CÍRCULO MONÁRQUICO DE CURVELO


Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O trem de ferro rasga os caminhos do sertão, despertando a curiosidade da gente simples da beira-estrada. Lá vai a “Maria Fumaça” a puxar uma  composição onde se encontram diversos passageiros, cada um com seu mundo, com sua história. Porém, quando se acham em uma viagem dessa natureza, parece haver uma afinidade mais estreita entre as pessoas e o mundo exterior de cada um se converte todo para aqueles carros – sejam de primeira ou de segunda classe. Aliás, por tal motivo, a sabedoria popular cria piadas como “televisão de baiano é janela de trem” e muitas outras de humor inconfundível.

 

Pirapora ainda está longe!... Os vagões sacodem numa cadência ritmada, enquanto uns espiam o mundo agreste lá fora e outros se põem a matracar com o colega de assento, muitas vezes aborrecendo o companheiro com longos papos ou atrapalhando o seu sono.

 

Cochilando no canto da poltrona, com o tradicional colete preto e gravata borboleta, encontra-se Jeremias Fraterno de Souza, conhecido popularmente por Jeré Goela-de-Sapo, pois era obrigado a falar sem parar, por causa da profissão ambulante de camelô. Satisfeito, dirigia-se às cidades ribeirinhas do São Francisco, com muitas novidades na bagagem.

 

No lado oposto, o cego Zacarias cutucava a viola, cantando baixinho:

Mulata, oh! mulatinha,

com seu vestido de chita,

sacode o corpo, neguinha!

samba, moça bonita!

Às vezes, interrompia o instrumento pra vender um trago de pinga a algum passageiro que o procurava.

Esses dois homens, embora de costumes diferentes, tiveram, no decorrer de suas vidas, um traço em comum: o modo de conquistar, no dia-a-dia, a sua própria popularidade.

 

Jeré Goela-de-Sapo, antes de ingressar na profissão de caixeiro viajante, foi, durante um bom tempo, palhaço de circo de cavalinhos. Labutou por muitos anos no picadeiro, fazendo rir a criançada das vilas pobres que se espalham por esse mundo de meu Deus. Porém, desprovida de recursos financeiros, a pequena casa de espetáculos diluiu-se, encerrando suas atividades num lugarejo próximo ao Tombador. O que ele haveria de fazer? A vida tinha que continuar! Certo dia, Jeré resolveu partir para a capital, ficou por lá alguns anos, aparecendo, tempos depois, nas praças de Curvelo, rodeado de ouvintes e curiosos.

 

Como em toda mala de camelô, a cobra Catarina e o tiú Gregório não poderiam faltar. Eram chamarizes para induzir o povo simples a comprar aqueles remédios da flora amazônica, que serviam para curar qualquer doença. Inventava estórias mirabolantes, tendo como protagonistas os dois répteis, para atrair ainda mais a curiosidade da população. Certo dia, uma criança absorta com seu tradicional palavrório, nem sentiu quando ele lhe tomou o frango que conduzia debaixo do braço. Quando ela assustou, o bicho já se encontrava na mesa de trabalho do hipnotizador ambulante. Aí, mil façanhas eram feitas para incentivar a crença popular.

 

Goela de Sapo nunca foi homem de briga. Vivia rindo. Só se sabe de um desentendimento seu num carnaval de Pirapora – alguém engraçou-se com o colete preto e a gravata borboleta que ele envergava.

-Olha o sapo empetecado! E outros insultos se seguiram, depreciando-o perante uma mulatinha que arranjara como namorada. Aí, encolerizado, tentou dar um rabo-de-arraia no sujeito, mas a confusão acabou por ficar em nada! No gingado do trem, ia Jeré sorridente, pela reanimação que a pinga do cego lhe provocara. E o cego, satisfeito com as vendas da branquinha, entoava:

Mulata, oh! mulatinha,

traz pra nós o que é gostoso,

mais cachaça e mais música!

Êta homem despreguiçoso!

 

Realmente, o velho Zacarias nunca foi homem de perder tempo. Moço ainda, quando seus olhos ainda eram abertos ao mundo exterior, tinha uma venda, lá pelas bandas de Juazeiro, onde se reunia com os amigos. No entra e sai da freguesia, a um canto, tirava suas modinhas, verdadeiras reportagens sobre o sucedido e acontecido por aquele nordeste velho de guerra.

 

Querido por todos, era detentor de certa força política, sabendo manejar com arte as eleições. Ali passou sua vida de comerciante, cantador e homem de bem, até que o cangaço, que ali reinava, não admitiu a sua opinião sobre a conduta de certo candidato, ligado à jagunçada.

Saqueado pelos cangaceiros, foi levado pra longe e sua venda incendiada pelo bando de Antônio Pé-de-Cabra. Torturado, perdeu a visão desde aquela época.

Agora, pobre, vagueia de cidade em cidade cantando suas modinhas, lutando arduamente pela sua sobrevivência. Nas festas de São Geraldo, sempre aparece com a sua viola afinada, entoando nas praças de Curvelo canções repentistas: 

Nas voltas que dá o mundo,

há muita alegria e tristeza,

Porém, um sonho profundo

Nos mostra sua beleza!

 

Eis aí a história desses dois homens, que,  companheiros de viagem, têm como destino o sertão. Quando saírem  do mundo fechado do trem de ferro para entrarem no mundo aberto das cidades, grandes ou pequenas, arraiais ou vilas, elas estarão sempre à espera deles, porque a vida é luta e eles não podem parar.

 

E Jeré Goela-de-Sapo há de bradar bem alto nas praças, para convencer o povo daquela redondeza a comprar-lhe os remédios infalíveis em qualquer situação.

Enquanto isso, em outras freguesias, o cego Zacarias, ao som de sua viola, canta para o povo que passa e lhe deixa um vintém no seu chapéu de couro.

E nas voltas que dá o mundo, com alegria e tristeza, a vida rola, prosseguindo sua trajetória!...

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 09h55
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O trem de ferro rasga os caminhos do sertão, despertando a curiosidade da gente simples da beira-estrada. Lá vai a “Maria Fumaça” a puxar uma  composição onde se encontram diversos passageiros, cada um com seu mundo, com sua história. Porém, quando se acham em uma viagem dessa natureza, parece haver uma afinidade mais estreita entre as pessoas e o mundo exterior de cada um se converte todo para aqueles carros – sejam de primeira ou de segunda classe. Aliás, por tal motivo, a sabedoria popular cria piadas como “televisão de baiano é janela de trem” e muitas outras de humor inconfundível.

 

Pirapora ainda está longe!... Os vagões sacodem numa cadência ritmada, enquanto uns espiam o mundo agreste lá fora e outros se põem a matracar com o colega de assento, muitas vezes aborrecendo o companheiro com longos papos ou atrapalhando o seu sono.

 

Cochilando no canto da poltrona, com o tradicional colete preto e gravata borboleta, encontra-se Jeremias Fraterno de Souza, conhecido popularmente por Jeré Goela-de-Sapo, pois era obrigado a falar sem parar, por causa da profissão ambulante de camelô. Satisfeito, dirigia-se às cidades ribeirinhas do São Francisco, com muitas novidades na bagagem.

 

No lado oposto, o cego Zacarias cutucava a viola, cantando baixinho:

Mulata, oh! mulatinha,

com seu vestido de chita,

sacode o corpo, neguinha!

samba, moça bonita!

Às vezes, interrompia o instrumento pra vender um trago de pinga a algum passageiro que o procurava.

Esses dois homens, embora de costumes diferentes, tiveram, no decorrer de suas vidas, um traço em comum: o modo de conquistar, no dia-a-dia, a sua própria popularidade.

 

Jeré Goela-de-Sapo, antes de ingressar na profissão de caixeiro viajante, foi, durante um bom tempo, palhaço de circo de cavalinhos. Labutou por muitos anos no picadeiro, fazendo rir a criançada das vilas pobres que se espalham por esse mundo de meu Deus. Porém, desprovida de recursos financeiros, a pequena casa de espetáculos diluiu-se, encerrando suas atividades num lugarejo próximo ao Tombador. O que ele haveria de fazer? A vida tinha que continuar! Certo dia, Jeré resolveu partir para a capital, ficou por lá alguns anos, aparecendo, tempos depois, nas praças de Curvelo, rodeado de ouvintes e curiosos.

 

Como em toda mala de camelô, a cobra Catarina e o tiú Gregório não poderiam faltar. Eram chamarizes para induzir o povo simples a comprar aqueles remédios da flora amazônica, que serviam para curar qualquer doença. Inventava estórias mirabolantes, tendo como protagonistas os dois répteis, para atrair ainda mais a curiosidade da população. Certo dia, uma criança absorta com seu tradicional palavrório, nem sentiu quando ele lhe tomou o frango que conduzia debaixo do braço. Quando ela assustou, o bicho já se encontrava na mesa de trabalho do hipnotizador ambulante. Aí, mil façanhas eram feitas para incentivar a crença popular.

 

Goela de Sapo nunca foi homem de briga. Vivia rindo. Só se sabe de um desentendimento seu num carnaval de Pirapora – alguém engraçou-se com o colete preto e a gravata borboleta que ele envergava.

-Olha o sapo empetecado! E outros insultos se seguiram, depreciando-o perante uma mulatinha que arranjara como namorada. Aí, encolerizado, tentou dar um rabo-de-arraia no sujeito, mas a confusão acabou por ficar em nada! No gingado do trem, ia Jeré sorridente, pela reanimação que a pinga do cego lhe provocara. E o cego, satisfeito com as vendas da branquinha, entoava:

Mulata, oh! mulatinha,

traz pra nós o que é gostoso,

mais cachaça e mais música!

Êta homem despreguiçoso!

 

Realmente, o velho Zacarias nunca foi homem de perder tempo. Moço ainda, quando seus olhos ainda eram abertos ao mundo exterior, tinha uma venda, lá pelas bandas de Juazeiro, onde se reunia com os amigos. No entra e sai da freguesia, a um canto, tirava suas modinhas, verdadeiras reportagens sobre o sucedido e acontecido por aquele nordeste velho de guerra.

 

Querido por todos, era detentor de certa força política, sabendo manejar com arte as eleições. Ali passou sua vida de comerciante, cantador e homem de bem, até que o cangaço, que ali reinava, não admitiu a sua opinião sobre a conduta de certo candidato, ligado à jagunçada.

Saqueado pelos cangaceiros, foi levado pra longe e sua venda incendiada pelo bando de Antônio Pé-de-Cabra. Torturado, perdeu a visão desde aquela época.

Agora, pobre, vagueia de cidade em cidade cantando suas modinhas, lutando arduamente pela sua sobrevivência. Nas festas de São Geraldo, sempre aparece com a sua viola afinada, entoando nas praças de Curvelo canções repentistas: 

Nas voltas que dá o mundo,

há muita alegria e tristeza,

Porém, um sonho profundo

Nos mostra sua beleza!

 

Eis aí a história desses dois homens, que,  companheiros de viagem, têm como destino o sertão. Quando saírem  do mundo fechado do trem de ferro para entrarem no mundo aberto das cidades, grandes ou pequenas, arraiais ou vilas, elas estarão sempre à espera deles, porque a vida é luta e eles não podem parar.

 

E Jeré Goela-de-Sapo há de bradar bem alto nas praças, para convencer o povo daquela redondeza a comprar-lhe os remédios infalíveis em qualquer situação.

Enquanto isso, em outras freguesias, o cego Zacarias, ao som de sua viola, canta para o povo que passa e lhe deixa um vintém no seu chapéu de couro.

E nas voltas que dá o mundo, com alegria e tristeza, a vida rola, prosseguindo sua trajetória!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h50
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Aniversário de Curvelo

 

José Emílio Ferreira Soares  

 

Quando o Padre Antônio Corvelo de Ávila chegou aos sertões de Minas Gerais, no primeiro quartel do século XVIII, já encontrou o povoado de Santo Antônio da Estrada. O local passou a ser conhecido, posteriormente, como “Arraial dos Padres Corvelo”, pelo fato de serem três irmãos sacerdotes: Antônio, Gregório e Jorge, grandes proprietários de sesmarias. Eles nasceram em Rio Real, na Bahia, descendentes da nobre aristocracia dos Garcia D’Ávila, da Casa da Torre, em Portugal. A sua irmandade, de fato, compunha-se de cinco padres, dos quais, dois deles, permaneceram  em sua terra natal, e mais duas irmãs de sangue.

 

O decreto da Regência, de 13 de outubro de 183l, criou o Município e a Câmara, com sede na “Villa de Santo Antônio do Curvello”, elevada, a 15 de novembro de 1875, à categoria de cidade. Em 30 de julho de 1832, instalou-se a Câmara, e em 7 de dezembro do mesmo ano, na Praça da Constituição, hoje, Voluntários da Pátria, onde ficavam a igreja matriz de Santo Antônio e o prédio da Câmara Municipal, atualmente, onde se encontra a Basílica de São Geraldo, levantou-se o Pelourinho, símbolo  do poder público. De fato, esta data é a mais importante, pois comemora a instalação do Município de Curvelo.

 

Tendo em vista um engano na data, inserida no brasão e na bandeira do município, é de fundamental importância que a Egrégia Câmara Municipal a retifique. A data correta é 7 de dezembro de 1832, na qual se deve comemorar,  portanto, a independência do município de Curvelo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 16h37
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Guerra de Canudos

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O triste episódio de Canudos, marcado pelo confronto entre o Exército brasileiro e os integrantes de um movimento popular de fundo sócio-religioso, no último quartel do século X1X, assinalou uma das páginas mais negras da nossa história.

 

A “Tróia de Taipa” dos jagunços, instalada às margens do rio Vaza-Barris, próximo ao arraial de Monte Santo, no sertão da Bahia, transformou-se em uma poderosa barreira contra as expedições do governo Prudente de Morais, empenhadas em dizimar aqueles pobres sertanejos.

 

Liderados por Antônio Conselheiro, eles se opunham ao autoritarismo de uma república, que ao longo de sua existência,  usou sempre a força ditatorial para manter-se.

 

De mãos crispadas e rostos marcados pelo sofrimento, enfrentaram com altivez e determinação a criminosa intervenção do governo. De fato, Canudos jamais foi vencida, pois deixou à posteridade um exemplo de luta contra qualquer tipo de opressão.

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h00
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Coroação de Dom Manuel II

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O episódio do regicídio, que abalou Portugal em 1º de fevereiro de 1908, sinalizou uma crise institucional das mais lamentáveis. Ao regressarem de Vila Viçosa, foram assassinados pela Carbonária no Terreiro do Paço, em Lisboa, El rei, Dom Carlos I e seu filho, Dom Luiz Filipe, príncipe herdeiro da Coroa. O infante Dom Manuel, Duque de Beja, regressara dias antes, devido a seus estudos preparatórios para se ingressar na Escola Naval. Quando ele foi esperar os pais e o irmão, estava armada a emboscada, vendo-se no meio de um tiroteio que lhe atingiu o braço.

 

A Carbonária, sociedade secreta que tinha como objetivo atuar nos movimentos revolucionários, principalmente em Portugal, França e Espanha, assentava suas raízes na Itália, destacando-se como seus principais líderes, Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi. Este foi cognominado Herói dos Dois Mundos, pois atuou durante a unificação italiana, no século XIX, e também no Brasil, onde se destacou na Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul.

 

Consternados com a morte do seu rei, os portugueses pressentiam dias obscuros na vida nacional, pois uma crise política estava instaurada. Desafiando aqueles momentos difíceis da nação, é coroado rei dos portugueses, Dom Manuel II, que, com pulso firme, se dispôs a sacrificar-se pelo seu povo.

 

Com apenas 18 anos, traumatizado ainda pela tragédia do regicídio, assumiu a chefia do Estado Português, com a determinação de assegurar a proteção das instituições nacionais e do Estado de Direito. Enfrentou, com energia, a oposição republicana, manipulada pelo terrorismo da carbonária, pois chegou a ser ameaçado de morte, o que teve repercussão na imprensa internacional. Mesmo assim, a sua subida ao trono foi um sucesso, sendo aclamado por todo o país: “Rei e Povo estão unidos”!

 

Dom Manuel II manifestou singular preocupação com a questão social, pois a revolução industrial do século XIX,  que mudou toda a  ordem mundial, iria repercutir no alvorecer do século XX. Uma nova teoria econômica, fundamentada na dialética, que seria apresentada na obra Le Capital, de Marx, e em seu Manifesto Comunista, em parceria com Engels, norteavam o proletariado para a luta de classes, ao suscitar sérios questionamentos. Sabiamente, a Igreja, nesta época, apresentou sua teoria fundamentada nos princípios evangélicos, através da  encíclica Rerum Novarum,  do Papa Leão XIII,  rebatendo o materialismo dialético e orientando a  humanidade a seguir os caminhos seguros da caridade cristã.

 

No seu curto reinado, Dom Manuel II teve que enfrentar a exacerbada oposição do Partido Republicano. Este, com sua ação reivindicatória, colocava em questão os sérios problemas econômicos do País devido à sua fraca industrialização. Respeitando os princípios constitucionais, o rei aliou-se ao Partido Socialista, que existia desde 1875, apesar de nunca ter tido representação parlamentar. O objetivo principal dessa aliança, não enfocava a inexpressiva classe operária do país, nem tão pouco as divergências internas de cunho  doutrinário. A estratégia visava, sobretudo, o equacionamento formulado para combater o radicalismo do Partido Republicano, retirando dele o apoio do proletariado urbano, para estabelecer o equilíbrio da Coroa portuguesa.

 

Em 1909, o rei convidou o sociólogo francês, Léon Poinsard, para elaborar um estudo em seu país, objetivando combater o clientelismo derivado do rotativismo. O cientista político-social concluiu que a solução mais eficaz para a concretização da reorganização do trabalho e administração locais, estaria na  reforma política, que, como conseqüência, viria a se realizar naturalmente.

 

O rei expôs ao presidente do Conselho de Ministros, Venceslau de Lima, a importância de se reorganizar o Partido Socialista, pois entendia que a sua colaboração com o regime era imprescindível. Os socialistas seriam os únicos capazes de desviar a classe operária, que apoiava o Partido Republicano. A chefia do Governo, com a liderança socialista, apesar dos esforços para atingir o seu objetivo, não conseguiu impedir que o Congresso Nacional Operário atravessasse sérias dificuldades, devido ao boicote que sofreu por anarquistas e republicanos, com a realização de um outro congresso.

 

Entretanto, os socialistas não desanimaram, pois tinham a garantia do apoio régio, que assegurava a oposição aos republicanos. Alfredo Aquiles Monteverde, dirigente do Partido Socialista, relatou ao rei, em outubro de 1909, a falência do Congresso Sindicalista e lhe agradeceu o interesse pela classe operária. No entanto, a instabilidade governamental continuava, mesmo com todo o apoio régio, pois o governo necessitava, com urgência, de medidas concretas que mostrassem a aproximação aos socialistas.

 

Em julho de 1910, no governo de Teixeira de Sousa, criou-se uma comissão integrada por três socialistas, dentre eles Azedo Gneco, com o objetivo de estudar a fundação de um instituto de trabalho nacional.. Apesar dessa medida, a insatisfação ainda persistia nos meios socialistas. Aquiles Monteverde, então, alegou que se deveria conceder à comissão meios eficazes e de caráter permanente, para que os delegados socialistas pudessem ter acesso ilimitado aos meios de transporte, a fim de promoverem sua propaganda.

Ciente da situação, o Rei encaminhou ao governo a reivindicação, acatada imediatamente pelo ministro de obras públicas, que aceitou a criação do Instituto de Trabalho Nacional.

 

Quanto à política externa do Rei, foi bastante intensa, apesar do seu curto e tumultuado reinado. Visitou oficialmente a França, Espanha e Inglaterra, esperando destes países o seu apoio para o fortalecimento do trono lusitano. Em novembro de 1909, a Coroa inglesa lhe havia conferido o título de Cavaleiro da prestigiada Ordem da Jarreteira. No mesmo ano, recebeu a visita de Afonso XIII, rei da Espanha, e em 1910, do presidente eleito do Brasil, Hermes da Fonseca.

 

A exemplo de seu pai, El Rei Dom Carlos I, o monarca procurou desenvolver uma política de aproximação com a Grã-Bretanha, não só por orientação geo-política, como também para assegurar a proteção da Casa de Bragança, pois havia estreita amizade entre a Coroa portuguesa  e a Casa real britânica, na pessoa do seu rei, Eduardo VII. Para  selar esse intento, já estava desenhado o projeto do casamento do rei português com uma princesa inglesa, cujo enlace não se realizou devido à morte do rei britânico, amigo pessoal de Dom Calos I, e às sucessivas crises internas da nação lusitana. Esta situação norteou o novo governo liberal inglês a não se interessar em defender o trono português.

 

Crises políticas sucederam-se com freqüência em decorrência das constantes questiúnculas, que contribuíram para a divisão dos partidos da base monárquica. A fragmentação da base do governo refletiu consideravelmente nas eleições legislativas de 28 de agosto de 1910, ao corroborar a vitória do partido republicano, que aumentou o número de deputados de oposição  no Parlamento.

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h00
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Como o Congresso de Setúbal, de 24 a 25 de abril de 1909, já havia decidido a tomada do poder, a causa revolucionária foi favorecida com o resultado do recente pleito eleitoral. A crise se ampliou de forma significativa e em 4 de outubro de 1910 estourou a revolução, que no dia seguinte, 5 de outubro, culminou com a proclamação da República em Lisboa.

 

O palácio das Necessidades, residência oficial do rei foi bombardeado, exigindo a retirada do monarca, que, a conselho de seus líderes, dirigiu-se ao Palácio Nacional de Mafra, onde iria encontrar-se com a rainha sua mãe e sua avó, a rainha-mãe Dona Maria Pia de Sabóia. Diante da vitória republicana, o rei decidiu-se embarcar na Ericeira,  no iate real “Amélia”, com destino ao Porto. Percebendo a grave situação, os oficiais a bordo teriam demovido Dom Manuel dessa intenção ou raptaram-no simplesmente, levando-o para Gibraltar. Ao desembarcar em Gibraltar, a família real logo recebeu a notícia de que o Porto aderira à República. O golpe de Estado estava terminado. A família real seguiu dali para o Reino Unido, onde foi recebida pelo rei Jorge V.

 

Exilado na Inglaterra, o rei Dom Manuel, acompanhado de seus bens particulares, fixou residência em Fulwell Park, Twickenharn, nos arredores de Londres, local onde sua mãe, Amélia de Orleães nascera, também no exílio, durante a ocupação do trono francês por  Napoleão III, em 1848. Somente após a queda do império, em 1871, os Orleães puderam voltar ao seu país.

 

Apesar das tentativas de restauração da monarquia em 1911,1912 e 1919, Dom Manuel procurou construir ali um ambiente português, mantendo-se em evidência na sociedade inglesa. Casou-se com sua prima, Dona Augusta Vitória,  princesa alemã de Hohenzollern-Sigmaringen, em 4 de setembro de 1913, na capela do castelo de Hohenzollern. Continuou a seguir, de perto, a política portuguesa, exercendo influência junto aos círculos políticos, nomeadamente as organizações monárquicas. Alimentou uma constante preocupação de que a anarquia da primeira república provocasse uma eventual intervenção espanhola, o que poderia desestabilizar a soberania nacional.

 

Desempenhou importante papel no campo da diplomacia, quando a Inglaterra não aceitou as credenciais de um novo diplomata português, devido à instabilidade provocada pelo golpe republicano, refletida na sucessiva troca de embaixadores. Nesta ocasião, as negociações de liquidação  da dívida de Portugal com a Inglaterra encontravam-se em andamento, exigindo uma política conciliatória das mais coerentes. O Ministro dos Negócios Estrangeiros se viu na obrigação de recorrer ao rei Dom Manuel para desbloquear esta situação.

 

Satisfeito por ajudar o seu país, o monarca, com seu prestígio, recorreu ao governo inglês, incluindo, provavelmente, o seu amigo Jorge V, o que teve imediato resultado  para o governo português.

Dom Manuel sempre gozou de elevado grau de patriotismo, e mesmo deposto e exilado, declarou em 1915, no seu testamento, a doação de seus bens ao Estado português para a fundação de um Museu, manifestando também a vontade de ser sepultado em Portugal.

 

Sob a liderança do carismático Henrique de Paiva Couceiro, os monarquistas exilados se concentraram na Galiza com o  beneplácito do governo espanhol, para entrarem em Portugal e restaurarem a monarquia. O Paladino - alcunha dada pela imprensa republicana ao líder monarquista – acreditava que bastaria uma demonstração de forças para que o povo rural aderisse à insurreição, porém, nada aconteceu como se planejara.

 

Dom Manuel apoiou estas incursões, apesar de seus parcos recursos financeiros nos primeiros anos do exílio. Porém, ocorreu um fato que merece consideração. A primeira incursão, feita sob a bandeira azul e branca, mas sem a Coroa, foi precedida por um manifesto de Paiva Couceiro, que a defendia como um movimento neutro, porém, reclamava um plebiscito para decidir a forma de regime. Dom Manuel, sendo um monarca constitucional e legalmente jurado, não aceita ser sujeito a um referendo. Só após a aceitação de que a restauração seria baseada na sua pessoa e na Carta Constitucional de 1826, o rei passou a apoiar os exilados da Galiza.

 

A segunda incursão ocorreu em 1912, mas apesar de ter sido melhor preparada, não obteve sucesso. O governo espanhol viu-se obrigado a ceder às pressões diplomáticas, diante do reconhecimento da república portuguesa. Os conjurados, diante desta situação, tiveram que decidir se seriam desarmados ou se retornariam a seu país. O governo espanhol acabou por desarmar os combatentes restantes, cuja presença na Galiza já era considerada ilegal.

 

Dom Manuel, entretanto, nunca aceitou a restauração baseada na força, porém a maioria dos monarquistas mais radicais não acatava a sua orientação. O monarca defendia que a restauração só poderia legitimar-se através de vias legais, com a participação popular através do voto. Dom Manuel, preocupado diante dessa delicada situação, da falta de sintonia entre ele e o grupo restauracionista, previa o surgimento de um movimento anarquista, que só poderia trazer sérios problemas para o seu país.

 

Com o começo da primeira grande guerra a situação agravou-se, pois os relacionamentos políticos e diplomáticos entre a Inglaterra e Portugal poderiam sofrer sérios problemas. Dom Manuel receava que a aproximação da Espanha às potências ocidentais, levasse a Inglaterra a substituir Portugal pelo seu vizinho, como seu aliado, e que o próprio país seria o preço cobrado por Afonso XIII pela sua entrada na guerra.

 

Dom Manuel, sendo anglófilo, admirador do espírito britânico, defende, a partir da entrada de Portugal na guerra, uma participação mais ativa, instando os monarquistas a unirem-se aos republicanos objetivando a unidade lusitana, pois seria desaconselhável qualquer movimento de cunho restauracionista durante o conflito. Ele chegou, mesmo no exílio, a solicitar sua incorporação no exército republicano português. Entretanto, a maioria dos monarquistas portugueses, sendo germanófilos, não responderam às expectativas do rei, pois acreditavam que a vitória do Kaiser facilitaria a restauração da monarquia.

 

Dom Manuel, por sua vez, temia a perda de suas colônias em decorrência da ambição germânica, caso os alemães conquistassem a vitória, e com o apoio britânico a unidade lusitana estaria garantida, não importando qual  a forma de governo adotada. No entanto, aqueles mais próximos ao rei que se ofereceram para lutar, foram recusados, pois o governo republicano não aceitou serviços de nenhum monarquista.

 

O próprio monarca ofereceu seus serviços aos aliados para servir como melhor pudesse. Foi colocado como oficial da Cruz Vermelha Britânica, onde desempenhou importante papel ao longo da guerra, participando de conferências e recolhimento de fundos, visitando hospitais e mesmo os feridos na frente, o que acabou sendo-lhe muito gratificante. As visitas às frentes de batalha foram dificultadas pelo governo francês, porém, sua amizade com Jorge V desbloqueou todos esses entraves. Apesar de tudo, seu esforço não foi reconhecido.

 

Anos mais tarde, em entrevista a Antônio Ferro, lamentou-se: “A sala de operações do Hospital Português em Paris durante a guerra, foi montada por mim. Sabe o que puseram na sua placa de fundação? De um português de Londres”. Coube ao rei a criação do departamento ortopédico do hospital de Sheperds Bush, que, por sua insistência, continuou a funcionar até 1925, assistindo aos mutilados de guerra. Jorge V, ao convidar Dom Manuel para ocupar a tribuna de honra e assistir ao desfile da vitória em 1919, demonstrou uma prova de reconhecimento dos ingleses para com o monarca e Portugal.

 

Com a queda da monarquia constitucional em Portugal, deflagrou-se um movimento de renovação nacional, conhecido como Integralismo Lusitano. Formado por um agrupamento sócio-político tradicionalista português, exerceu sua influência entre 1914 e 1932, e por intermédio dos seus dirigentes fundadores e discípulos, na oposição ao Estado Novo de Oliveira Salazar.

 

Este movimento originou-se entre os católicos e monarquistas portugueses exilados na Bélgica em 1913, a princípio, de caráter cultural, em reação ao anticlericalismo da primeira república. Em 1914, o movimento tornou-se político, incorporando também republicanos desiludidos com a república, ao ser formalmente constituído no mesmo ano na cidade de Coimbra, em torno da revista Nação Portuguesa.

 

Entretanto, os proponentes nunca deixaram de evidenciar que a forma monárquica que defendiam, diferia da que fora derrubada em 1910. Eles propunham a forma tradicional das corporações e dos municípios, e não aceitavam a representação parlamentar assentada exclusivamente em partidos ideológicos, defendida pela Constituição. Dom Manuel, apesar de concordar com eles, manteve, é claro, sua fidelidade aos princípios constitucionais, aos quais prestou juramento. Quaisquer alterações na Constituição, segundo o monarca, teriam que passar pela apreciação das cortes reais da nação, uma vez restabelecida a monarquia.

 

Com o crescimento das forças das idéias integralistas entre as hostes monarquistas, aumentavam as exigências sobre Dom Manuel pedindo a sua manifestação, porém, ele continuava fiel a seu juramento à Carta Constitucional portuguesa. Diante desta problemática e do fracasso da Monarquia do Norte, ao acusar o rei pela sua falta de interesse na restauração, a Junta do Integralismo Lusitano declarou-se desobrigada de sua fidelidade para com o antigo monarca em outubro de 1919.

 

Em julho de 1920, representantes do movimento reuniram-se com o ramo Legitimista e decidiram transferir sua lealdade ao terceiro filho de Dom Miguel II, o então ainda menor, Dom Duarte Nuno, Duque de Bragança. Em 1942, ele casou-se no Brasil com Dona Maria Francisca de Orléans e Bragança, princesa do Brasil, bisneta de Dom Pedro II. De seu casamento nasceu Dom Duarte Pio, Duque de Bragança e atual Chefe da Casa Real Portuguesa.

 

De fato, Dom Manuel foi um monarca iluminado, pois durante o seu reinado desempenhou, com objetividade, suas funções de Chefe de Estado. Bibliógrafo, nutriu atenção especial pela veracidade histórica, destacando-se os livros antigos e a literatura portuguesa. Cognominado O Patriota, manteve preocupação constante pelos assuntos pátrios. Também os monarquistas lhe deram o nome de O Rei–Saudade, pela saudade que lhes deixou após a abolição da monarquia.

 

A sua morte repentina no exílio levou o governo português, chefiado por Antônio de Oliveira Salazar, a lhe conferir honras de Chefe de Estado. Os restos mortais do rei foram sepultados no Panteão dos Bragança, no mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Os seus bens particulares, juntamente com os da Casa de Bragança, foram constituídos, por iniciativa do Governo de Salazar, na Fundação da Casa de Bragança.

 

Ë oportuno que se destaque a importância de São Vicente, padroeiro de Lisboa, na história secular da monarquia e da nação portuguesas. Foi proclamado padroeiro de Lisboa em  1173, quando suas relíquias foram transferidas do Algarve para uma igreja fora das muralhas da cidade. Em 1582, começou a edificação da igreja, no lugar onde Dom Afonso Henriques tinha mandado construir um primeiro templo, também em honra de São Vicente.

 

Ficam aqui as nossas considerações acerca da história do grande povo lusitano. De fato, Dom Manuel II, coroado rei dos portugueses em meio ao tumulto das revoluções republicanas, soube desempenhar suas funções de Chefe de Estado com firmeza e dignidade até o final de seus dias, numa demonstração de que a história é a testemunha da vida!  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 16h46
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Luiz Cláudio

José Emílio Ferreira Soares

Luiz Cláudio de Castro, nascido em Curvelo, foi um dos cantores mais talentosos que já conheci, de voz suave e aveludada. Desde criança, na Curvelo de ruas poeirentas dos anos 40, convivi com sua família, sendo seus pais o farmacêutico José de Castro e Dona Amélia, professora e diretora do Grupo Escolar Monsenhor Rolim.

No período em que aqui morou, gozou de grande amizade com os rapazes de sua época. Aqui ele começou a desenvolver seus pendores artísticos, não só como cantor, compositor e violonista, como também desenhista e pintor. A lápis crayon, ele fez o retrato do escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, que era patrono do Grêmio Literário do Ginásio Padre Curvelo, onde estudava.

Nessa década, eu morava na rua Silveira Lobo, onde, certa manhã, deparei com ele de prancheta nas mãos, retratando o contorno da rua com suas casas, pegando, lá no alto, parte da Matriz de Santo Antônio com suas torres.

Era um artista polivalente. Como cantor, ele e alguns companheiros curvelanos, criaram o conjunto musical Os Três Luízes, formado por Luiz Cláudio, Luiz Carlos Santana e Washington Luiz. Faziam apresentações nas casas e nas festas, animando a vida social da Curvelo daquele tempo. Chegaram até a gravar um disco, que fez muito sucesso.

De Curvelo, Luiz Cláudio partiu para Belo Horizonte,  mudando-se depois para o Rio de Janeiro, onde se projetou na vida artística e profissional. Ao lado de seus irmãos, o músico e arranjador Marcos de Castro, e de Antônio Maurício de Castro, fez parceria com o músico Pacífico Mascarenhas, compondo lindas modinhas.  Luiz Cláudio, este curvelano de talento extraordinário, musicou  letras de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Também interpretou canções de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Toquinho, Caetano Veloso e muitos outros compositores brasileiros de renome internacional.

Suas canções traduziam as emoções do sertão curvelano, quando nelas recordava-se da tradicional poeira de nossas ruas naquela época, referindo-se também ao Tibira, Tibirinha, Passaginha, Cacimbinha e outros lugares, que a memória saudosista luta para alcançar. É o passado, que emerge das entranhas do presente.

Mais tarde, no Rio, Luiz Cláudio formou-se em arquitetura. Como artista que era na pintura, ele mesmo ilustrou a capa de seus discos e álbuns musicais. Também empreendeu uma longa turnê pelo exterior, apresentando sua música com sucesso.  Também participou de um filme, em parceria com a famosa cantora da época, Ângela Maria.

Em 1972, quando Dr. Márcio de Carvalho Lopes era prefeito de Curvelo, a TV Itacolomi lançou uma gincana com o título Mineiros Frente a Frente. Curvelo entrou na disputa e  Luiz Cláudio foi solicitado para defender sua terra, em um dos quadros apresentados. Ele e seu irmão, Marcos de Castro, compareceram em Belo Horizonte e deram o maior show. Foi um sucesso. Curvelo liderou mais uma etapa, vencendo todos os  quesitos até o final.

Não faz muito tempo, conversei com Luiz Cláudio por telefone. Ele já estava residindo em Guaratinguetá, SP, onde faleceu em 2013. Às vezes, fico matutando e chego a procurar uma resposta em João Guimarães Rosa. Na sua obra Grande Sertão Veredas, ele diz: “A gente não morre, fica encantado”. De fato, Luiz Cláudio de Castro não morreu. Ficou encantado. E assim, haveremos de ficar todos nós um dia!                            

                                 

                                                                                                     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                        

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 15h17
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Cultura Brasileira

 

José Emílio Ferreira Soares

 

A formação cultural do povo brasileiro é o resultado de um longo processo de assimilação de costumes de várias outras culturas. A etnia do Brasil, ainda em processo de definição pela mistura de raças e diferentes tipos, só nos engrandece, pois é na diversidade que se busca a identidade cultural e racial de um povo.

 

Assim aconteceu também com outras civilizações, que herdaram de seus ancestrais, considerável bagagem cultural. A lamentável destruição das civilizações inca, maia e asteca pelos sangüinários espanhóis, deixou empobrecida a história das civilizações latino-americanas, pois os povos da América pré-colombiana guardavam consigo, conhecimentos dos mais avançados que o mundo contemporâneo possa imaginar.

 

A Península Ibérica, ocupada pelos árabes, recebeu deles notável contribuição para a sua formação cultural. Assim, também, como no Velho Mundo, o Brasil recebeu influência de várias culturas que determinaram sua gente.

 

Os vaqueiros nordestinos, vestidos de couro, lembram os cavaleiros da Idade Média, que envergavam pesadas armaduras para sangrentas lutas, dos quais herdaram, no inconsciente, este importante legado.

 

Também a literatura de cordel e os repentistas, cantadores das feiras do nordeste, encontram-se em sintonia com o classicismo greco-romano, espelhado no renascimento camoniano, isto é, na obra de Camões.

 

Eis aí, algumas considerações a cerca de nossas raízes, as quais serviram de base para a nossa cultura.

Entretanto, motivados pelas escolas de língua inglesa, querem nos impor uma cultura que nada tem a ver com a nossa formação. O halloweem, por exemplo, que passou pela Irlanda, atingindo os Estados Unidos e Canadá, é de origem celta - povos anglo-saxões que viveram nas ilhas britânicas, cinco séculos antes de Cristo.

 

É necessário, pois, que os jovens brasileiros revejam seu passado histórico, sem o qual, jamais construirão o presente, preparando-se para um futuro promissor!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 09h20
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Marechal Rondon

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, que completaria 150 anos neste mês de maio, recebeu o título de Herói da Pátria, pelos nobres serviços prestados ao país. Ele foi desbravador dos sertões do Brasil, pacificador de inúmeras tribos indígenas brasileiras, além de implantar as linhas de telégrafo, pelo ainda desconhecido norte do Brasil. Ele emprestou seu nome ao Estado de Rondônia e ao importante Projeto Rondon, de repercussão internacional.

 

Recentemente, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou este projeto de lei, conferindo-lhe este título em caráter terminativo, o que passou praticamente despercebido pela maioria da população brasileira. Esperamos que logo seja convertido em lei.

 

A cidade de Curvelo teve, durante muito tempo, uma bela avenida Marechal Rondon, que partia da Vila de Lourdes até o Bairro Bela Vista. Foi uma justa e sensível homenagem prestada pelos munícipes curvelanos ao ilustre brasileiro. Entretanto, assim que ela recebeu asfalto, a Câmara Municipal de Curvelo, como sempre, com seu puxa-saquismo e falta de conhecimento histórico, aprovou a mudança do nome para avenida Renato Azeredo, nome de um deputado de Sete Lagoas, do antigo PSD, que era sempre eleito com os votos de Curvelo, (seu curral eleitoral), a quem o povo curvelano não deve favor e nenhuma obrigação.

Porém, nem tudo está perdido. Cabe aos moradores da referida avenida, a iniciativa de requerer à Egrégia Câmara Municipal a restauração do seu nome primitivo: Avenida Marechal Rondon. Como “o poder emana do povo”, a autoridade, portanto, cabe aos munícipes, aos quais os políticos devem respeitar.

Em Curvelo acontecem coisas do arco-da-velha!...

       

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h10
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Golpe Republicano

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O golpe militar de 15 de novembro de 1889, que derrubou a Monarquia na calada da noite, sem o conhecimento da Nação brasileira, e instituiu a República Provisória do Brasil, trouxe graves consequências, que se arrastam até os nossos dias.

 

É importante lembrar que a referida quartelada teve sua origem num rabo-de-saia, disputado entre o Marechal Deodoro da Fonseca e o gaúcho Gaspar da Silveira Martins. O Marechal Deodoro era monarquista, amigo pessoal de Sua Majestade, o Imperador Dom Pedro II, e lhe devia incalculáveis favores. No entanto, estando ele acamado com grave crise de apneia, recebeu a visita de um grupo de traidores da Pátria que tinha em mãos o decreto nº 1, que instituía a República Provisória do Brasil, redigido pelo conspirador, Dr. Rui Barbosa. Nesse momento, ouviu de um deles o seguinte comunicado: “Gaspar da Silveira Martins será nomeado Primeiro Ministro por Sua Majestade, substituindo o Visconde de Ouro Preto”. Sentindo-se corneado, sem titubear foi logo dizendo: “Deixem-me assinar esta porcaria”. Com esta assinatura precipitada, Deodoro estava declarando a sentença de morte do Brasil-Império.

 

Daí por diante, a República imposta ao povo brasileiro destruiu a ética e as qualidades morais do Império, ao assaltar o Tesouro Nacional, patrimônio da Nação brasileira, desenvolvendo um processo inflacionário sem limite. É bom lembrar que chegamos ao ponto em que outro conspirador, Silva Jardim, chegou a propor o fuzilamento da família imperial. Algum tempo depois, por ironia do destino, ele viu-se tragado pelas chamas do vulcão Vesúvio, na Itália.

 

O Marechal Deodoro da Fonseca tomou posse como primeiro Presidente no governo provisório da República, encontrando pela frente graves problemas. A crise econômica se agigantou de tal forma, que o governo não conseguiu solucioná-la. Tomou medidas autoritárias, acabando por fechar o Congresso, o que desencadeou  uma crise institucional que o levou à renúncia.

 

Ao assumir o governo, o seu vice, Marechal Floriano Peixoto, conhecido como Marechal de Ferro, adotou medidas extremamente autoritárias. Logo no princípio do seu governo, impôs sua mão de ferro para calar as vozes que clamavam por justiça. Em Santa Catarina, na região de Nossa Senhora do Desterro, assassinou centenas de inocentes através do Cel. Antônio Moreira César, que acabou alvejado e morto pelas balas dos jagunços de Antônio Conselheiro, na guerra de Canudos, na Bahia, durante o governo do primeiro presidente civil, Prudente de Morais.

 

O episódio da Revolta da Armada, no Rio de Janeiro, detonou uma das mais graves crises no governo do sanguinário Floriano Peixoto. A Marinha do Brasil exigiu o cumprimento da Constituição, pois deveria ser convocada imediatamente nova eleição presidencial com a renúncia de Deodoro. Lideravam o movimento da Armada o almirante Saldanha da Gama, Eduardo Wandenkolk e Custódio de Melo, ex-ministro da Marinha e candidato declarado a sucessor de Floriano. Sua adesão refletia o descontentamento da Armada com o pequeno prestígio político e popular da Marinha, em comparação com o Exército. No movimento encontravam-se jovens marinheiros monarquistas. Houve sangrentas batalhas em diversas unidades encouraçadas contra a artilharia dos Fortes, em poder do Exército. Com o agigantar do movimento, o ditador e traidor Floriano pediu a ajuda de navios assassinos norte americanos, que atiraram contra os jovens marinheiros. Uma página negra se abriu na história da Pátria brasileira.

 

Há mais de cem anos, a pseudo república provisória do Brasil permanece com seus vícios, como golpes de estado, estado de sítio, impeachment, ditaduras, como o Estado Novo de Getúlio Vargas e seu consequente fechamento do Congresso Nacional, os vinte anos do período militar, iniciado com a revolução de março de 64, assaltos ao Tesouro Nacional pelos políticos, com raríssimas exceções, com este presidencialismo, que não deixa de ser uma ditadura constitucional, pois, através de decretos-leis e medidas provisórias, legislam em causa própria, cabendo ao Congresso apenas o dever de corroborar.

 

De fato, concluímos que a República é um balcão de negócios. Nada funciona! Assim segue nossa pátria no seu triste caminho, que nem um samba de crioulo doido. Apesar de tudo, o nosso Brasil, aos poucos, se encontra com o seu destino nos legítimos caminhos de sua História, e ao restaurar a Monarquia Parlamentarista, pela vontade do povo, voltará a ser uma grande Nação, respeitada e acatada como sempre fora durante o Império do Brasil!

 

É o passado reconstruindo o presente!



Escrito por Curvelo Imperial às 11h03
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Agradecimento ao Legislativo e Executivo curvelanos, por ocasião da inauguração da rua Juvenal Pereira Soares

 

Autoridades curvelanas.

Soares, parentes e amigos.

Queridos munícipes.

 

Com imenso orgulho estamos aqui, Soares, Parentes e Amigos para agradecer ao Legislativo Curvelano, a aprovação do Projeto de Lei do Vereador Gerson Roberto de Oliveira, que nominou rua Juvenal Pereira Soares no bairro Palmeiras. Agradecemos, também, ao Executivo curvelano, que homologou o referido projeto, transformando-o em lei, pelas mãos do então prefeito, Dr. José Maria Pena. Queremos evidenciar, outrossim, que o mérito coube exclusivamente ao Sr. Vereador, sem nenhuma interferência da família, pois ele soube reconhecer os valores morais de meu pai, que tanto trabalhou por sua terra natal.

 

Juvenal Pereira Soares nasceu em Curvelo, em 7 de agosto de 1911, era o segundo  filho de Raymundo Soares de Sant’Anna e Emília Pereira Diniz. Ele e mamãe, sua querida Auxiliadora, formavam um casal exemplar, vivendo 70 anos de um feliz matrimônio.

Nesta oportunidade, quero relatar alguns momentos de sua vida.

 

Bem criança ainda, em Pirapora, ele se levantava de madrugada para assumir a responsabilidade do caixa de um açougue.

Já agora, ao apagar das luzes, ele se lembrava de um fato inusitado, lá pelos anos de 1922.  Ele e seu irmão Vicente tocavam na banda de música Santa Cecília  de Pirapora, sob a regência de Mestre Galvão, quando aconteceu a inauguração da ponte Marechal Hermes da Fonseca, sobre o rio São Francisco, com a presença de autoridades da União e do Estado. Perante o Presidente da República, Epitácio Pessoa, o Presidente eleito, Arthur da Silva Bernardes e o Presidente do Estado de Minas Gerais, Raul Soares de Moura, eles brilharam com seus dobrados.

 

Em 1924, com apenas treze anos, ele pegou o trem de volta para Curvelo, vindo residir em companhia de sua avó, Guiomar da Silva Diniz, para trabalhar na empresa Pereira Diniz & Cia, de propriedade de seus tios José Pereira Diniz e João Pereira Diniz, onde assumiu algumas tarefas. Quando o trem apitava, anunciando sua chegada na estação,  ele corria com as correspondências, feitas na última hora, para colocá-las no carro dos Correios. As correspondências eram datilografadas com fita cópia, depois transportadas para o copiador de cartas, através de um sistema de prensa.

 

Naquela época, por várias vezes Papai recebeu também a incumbência de embarcar milho na Estação de Mascarenhas. Lá, ele passava o dia, filando a boia dos carreiros do Cel. José Júlio Mascarenhas, da fazenda São Sebastião. À tarde, pegava o trem de volta.

 

Certa ocasião, José Barata lhe pediu para levar, em Montes Claros, um dinheiro a seu sobrinho, o fazendeiro e escritor Nelson Viana, em pagamento a uma partida de gado. Papai embarcou no trem,  com uma considerável soma, viajando o dia todo. Já tarde da noite desembarcou na estação da cidade. Na mesma hora seguiu para a casa do destinatário, entregando-lhe o pagamento esperado.

 

Papai foi, também, funcionário concursado do Banco do Brasil, quando da instalação de sua agência em Curvelo, tendo como seu primeiro gerente, o Sr. Virgílio Pedro de Almeida. Papai tornou-se homem de confiança da gerência, por isso recebia dela importantes incumbências. Quantas vezes ele pegava o trem com seu amigo e colega de banco, Antenor Patrício, levando, sob sua responsabilidade, alto numerário para a agência central do Banco do Brasil em Belo Horizonte. Contra a vontade do gerente, ele se desligou do Banco do Brasil para abrir duas empresas atacadistas: Vicente Soares & Irmão, em Pirapora e Irmãos Soares & Cia., em Curvelo.

 

Na política, teve papel de destaque, sendo eleito Juiz de Paz em dezembro de 1947 pela UDN, cujo mandato foi até 1950. Por indicação, ele assumiu o referido cargo por várias vezes.  Foi eleito vereador, também pela UDN, no mandato de 1951 a 1954. Posteriormente, foi eleito vereador pela Arena, de 1971 a 1972, e vice-presidente da Câmara nesse período. Conforme o consenso político da época, seu nome foi indicado para ser candidato único a Prefeito Municipal de Curvelo. Entretanto, com interferência alheia à política, sua candidatura foi abortada.

 

A sua vida social foi vasta. Teve papel de destaque na fundação do Curvelo Clube, como secretário, ao lado de seu tio José Pereira Diniz, primeiro presidente e fundador. Posteriormente, papai foi presidente e tesoureiro dessa entidade. Desportista, participou da diretoria da Liga de Futebol de Montes Claros, ocupando sua presidência por algum tempo, quando lá morava. Foi um dos fundadores do Clube Atlético de Curvelo, em 1929, presidindo-o entre 1947 e 1948.

 

Participou da fundação do Rotary Clube de Curvelo em 1954 e foi seu segundo presidente. Mais tarde, participou da fundação do Lions Clube de Curvelo, em 1967, sendo seu primeiro presidente. Participou da instalação da Faculdade de Filosofia de Curvelo e também da Fundação Educacional, sua mantenedora, presidindo o seu Conselho Curador. Participou da diretoria da Escola Industrial de Curvelo, da Fundação Educacional Professor Ricardo de Souza Cruz.

 

Meu pai foi homenageado, em 1977, como o Decano dos Contabilistas de Curvelo, pois, além de possuir escritório por muitos anos, foi responsável pela contabilidade do Pereira Diniz, ainda muito novo. Fez parte do Conselho Deliberativo da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, APAE, por mais de dez anos. Entre 1951 e 1952, assumiu a secretaria da Mesa Administrativa da Irmandade de Santo Antônio, mantenedora do Hospital Santo Antônio.

 

Também participou da fundação da Loja Maçônica Fraternidade e Justiça (nome sugerido por ele), ocupando vários cargos na direção. Secretariou o Revólver Clube de Curvelo, biênio 1932/1933. Dele nasceu o Curvelo Esporte Clube. Durante muitos anos, Papai fez parte da diretoria da Telefônica de Curvelo, no cargo de tesoureiro. Pertenceu à diretoria da Associação Comercial e Industrial de Curvelo, no cargo de secretário, inclusive, foi homenageado em vida, com uma sala nesta associação que leva o seu nome.

 

Ao lado do Professor Claudovino de Carvalho, como seu secretário, desempenhou importante papel na luta pela reabertura da Escola Normal e Oficial de Curvelo. Nesta luta, o curvelano embaixador Bolivar de Freitas, secretário do governo estadual na época e o governador Clóvis Salgado foram sensibilizados, atendendo o nosso apelo. Também foi um dos fundadores da Academia Curvelana de Letras e escolheu como patrono de sua cadeira, o historiador e professor, Antônio Gabriel Diniz.

 

Meu pai, além de conhecer bem a história de Curvelo e da região centro-norte, era um exímio contador de estórias. Escreveu o livro Síntese Histórica de Curvelo, a pedido do Governo Municipal, na época chefiado pelo Sr. Paulo Dayrell de Oliveira. Por indicação de seu amigo, o Juiz de Direito Dr. Wilson Advíncula Veado, tomou posse como correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

 

Papai faleceu em 15 de novembro de 2009, aos 98 anos, em sua residência, ao lado de sua família, nos deixando muita saudade e somente boas recordações. Os seus casos mereciam um livro de memórias. Que bom seria!

Vou terminar por aqui, senão, acaba saindo um livro.

Deus lhes pague por tudo!

Um grande abraço.

 

      José Emílio Ferreira Soares



Escrito por Curvelo Imperial às 10h08
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Luiz Cláudio

José Emílio Ferreira Soares

        Luiz Cláudio de Castro, nascido em Curvelo, foi um dos cantores mais talentosos que já conheci, de voz suave e aveludada. Desde criança, na Curvelo de ruas poeirentas dos anos 40, convivi com sua família, sendo seus pais o  farmacêutico José de Castro e Dona Amélia, professora e diretora do Grupo Escolar Monsenhor Rolim.

        No período em que aqui morou, gozou de grande amizade com os rapazes de sua época. Aqui ele começou a desenvolver seus pendores artísticos, não só como cantor e compositor, como também desenhista e pintor. A lápis crayon, ele fez o retrato do escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, que era patrono do Grêmio Literário do Ginásio Padre Curvelo. Nessa década, quando eu morava na rua Silveira Lobo, certa manhã deparei com ele de prancheta nas mãos, retratando o contorno da rua com suas casas, pegando, lá no alto, parte da Matriz de Santo Antônio com suas torres.

       Ele era um artista polivalente. Como cantor, ele e alguns companheiros curvelanos criaram o conjunto musical Os Três Luízes, formado por Luiz Cláudio, Luiz Carlos Santana e Washington Luiz. Faziam apresentações nas casas e nas festas, animando a vida social da Curvelo daquele tempo. Chegaram até a gravar um disco, que fez muito sucesso.

         De Curvelo, Luiz Cláudio partiu para Belo Horizonte, depois mudando-se para o Rio de Janeiro, onde se projetou na sua vida artística e profissional. Ao lado de seus irmãos, o músico e arranjador Marcos de Castro e de Antônio Maurício de Castro, fez parceria com o músico Pacífico Mascarenhas, compondo lindas modinhas. Musicou letras de Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa. Suas canções traduziam as emoções do sertão curvelano, quando nelas recordava-se da tradicional poeira de nossas ruas naquela época, referindo-se também ao Tibira, Tibirinha, Passaginha, Cacimbinha e outros lugares que a memória saudosista e eterna, luta para alcançar. É o passado que emerge das entranhas do presente.

        Mais tarde, no Rio, Luiz Cláudio formou-se em arquitetura e, como artista que era na pintura, ele mesmo ilustrou a capa de seus discos e álbuns musicais. Também empreendeu uma longa turnê pelo exterior, apresentando a sua música com sucesso e participou de um filme, em parceria com a famosa cantora Ângela Maria.

        Em 1972, quando Dr. Márcio de Carvalho Lopes era prefeito de Curvelo, a TV Itacolomi lançou uma gincana com o título Mineiros Frente a Frente. Curvelo entrou na disputa e  Luiz Cláudio foi solicitado para defender sua terra, em um dos quadros apresentados. Ele e seu irmão, Marcos de Castro, compareceram em Belo Horizonte e deram o maior show. Foi um sucesso. Curvelo liderou mais uma etapa, vencendo todos os  quesitos até o final.

       Não faz muito tempo, conversei com Luiz Cláudio por telefone. Ele já estava residindo em Guaratinguetá, onde faleceu recentemente. Às vezes, fico matutando e chego a procurar uma resposta em João Guimarães Rosa. Na sua obra Grande Sertão Veredas, ele diz: “A gente não morre. Fica encantado”. De fato, Luiz Cláudio de Castro não morreu. Ficou encantado. E assim, haveremos de ficar todos nós um dia!                            

                                 

                                                                                                     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                        

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 11h40
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares

 

      Acontecem certos episódios na vida da gente, que apesar da distância do tempo, vão se tornando mais avivados na lembrança, nos mínimos detalhes. Deixo a minha imaginação campear livremente o passado, em busca de casos interessantes e jocosos, dignos de boas risadas.                    

       Lembro-me sempre de quando eu “navegava” pelas bandas de Santa Rita do Cedro, Saco Novo e São Geraldo do Jataí, das boas figuras humanas que lá conheci, convivendo com aquela gente simples e generosa. Cada um com seu tipo, seu modo de ser, compondo aquela paisagem social, rica em poesia no ambiente sertanejo.

       Certa ocasião, Zé Lúcio e eu tomamos outro rumo. De Paraúna até Gouveia, tivemos a grata companhia de Seu Messias de Castro Machado, cidadão que sempre admirei. Depois do almoço, tomamos os rumos da fazenda do Tigre, de propriedade do Cel. Sica Pio Fernandes. No pátio, uma vetusta jaqueira  ostentava sua beleza.

       A chuva caía quando nós seguimos as pegadas de Capitão Felizardo, um pequeno povoado das redondezas, próximo ao lendário Cemitério do Peixe. Paramos o furgão na beira de um córrego volumoso, cuja correnteza formava sulcos que nem cova de cana, e pegamos carona empoleirados num carro de bois, que depois de atravessar as águas bravias, nos conduziu até o destino. Enfim, apeamos na porta da casa de um senhor, que conversava na sala com um amigo. Lá fora, duas crianças brincavam, e na cozinha, uma mulher nova, com uma considerável barriga, às vésperas do dia de parir, confabulava com sua empregada. Esta, que figura! O seu cabelo parecia que nunca tinha visto pente, todo arapoado. As narinas, carregadas de pó, humilhavam qualquer cornicha. Na simples casa de adobe, com aberturas nas paredes, eu pensava: será que nesses buracos tem barbeiro?

      A noite caía e o frio apertava, quando fomos nos alojar num quarto arrumado pela dona da casa. No colchão de palhas, perfumado de detefon para matar as pulgas, o cheiro provocava na gente uma leve sensação de tontura. No final, passei a noite dependurado no estrado, pois a certa hora, dele soltou uma tábua. De manhã, na cozinha, a empregada preparou o nosso café, apresentando os cabelos mais assanhados do que na véspera.

      Neste mesmo dia pegamos o caminho de volta, ficando na minha memória as recordações daquele povoado simples, de casas de adobe, lugar de gente boa, sempre amável e hospitaleira. Quem sabe, um dia ainda voltarei lá?        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h40
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Gente do Sertão

 

 

José Emílio Ferreira Soares

 

      Na minha saudosa infância, em certa ocasião assisti, no Francisco Nunes, em Belo Horizonte, a uma peça de teatro de marionetes.  Aqueles cenários e representações  estão, até hoje, gravados em minha memória, como se os tivesse visto no momento presente. Lembro-me de um episódio de fino humor, que fez toda a plateia estourar de rir. Tratava-se de uma bela cantora de ópera, acompanhada por um elegante pianista, cuja casaca não poderia faltar. O músico iniciava com toda ênfase a ária. A cantora se preparava, mas, ao dar o agudo, não se ouvia voz, e sim miado de gato. O acompanhante, sem entender, levantava-se, examinava por baixo do piano e, nada encontrando, voltava a tocar. E os episódios se desenrolavam neste ritmo, trazendo aos espectadores muita alegria e entusiasmo.

      Todas estas recordações passavam-me pela lembrança, quando visitei um moribundo ventríloquo. Num  minúsculo e humilde quarto, aquele homem terminava, sobre um estrado grosseiro, seus últimos dias. Quem ali entrava, observava sobre uma tosca mesa a famosa garrafada  e o seu cachimbo, semelhante ao do jagunço do Conselheiro.

       De farta cabeleira e bigodes brancos, grandes olhos azuis, Jerônimo Pereira fitava, delirante, um ponto qualquer. Talvez passasse por sua fraca memória, alguma recordação da mocidade.

     De fato, sua juventude deixara-lhe reminiscências indeléveis, de quando andava pelo país com seu teatro de marionetes, fixando-se, por alguns dias, em cidades interioranas. Ao chegar, o povo logo dizia: lá vêm as marionetes de Seu Jerônimo.  Ele levantava rapidamente sua humilde casa de espetáculos,  apresentando à população variadas peças cômicas. Os bonecos conversavam entre si, às vezes sobrando alguma pergunta maliciosa para o espectador distraído.

     Quando Seu Jerônimo partia rumo a outras plagas, deixava saudade naqueles corações hospitaleiros.    Palmilhando esta vida, um dia lá, outro cá, certa ocasião, ao passar por Curvelo,  já velho, doente e cansado daquelas andanças, resolveu permanecer nesta cidade.

      A noite caía quando me despedi daquele artista andarilho e rumei para casa. No dia seguinte, à tarde, na hora em que o céu de minha terra recebia as primeiras pinceladas rubras do sol poente, ouvi sinos a defunto. Seu Jerônimo falecera!

 

    



Escrito por Curvelo Imperial às 16h40
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Gente do Sertão

 José Emílio Ferreira Soares

 

 

     O tropeiro, geralmente de estirpe reinol, foi um dos personagens mais notáveis deste País. Durante anos seguiu as trilhas serpenteantes dos caminhos com sua tropa, levando mercadorias a seu destino.

    Joaquim Eugênio Pereira, meu bisavô, descendente de família portuguesa, foi um deles. Inúmeras vezes, na sua mocidade, fez o trajeto do Rio de Janeiro, capital do Império, a Formosa dos Couros, no sertão de  Goiás. Assim que ali chegava, recarregava a  tropa de couros e outros produtos da terra e pegava o caminho de volta. A tropa seguia guiada por sua madrinha - mulinha toda enfeitada, agitando cincerros e guizos – que indicava o caminho.

    Em tempos memoráveis, quando a tranqüilidade provinciana assentava-se sobre as famílias curvelanas, e o comércio tinha significado expressivo na região, havia aqui vários ranchos de tropeiro. Dentre eles destacam-se:  rancho Pereira Diniz, rancho João Pitanguy, rancho Terto Pena,  e outros que a nossa memória não consegue alcançar. Quando chegavam as tropas com seus balaios de lado a lado, carregados de mercadorias, no rancho de João Pitanguy, era uma festa para a criançada. Corriam todas ao encontro dos tropeiros para serem presenteadas e brincavam sobre os balaios, numa satisfação contagiante. Dentre estes tropeiros, destacou-se Tão Barroso, alto, claro, de longas barbas brancas, figura paternal e amiga, homem bom e atencioso com as crianças. Quando ele apeava no rancho, sempre trazia pra criançada panelinhas de pedra, da Vila do Príncipe do Serro do Frio. Tão Barroso, também conhecido como Tão Velho, nasceu num lugar chamado Vau, próximo a São Gonçalo do Rio das Pedras, que seguindo em direção ao Serro, passa por Milho Verde, povoado constantemente visitado pelos turistas. Este velho tropeiro desfrutava de um largo círculo de amizades em Curvelo, razão pela qual demonstrava uma admiração especial pela cidade.

     À noite, no rancho, os tropeiros reuniam-se, cantavam e tocavam viola, tendo à sua volta a constante presença da meninada. As modinhas encantavam os corações nas noites enluaradas e com certo mormaço, característico do sertão mineiro. A figura do tropeiro, portanto, muito contribuiu para a nossa formação histórica, e até hoje povoa a imaginária fantasia das lendas. 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 15h55
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