinas, carregadas de pó, humilhavam qualquer cornicha. Na simples casa de adobe, com aberturas nas paredes, eu pensava: será que nesses buracos tem barbeiro?

      A noite caía e o frio apertava, quando fomos nos alojar num quarto arrumado pela dona da casa. No colchão de palhas, perfumado de detefon para matar as pulgas, o cheiro provocava na gente uma leve sensação de tontura. No final, passei a noite dependurado no estrado, pois a certa hora, dele soltou uma tábua. De manhã, na cozinha, a empregada preparou o nosso café, apresentando os cabelos mais assanhados do que na véspera.

      Neste mesmo dia pegamos o caminho de volta, ficando na minha memória as recordações daquele povoado simples, de casas de adobe, lugar de gente boa, sempre amável e hospitaleira. Quem sabe, um dia ainda voltarei lá?        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h40
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Gente do Sertão

 

 

José Emílio Ferreira Soares

 

      Na minha saudosa infância, em certa ocasião assisti, no Francisco Nunes, em Belo Horizonte, a uma peça de teatro de marionetes.  Aqueles cenários e representações  estão, até hoje, gravados em minha memória, como se os tivesse visto no momento presente. Lembro-me de um episódio de fino humor, que fez toda a plateia estourar de rir. Tratava-se de uma bela cantora de ópera, acompanhada por um elegante pianista, cuja casaca não poderia faltar. O músico iniciava com toda ênfase a ária. A cantora se preparava, mas, ao dar o agudo, não se ouvia voz, e sim miado de gato. O acompanhante, sem entender, levantava-se, examinava por baixo do piano e, nada encontrando, voltava a tocar. E os episódios se desenrolavam neste ritmo, trazendo aos espectadores muita alegria e entusiasmo.

      Todas estas recordações passavam-me pela lembrança, quando visitei um moribundo ventríloquo. Num  minúsculo e humilde quarto, aquele homem terminava, sobre um estrado grosseiro, seus últimos dias. Quem ali entrava, observava sobre uma tosca mesa a famosa garrafada  e o seu cachimbo, semelhante ao do jagunço do Conselheiro.

       De farta cabeleira e bigodes brancos, grandes olhos azuis, Jerônimo Pereira fitava, delirante, um ponto qualquer. Talvez passasse por sua fraca memória, alguma recordação da mocidade.

     De fato, sua juventude deixara-lhe reminiscências indeléveis, de quando andava pelo país com seu teatro de marionetes, fixando-se, por alguns dias, em cidades interioranas. Ao chegar, o povo logo dizia: lá vêm as marionetes de Seu Jerônimo.  Ele levantava rapidamente sua humilde casa de espetáculos,  apresentando à população variadas peças cômicas. Os bonecos conversavam entre si, às vezes sobrando alguma pergunta maliciosa para o espectador distraído.

     Quando Seu Jerônimo partia rumo a outras plagas, deixava saudade naqueles corações hospitaleiros.    Palmilhando esta vida, um dia lá, outro cá, certa ocasião, ao passar por Curvelo,  já velho, doente e cansado daquelas andanças, resolveu permanecer nesta cidade.

      A noite caía quando me despedi daquele artista andarilho e rumei para casa. No dia seguinte, à tarde, na hora em que o céu de minha terra recebia as primeiras pinceladas rubras do sol poente, ouvi sinos a defunto. Seu Jerônimo falecera!

 

    



Escrito por Curvelo Imperial às 16h40
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Gente do Sertão

 José Emílio Ferreira Soares

 

 

     O tropeiro, geralmente de estirpe reinol, foi um dos personagens mais notáveis deste País. Durante anos seguiu as trilhas serpenteantes dos caminhos com sua tropa, levando mercadorias a seu destino.

    Joaquim Eugênio Pereira, meu bisavô, descendente de família portuguesa, foi um deles. Inúmeras vezes, na sua mocidade, fez o trajeto do Rio de Janeiro, capital do Império, a Formosa dos Couros, no sertão de  Goiás. Assim que ali chegava, recarregava a  tropa de couros e outros produtos da terra e pegava o caminho de volta. A tropa seguia guiada por sua madrinha - mulinha toda enfeitada, agitando cincerros e guizos – que indicava o caminho.

    Em tempos memoráveis, quando a tranqüilidade provinciana assentava-se sobre as famílias curvelanas, e o comércio tinha significado expressivo na região, havia aqui vários ranchos de tropeiro. Dentre eles destacam-se:  rancho Pereira Diniz, rancho João Pitanguy, rancho Terto Pena,  e outros que a nossa memória não consegue alcançar. Quando chegavam as tropas com seus balaios de lado a lado, carregados de mercadorias, no rancho de João Pitanguy, era uma festa para a criançada. Corriam todas ao encontro dos tropeiros para serem presenteadas e brincavam sobre os balaios, numa satisfação contagiante. Dentre estes tropeiros, destacou-se Tão Barroso, alto, claro, de longas barbas brancas, figura paternal e amiga, homem bom e atencioso com as crianças. Quando ele apeava no rancho, sempre trazia pra criançada panelinhas de pedra, da Vila do Príncipe do Serro do Frio. Tão Barroso, também conhecido como Tão Velho, nasceu num lugar chamado Vau, próximo a São Gonçalo do Rio das Pedras, que seguindo em direção ao Serro, passa por Milho Verde, povoado constantemente visitado pelos turistas. Este velho tropeiro desfrutava de um largo círculo de amizades em Curvelo, razão pela qual demonstrava uma admiração especial pela cidade.

     À noite, no rancho, os tropeiros reuniam-se, cantavam e tocavam viola, tendo à sua volta a constante presença da meninada. As modinhas encantavam os corações nas noites enluaradas e com certo mormaço, característico do sertão mineiro. A figura do tropeiro, portanto, muito contribuiu para a nossa formação histórica, e até hoje povoa a imaginária fantasia das lendas. 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 15h55
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares

 

 

         Pelos caminhos de ferro do sertão, o trem seguia sua trajetória, num galopar ritmado e constante. Naquela época, a gente percorria longas distâncias, de estação a estação, para chegar, noite escura, em Pirapora. Era uma viagem um tanto quanto romântica. No serpentear das curvas, a máquina lançava fagulhas na escuridão do céu, que iam se apagando ao longo da estrada de ferro. Os passageiros contavam seus casos, e as estórias formavam-se  cheias de fantasia e criatividade. De cada parada, guardo uma lembrança: em Porto Faria, de um tal Antônio Sete Flechas, também conhecido em sua região como Antônio Violão, pois era violonista dos bons, apesar de sua demência. Ele andava dizendo que por ali, as galinhas caminhavam  de cincerro no pescoço e que gente virava anjo. Em Contria, comentava-se as peripécias de um tal Rodolfo Pereira, com suas tiradas filosóficas, como: “tem cada uma, que mais parece duas, e se desdobrar, dá até três.” Pagar passagem não era de seu feitio, pois era emérito caroneiro. Toda vez  que  viajava, era chamado ao carro do chefe do trem. Certa vez, quando ele procurava o chefe no lugar de costume, assustou-se  ao deparar com a presença do itinerante - nome dado ao fiscal de trem – e tentou voltar. Curioso, o fiscal  lhe perguntou:

- O que o senhor deseja?

- Estou vendendo uns filhotes de “passo preto”.

- O senhor está com eles aí ?

- Se não morreu ou fugiu algum, eu tenho uns seis ou oito.

Certo dia, estava ele viajando todo tranqüilo, quando o chefe apareceu na porta do vagão de passageiros com um telegrama, e em voz alta pronunciou:

- Rodolfo Pereira..

Todo vaidoso, ele respondeu:

- Seu criado.

- Na próxima estação, o senhor vai descer pra comprar o bilhete.

Assim ele foi vivendo, até que certa ocasião resolveu dar uma esticadinha até a capital. Aí, foi outra estória. Abordado na rua por um vigarista, que, segundo ele, “com sua lábia, me arrastou que nem um carcará na corda”, Rodolfo logo se envolveu numa complicada compra de um anel de estimação, posto à venda por necessidade. Apesar de valioso, o negócio poderia ser fechado a preço baixo, pois, de acordo com o tal vigarista, a  sua família o esperava com urgência no nordeste. O anel cintilava que nem uma estrela, e o cara insistiu tanto, que o caboclo caiu que nem um patinho, fechando o negócio. No dia seguinte, matutando com seus botôes no quarto da pensão, observou, surpreso, o azinhavrado anel de latão. Achou um desaforo, e  pôs-se na rua atrás do malvado. Por sorte, o encontrou. O danado, ao vê-lo, saiu desatinado pelas ruas, acompanhado pelos gritos de Rodolfo: pega ladrão, pega ladrão. Enfim, o trapaceiro foi preso e os dois dirigiram-se para a delegacia, onde a discussão continuou braba. O delegado, já sem paciência, aos gritos desabafou: esses gravatas-tortas só vêm aqui pra dar trabalho pra gente!

       

 

                                              

                                        

 

 

       



Escrito por Curvelo Imperial às 09h49
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares       

  Na vida social de Curvelo, desde longa data, apareceram tipos populares que se notabilizaram pelo seu modo de ser, suas variadas reações psico-sociais e suas doidices, o que vinha justamente evidenciá-los diante das famílias, que bondosamente os aceitavam em sua casa. Ali eles prestavam-lhes serviços e tinham o de comer. Dentre essas figuras pitorescas que marcaram a vida de nossa terra, encontrava-se Saluzinho, sempre vestido à moda inglesa: paletó comprido batendo nas canelas, calças largas, também a indispensável gravata, bengala, chapéu, sapatos de numeração 33 a 44 – porque, de acordo com ele, todo número lhe servia –  tudo isso compondo sua estatura baixa, que ostentava no rosto sereno, um ralo bigode.

        Pois bem, Saluzinho, na sua labuta diária, não deixou de registrar fatos notáveis, que nunca irão desaparecer na lembrança do povo. Quando o chamavam de Salu Rodeiro, era perigoso ele mandar a pessoa à pedra noventa, pois o seu nome era Salustiano Luiz Beltrão. É claro que todo mundo sabia disso, ora essa!

        Ele vivia numa humilde casa praticamente despida de paredes, pois as poucas paredes de enchimento encontravam-se parcialmente destruídas pelo desgaste natural do tempo. Interessante é que, quando ele saía, a trancava a sete chaves.  Frequentemente, tio Geraldo e Paulo Cunha caminhavam até a sua simples moradia, para conversar com ele na hora do jantar. Lá o encontravam como um lorde, todo engravatado, sentado numa tosca mesa de refeições, aos cuidados de sua irmã, Maria Brasil. Esta, por sua vez, era também uma figura notória, apesar de trabalhadora como ela só e de possuir um coração de anjo. Quantas vezes ela buscou água no chafariz  da praça de Santa Rita, palmilhando o mesmo itinerário, pés nus sobre o chão de terra! A molecada, quando a via aproximar-se, cercava-lhe o caminho com pedrinhas, só para ouvir suas reclamações. O ritual era o de sempre: ela baixava a pesada lata no chão, tirava as pedras do caminho, retornava a carga sobre a rodilha na cabeça e seguia em frente  resmungando. E assim, se foram anos!

        Enquanto a gente divaga por este mundo de meu Deus em busca de saudáveis reminiscências, começo a ouvir os planos astronômicos que Saluzinho tinha em mente, e a ver suas realizações se concretizarem. Como num sonho, ele desaparecia da realidade e passava a vislumbrar o seu fazendão de gado, porcos e frangos com fartura, em cujas posses ele comandava seus camaradas de pés embotinados, semelhantes aos da estória de Jeca Tatu. Lá, suas galinhas não seriam como as magricelas que transitavam pelo seu quintal de chão batido, lideradas por Seu Defunto – galinho de estimação e inseparável amigo, que até dormia com ele na cama.

       Saluzinho, durante toda a sua existência, foi  um cidadão bem informado e politizado. Nutria um afeto especial por Adhemar de Barros, político da velha guarda e ex-governador de São Paulo. Em época de eleições, quando lhe perguntavam em quem votaria, a resposta era conclusiva: Adhemar de Barros. E a mente de Saluzinho fazia prodígios! Foi por causa disso mesmo, de seu alto espírito visionário, que numa daquelas campanhas políticas, quando foram eleitos Dr. Evaristo Soares de Paula, prefeito, e Targino Raimundo de Figueiredo, vice-prefeito, que seu nome, na base da troça, foi lançado como candidato à Câmara Municipal de Curvelo. Cédulas e panfletos foram distribuídos pela cidade afora com seu retrato, tirado na praça de Santa Rita, em posição hitlerista, careca exposta ao sol, numa elegância fora do comum. Quem lia seus boletins de propaganda, deparava com o mais interessante lema: “ Mais carnaval/ mais angu/ para vereador, Salu”. Foi assim que ele saiu em campanha, prometendo trazer água de Três Marias,  juntamente com os mais encorpados peixes, através de enormes tubulações.

Passaram-se os anos, o tempo correu... Convencido de que fora eleito, ia sempre à Prefeitura reivindicar alguma coisa em favor do povo.

        Saluzinho foi também um romântico extremado. Em certa ocasião, viu-se loucamente apaixonado por uma viúva, permanecendo por várias horas do dia nas imediações da casa dela. Ao ser interrogado pela autoridade policial, foi logo dizendo: “ Se amar é crime, prenda-me, sou criminoso “. Ele apreciava mulheres altas – dizia que quanto mais altas, melhor - para alimentarem sua paixão. Pra ele, a maior satisfação seria chegar em seu quarto conjugal e deparar com aquela mulherona, comprida que nem uma palmeira, todinha para a sua serventia. Sempre alguém lhe dizia ao pé do ouvido, que o velho  político paulista Adhemar de Barros providenciara pra ele lindas senhoritas, todas dentro dos conformes. Não é que um belo dia, ele resolveu caminhar até a casa de  Lia – moça da elite curvelana – para lhe pedir a mão em casamento? Arrumou-se todo, pôs água de cheiro e subiu a rua. A pretendida veio lhe atender à porta.

- Bom dia, Saluzinho.

- Bom dia, Dona Lia. Eu queria conversar com a senhora.

- Pois não, vamos entrar.

Chapéu na mão, assentou-se na sala e foi direto ao assunto:

- Eu vim aqui pedir a sua mão em casamento.

- Está certo, Saluzinho, seria uma honra pra mim me casar com você,                                            

porém, como sabe, eu sou uma moça rica, gosto de vestidos caros, jóias                                                                             requintadas, e para isso preciso de muito dinheiro. Você é um rapaz muito bom, trabalhador, não resta a menor dúvida, mas não vai poder atender às minhas exigências de senhorita vaidosa.

Ele pensou, analisou os fatos e certificou-se de que aquela noiva não era pra ele. Sem saber o que dizer, como num desabafo de paixão, respondeu      simplesmente:

- É, eu também tenho as minhas pendurezas!...

Entretanto, nunca desanimou, sonhando sempre com mulheres esguias.

        Durante o dia, quem passava por sua porta ou mesmo de longe, ouvia o raque-raque do seu torno tocado a pé, feito por ele mesmo, a fabricar brinquedos como o pião – o pião das cantigas de roda – bilboquês, o piloto – espécie de jogo muito usado naquela época – e também cabos de espanador, tudo para vender.

        À tardinha, durante a Semana Santa, pegava a Bíblia pra ler a palavra de Deus em voz alta, na porta da rua. Também em plenos olhos da noite, cutucava um violão desafinado, cantando com voz tatibitate para afugentar a imensa solidão. Acredito que nesse momento de êxtase, ele via as mulheres mais lindas do mundo, de uma altura incalculável, em volta de sua modesta pessoa.

       Por dezenas de anos, Saluzinho residiu naquela casinha em péssimo estado de conservação. Mais tarde, a caridade cristã reconstruiu-a, proporcionando-lhe um  relativo conforto e ali, ele passou o resto de sua vida. Aos poucos, sua saúde foi sendo debilitada pelo peso dos anos, manifestando-se um incômodo que ele chamava de “espinhela caída”, do qual uma vez me queixara na rua, além de outras doenças. Certo dia, tive notícia de que Saluzinho tinha sido internado no hospital e que, depois de alguns dias, viera a falecer. Sim, ele sucumbira de verdade, entretanto o seu espírito, de homem sonhador e romântico, nunca há de desaparecer. Nunca mais!.. 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h42
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    Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares

    Vitrinho das Moças, dotado de peculiar simplicidade, era uma alma ingênua, não conhecendo a maldade que campeia pelo mundo. Era um desses mortais sonhadores! Baixo, escurinho, trabalhava biscateando. Era encontrado sempre na casa do Coronel José Soares dos Santos, então Chefe do Executivo municipal. Lá ele prestava serviços domésticos a D. Zulmira, esposa do coronel. Ele era também responsável pela condução da tampa dos caixões de defunto, pois naquela época usava-se conduzi-lo a descoberto. Garboso e solene, ia carregando a incumbência à frente do cortejo fúnebre. Entusiasmado com as moças, não perdia a missa das oito e meia no Santuário. De banho tomado, usando diversos sabonetes pra clarear a pele, perfumado, engravatado, paletó até as canelas – acomodava-se na igreja para admirar, platonicamente, as jovens que chegavam pra rezar. Certa ocasião, criou coragem e foi à casa de um certo Capitão, para conversar com suas filhas. Uma chicotada fez o coitado saltar ao meio da rua. De lá, assustado e furioso, respondeu ao dono da casa: “Deixe estar, quando o senhor morrer, não vou carregar a tampa do seu caixão”. E a promessa foi cumprida.

       Neco Lage era famoso por sua força gigantesca, capaz de quebrar balcão de venda com cabeçada. Era um cara bem dotado, com músculos de ferro. Escravo liberto, quis continuar na cidade prestando serviço às famílias. Um fato interessante lhe ocorreu, marcando-o pelo resto da vida. Andava sempre com um porrete, como arma de defesa. Certo dia, levava um pilão na cabeça, da cidade à fazenda das Porteirinhas. Às margens do Sucuriú descansou e bebeu água, seguindo depois sua viagem de léguas. Já na porteira da fazenda, a cachorrada veio em cima dele. Lembrando-se de ter esquecido o porrete na beira do córrego, virou pra trás num carreirão danado, não dando ouvidos ao pessoal que gritava: “Neco, largue o pilão”. O infeliz correu outras tantas léguas conservando o pilão na cabeça, naquele sacrifício de rachar. Depois, coitado, por ironia do destino e a fama de ser um dos mais gulosos da região, pediram-lhe que bebesse uma garrafa de cachaça. Foi a conta. Grave coma alcoólico matou-o quase instantaneamente. E lá se foi o Neco Lage.

       Procedentes da Itália, também aqui chegaram os irmãos Pagliaminuta, para fixar residência e trazer o seu conhecimento profissional ao povo do sertão. Leopoldo, Garibaldi e Napoleão integraram-se, de maneira singular, às famílias curvelanas. Devido ao comportamento exótico de Leopoldo, o espírito observador do povo não deixou de manifestar-se, surgindo logo alguns apelidos. Começaram a chamá-lo de Flor de Amor, porém o cognome que mais o marcou foi o de Menelick, imperador da Abissínia na época da invasão italiana. De fato, Leopoldo participara daquela guerra, e levado pelo ódio ao rei daquele país, repudiava com veemência o seu nome. Dizia-se que, durante todo o período do levante armado, o imperador, por vingança, havia encarregado as mulheres do árduo ofício de castrar os italianos prisioneiros. Embora ele não tivesse caído nas mãos das negronas, considerava o maior insulto chamá-lo de Menelick, pois isto insinuava que ele estivera nos braços do belo sexo daquela terra, mestra no oficio de capação. Aos poucos a cachaça foi tomando conta da sua vida, enquanto a meninada não se cansava de recitar pelas ruas, atrás dele: “Napoleão alfaiate, Garibaldi sapateiro, Leopoldo cachaceiro”. E assim foi, pelo resto de sua existência.

       Mestre Cândido Jatobá foi uma das figuras mais pitorescas que  conheci. Dono de imaginação fértil e fantasiosa, fazia brotar de seu espírito estórias interessantes, que me deixavam absorto por horas e horas, sentindo suas palavras penetrando o âmago de minha alma. À porta de sua casa no Curiango, nas quentes noites de verão, estava ele sempre assentado num velho toco de pequizeiro, cismando a paisagem crepuscular que ensangüentava, lentamente, o manto azul do céu de minha terra. Nestes momentos, o velho caboclo trigueiro das bandas do Sergipe, de cabelos cor de prata, olhos castanhos brilhantes e profundos, parecia  ter saudades de sua infância nordestina que já ia bem longe, porque aquele cenário na tarde moribunda, identificava-se com a do seu torrão natal. Ao passar à sua porta, a gente se detinha por uns instantes para um agradável bate papo, de onde só poderia sair um conto rico de fantasias. Na lucidez dos seus oitenta e tantos anos, conhecia na palma da mão fatos interessantíssimos que a tradição oral se incumbiu de passar aos mais jovens, desde quando aqui chegou ainda moço, à vanguarda de uma boiada. Sempre me aproximava de sua porta, permanecendo ali algum tempo para ouvir as estórias de assombração, da época em que, praticamente, não havia luz elétrica na cidade. Contou-me vários episódios, que ainda não me saíram da mente. A mulher do sobrado!.. Sim, a mulher grandalhona, que toda noite assentava-se no telhado do sobrado de Dr. Pacífico Mascarenhas, entre os buritis  que ali se erguiam, colocando seus pés no chão. Todo mundo que descia a antiga rua Direita durante a noite, tinha medo daquele fantasma que o espreitava  - quem sabe, para escarreirá-lo sem destino. Ele contava que Zé Curió foi cercado pelo mulherão, numa noite de lua cheia. O medo apavorante fez aquele caboclo velho de guerra dar um rodopio, acabando por passar por debaixo das longas saias da matrona. Desorientado, chegou em casa depois de uma correria tremenda, quase pondo a alma pela boca. Êta mulher danada, fez muita gente não sair de casa em época de quaresma! Dizia-se, até, que ela tinha parte com o pemba! Já se teve notícias de pessoas desaparecidas, sacrificadas por ela para fazer tachadas de sabão!

        E Mestre Cândido fantasiava suas estórias, com mestria que fazia gosto... Um outro fato, que não me sai da memória, foi o da beata Dona Florsina do Bicudo. Supondo estar na hora da primeira missa – cinco horas – levantou-se do aconchegante leito, e sem observar o tempo,  dirigiu-se à porta da matriz de Santo Antônio. Achou estranho aquela plêiade de gente emudecida, véus brancos cobrindo-lhes a cabeça. Certo momento, quase sem nenhum rumor, as figuras começaram a tomar rumo para se organizar em procissão, e ela, ingênua, as acompanhou. Ao se aproximar da que se encontrava na retaguarda, notou sua fisionomia cadavérica. Neste momento, uma voz surda lhe chegou aos ouvidos: aqui são almas do outro mundo! Dizem que, ao clarear do dia, ela encontrou sobre sua janela um resto de vela transformado em osso humano. Coitada de Dona Florsina, foi a segunda vez que lhe aconteceu um fato dessa natureza! Pouco tempo antes, por antecipar horários, encontrou, na boca da madrugada, a igreja de portas abertas. Um padre celebrava em latim, porém, como ventava muito, o celebrante pediu ao sacristão que o ajudava, para fechar a porta principal. Do altar, ele apenas estendeu a mão, cumprindo a ordem recebida. Diante disso, a velha, apavorada, decidiu ir pra casa rezar o terço, porque lhe estava aparecendo muita coisa estranha.

        Estórias de capeta sempre aconteciam por este sertão afora, ampliadas pelo imaginário popular, conforme a mente supersticiosa e criativa do povo.

Conta-se por aí que, há tempos, nestas plagas sertanejas, começaram a surgir notícias de casas mal assombradas. Por volta da meia noite, sem saber de onde vinham, misteriosas pedras caíam nos telhados. Numa dessas casas, dormiam apenas um casal de velhos e uma empregadinha, que lhes fazia o de comer. Ela tinha aparência de santa – mas quando se vê mulher muito santinha, pode desconfiar. Não saía de casa e nem gostava de namorar, porém, ao escurecer, sempre na hora de costume, ela era acometida por mil doenças nervosas e chiliques, fazendo os velhos correrem a seu quarto, justamente no instante em que se ouviam as primeiras pancadas de pedra no telhado. Entretanto, era pura encenação, pois estava tudo combinado. Quando tudo se acalmava e os velhos se recolhiam novamente, ela caía no verde com um fulano das redondezas. Numa das noites da suposta crise histérica, os pobres velhos, não suportando tal agonia, resolveram chamar o padre, porque tudo indicava que a mocinha estava possuída pelo demônio. O sacerdote atendeu-lhes o chamamento, exorcizando a moça com água benta, para afastar dela os maus espíritos. Na verdade, este fato foi dado e passado na cidade do Curvelo, em ano já perdido na distância do tempo, pois diz a tradição que o demo, ao sair do corpo da donzela, foi visto no boteco de um tal Zé do Araticum, virando uma boa dose da “Espalha Brasa”. Os boateiros de plantão lançaram na praça que, após beber a pinga, ele disse aos presentes: - “Agora vou pegar o caminhão de Germano Borá, porque tenho contas a acertar com Manuelzão da Rita, hoje mesmo, lá no  Bagre”!

          Se alguém quiser maiores informações, pergunte ao velho Cipriano. Ele deve estar por aí, arquitetando outras estórias, em alguma esquina do mundo.

         São coisas da vida. De fato, essa gente não deixou de contribuir para que a monotonia, existente naquela época, tivesse um colorido humorístico que transcende o tempo.

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h44
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