CÍRCULO MONÁRQUICO DE CURVELO


Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O trem de ferro rasga os caminhos do sertão, despertando a curiosidade da gente simples da beira-estrada. Lá vai a “Maria Fumaça” a puxar uma  composição onde se encontram diversos passageiros, cada um com seu mundo, com sua história. Porém, quando se acham em uma viagem dessa natureza, parece haver uma afinidade mais estreita entre as pessoas e o mundo exterior de cada um se converte todo para aqueles carros – sejam de primeira ou de segunda classe. Aliás, por tal motivo, a sabedoria popular cria piadas como “televisão de baiano é janela de trem” e muitas outras de humor inconfundível.

 

Pirapora ainda está longe!... Os vagões sacodem numa cadência ritmada, enquanto uns espiam o mundo agreste lá fora e outros se põem a matracar com o colega de assento, muitas vezes aborrecendo o companheiro com longos papos ou atrapalhando o seu sono.

 

Cochilando no canto da poltrona, com o tradicional colete preto e gravata borboleta, encontra-se Jeremias Fraterno de Souza, conhecido popularmente por Jeré Goela-de-Sapo, pois era obrigado a falar sem parar, por causa da profissão ambulante de camelô. Satisfeito, dirigia-se às cidades ribeirinhas do São Francisco, com muitas novidades na bagagem.

 

No lado oposto, o cego Zacarias cutucava a viola, cantando baixinho:

Mulata, oh! mulatinha,

com seu vestido de chita,

sacode o corpo, neguinha!

samba, moça bonita!

Às vezes, interrompia o instrumento pra vender um trago de pinga a algum passageiro que o procurava.

Esses dois homens, embora de costumes diferentes, tiveram, no decorrer de suas vidas, um traço em comum: o modo de conquistar, no dia-a-dia, a sua própria popularidade.

 

Jeré Goela-de-Sapo, antes de ingressar na profissão de caixeiro viajante, foi, durante um bom tempo, palhaço de circo de cavalinhos. Labutou por muitos anos no picadeiro, fazendo rir a criançada das vilas pobres que se espalham por esse mundo de meu Deus. Porém, desprovida de recursos financeiros, a pequena casa de espetáculos diluiu-se, encerrando suas atividades num lugarejo próximo ao Tombador. O que ele haveria de fazer? A vida tinha que continuar! Certo dia, Jeré resolveu partir para a capital, ficou por lá alguns anos, aparecendo, tempos depois, nas praças de Curvelo, rodeado de ouvintes e curiosos.

 

Como em toda mala de camelô, a cobra Catarina e o tiú Gregório não poderiam faltar. Eram chamarizes para induzir o povo simples a comprar aqueles remédios da flora amazônica, que serviam para curar qualquer doença. Inventava estórias mirabolantes, tendo como protagonistas os dois répteis, para atrair ainda mais a curiosidade da população. Certo dia, uma criança absorta com seu tradicional palavrório, nem sentiu quando ele lhe tomou o frango que conduzia debaixo do braço. Quando ela assustou, o bicho já se encontrava na mesa de trabalho do hipnotizador ambulante. Aí, mil façanhas eram feitas para incentivar a crença popular.

 

Goela de Sapo nunca foi homem de briga. Vivia rindo. Só se sabe de um desentendimento seu num carnaval de Pirapora – alguém engraçou-se com o colete preto e a gravata borboleta que ele envergava.

-Olha o sapo empetecado! E outros insultos se seguiram, depreciando-o perante uma mulatinha que arranjara como namorada. Aí, encolerizado, tentou dar um rabo-de-arraia no sujeito, mas a confusão acabou por ficar em nada! No gingado do trem, ia Jeré sorridente, pela reanimação que a pinga do cego lhe provocara. E o cego, satisfeito com as vendas da branquinha, entoava:

Mulata, oh! mulatinha,

traz pra nós o que é gostoso,

mais cachaça e mais música!

Êta homem despreguiçoso!

 

Realmente, o velho Zacarias nunca foi homem de perder tempo. Moço ainda, quando seus olhos ainda eram abertos ao mundo exterior, tinha uma venda, lá pelas bandas de Juazeiro, onde se reunia com os amigos. No entra e sai da freguesia, a um canto, tirava suas modinhas, verdadeiras reportagens sobre o sucedido e acontecido por aquele nordeste velho de guerra.

 

Querido por todos, era detentor de certa força política, sabendo manejar com arte as eleições. Ali passou sua vida de comerciante, cantador e homem de bem, até que o cangaço, que ali reinava, não admitiu a sua opinião sobre a conduta de certo candidato, ligado à jagunçada.

Saqueado pelos cangaceiros, foi levado pra longe e sua venda incendiada pelo bando de Antônio Pé-de-Cabra. Torturado, perdeu a visão desde aquela época.

Agora, pobre, vagueia de cidade em cidade cantando suas modinhas, lutando arduamente pela sua sobrevivência. Nas festas de São Geraldo, sempre aparece com a sua viola afinada, entoando nas praças de Curvelo canções repentistas: 

Nas voltas que dá o mundo,

há muita alegria e tristeza,

Porém, um sonho profundo

Nos mostra sua beleza!

 

Eis aí a história desses dois homens, que,  companheiros de viagem, têm como destino o sertão. Quando saírem  do mundo fechado do trem de ferro para entrarem no mundo aberto das cidades, grandes ou pequenas, arraiais ou vilas, elas estarão sempre à espera deles, porque a vida é luta e eles não podem parar.

 

E Jeré Goela-de-Sapo há de bradar bem alto nas praças, para convencer o povo daquela redondeza a comprar-lhe os remédios infalíveis em qualquer situação.

Enquanto isso, em outras freguesias, o cego Zacarias, ao som de sua viola, canta para o povo que passa e lhe deixa um vintém no seu chapéu de couro.

E nas voltas que dá o mundo, com alegria e tristeza, a vida rola, prosseguindo sua trajetória!...

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 09h55
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares

 

O trem de ferro rasga os caminhos do sertão, despertando a curiosidade da gente simples da beira-estrada. Lá vai a “Maria Fumaça” a puxar uma  composição onde se encontram diversos passageiros, cada um com seu mundo, com sua história. Porém, quando se acham em uma viagem dessa natureza, parece haver uma afinidade mais estreita entre as pessoas e o mundo exterior de cada um se converte todo para aqueles carros – sejam de primeira ou de segunda classe. Aliás, por tal motivo, a sabedoria popular cria piadas como “televisão de baiano é janela de trem” e muitas outras de humor inconfundível.

 

Pirapora ainda está longe!... Os vagões sacodem numa cadência ritmada, enquanto uns espiam o mundo agreste lá fora e outros se põem a matracar com o colega de assento, muitas vezes aborrecendo o companheiro com longos papos ou atrapalhando o seu sono.

 

Cochilando no canto da poltrona, com o tradicional colete preto e gravata borboleta, encontra-se Jeremias Fraterno de Souza, conhecido popularmente por Jeré Goela-de-Sapo, pois era obrigado a falar sem parar, por causa da profissão ambulante de camelô. Satisfeito, dirigia-se às cidades ribeirinhas do São Francisco, com muitas novidades na bagagem.

 

No lado oposto, o cego Zacarias cutucava a viola, cantando baixinho:

Mulata, oh! mulatinha,

com seu vestido de chita,

sacode o corpo, neguinha!

samba, moça bonita!

Às vezes, interrompia o instrumento pra vender um trago de pinga a algum passageiro que o procurava.

Esses dois homens, embora de costumes diferentes, tiveram, no decorrer de suas vidas, um traço em comum: o modo de conquistar, no dia-a-dia, a sua própria popularidade.

 

Jeré Goela-de-Sapo, antes de ingressar na profissão de caixeiro viajante, foi, durante um bom tempo, palhaço de circo de cavalinhos. Labutou por muitos anos no picadeiro, fazendo rir a criançada das vilas pobres que se espalham por esse mundo de meu Deus. Porém, desprovida de recursos financeiros, a pequena casa de espetáculos diluiu-se, encerrando suas atividades num lugarejo próximo ao Tombador. O que ele haveria de fazer? A vida tinha que continuar! Certo dia, Jeré resolveu partir para a capital, ficou por lá alguns anos, aparecendo, tempos depois, nas praças de Curvelo, rodeado de ouvintes e curiosos.

 

Como em toda mala de camelô, a cobra Catarina e o tiú Gregório não poderiam faltar. Eram chamarizes para induzir o povo simples a comprar aqueles remédios da flora amazônica, que serviam para curar qualquer doença. Inventava estórias mirabolantes, tendo como protagonistas os dois répteis, para atrair ainda mais a curiosidade da população. Certo dia, uma criança absorta com seu tradicional palavrório, nem sentiu quando ele lhe tomou o frango que conduzia debaixo do braço. Quando ela assustou, o bicho já se encontrava na mesa de trabalho do hipnotizador ambulante. Aí, mil façanhas eram feitas para incentivar a crença popular.

 

Goela de Sapo nunca foi homem de briga. Vivia rindo. Só se sabe de um desentendimento seu num carnaval de Pirapora – alguém engraçou-se com o colete preto e a gravata borboleta que ele envergava.

-Olha o sapo empetecado! E outros insultos se seguiram, depreciando-o perante uma mulatinha que arranjara como namorada. Aí, encolerizado, tentou dar um rabo-de-arraia no sujeito, mas a confusão acabou por ficar em nada! No gingado do trem, ia Jeré sorridente, pela reanimação que a pinga do cego lhe provocara. E o cego, satisfeito com as vendas da branquinha, entoava:

Mulata, oh! mulatinha,

traz pra nós o que é gostoso,

mais cachaça e mais música!

Êta homem despreguiçoso!

 

Realmente, o velho Zacarias nunca foi homem de perder tempo. Moço ainda, quando seus olhos ainda eram abertos ao mundo exterior, tinha uma venda, lá pelas bandas de Juazeiro, onde se reunia com os amigos. No entra e sai da freguesia, a um canto, tirava suas modinhas, verdadeiras reportagens sobre o sucedido e acontecido por aquele nordeste velho de guerra.

 

Querido por todos, era detentor de certa força política, sabendo manejar com arte as eleições. Ali passou sua vida de comerciante, cantador e homem de bem, até que o cangaço, que ali reinava, não admitiu a sua opinião sobre a conduta de certo candidato, ligado à jagunçada.

Saqueado pelos cangaceiros, foi levado pra longe e sua venda incendiada pelo bando de Antônio Pé-de-Cabra. Torturado, perdeu a visão desde aquela época.

Agora, pobre, vagueia de cidade em cidade cantando suas modinhas, lutando arduamente pela sua sobrevivência. Nas festas de São Geraldo, sempre aparece com a sua viola afinada, entoando nas praças de Curvelo canções repentistas: 

Nas voltas que dá o mundo,

há muita alegria e tristeza,

Porém, um sonho profundo

Nos mostra sua beleza!

 

Eis aí a história desses dois homens, que,  companheiros de viagem, têm como destino o sertão. Quando saírem  do mundo fechado do trem de ferro para entrarem no mundo aberto das cidades, grandes ou pequenas, arraiais ou vilas, elas estarão sempre à espera deles, porque a vida é luta e eles não podem parar.

 

E Jeré Goela-de-Sapo há de bradar bem alto nas praças, para convencer o povo daquela redondeza a comprar-lhe os remédios infalíveis em qualquer situação.

Enquanto isso, em outras freguesias, o cego Zacarias, ao som de sua viola, canta para o povo que passa e lhe deixa um vintém no seu chapéu de couro.

E nas voltas que dá o mundo, com alegria e tristeza, a vida rola, prosseguindo sua trajetória!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h50
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