CÍRCULO MONÁRQUICO DE CURVELO


Tragédia no Circo

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Não sei o que é o certo: se o poeta tem alma de criança, ou se a criança possui alma de poeta. A verdade é que a criança, vivendo nesta roda da vida, que é o mundo, cheio de conturbações, sabe conservar dentro do seu próprio eu, um mundo diferente, repleto de sonhos e ilusões. Despreocupada com os problemas cotidianos, é sempre detentora de uma mente fantasiosa, tudo servindo de motivação para o seu viver. Porém, essa fase é passageira!..

As cantigas de roda, os brinquedos de pegador, as peladas nas praças da cidade, os papagaios a colorirem o céu azul de agosto, são fontes de recordação de uma infância que está bem longe e que desapareceu nos horizontes do tempo, deixando apenas saudade.

É bom recordar o passado, porque é justamente nele que a gente vai encontrar certos momentos felizes, despidos de preocupações.

Fico, muitas vezes, procurando os fatos que me marcaram o passado e, entre as névoas do pensamento, começo a perceber que o objeto perdido torna-se cada vez mais claro aos meus olhos, como uma embarcação a se aproximar do porto. Os acontecimentos mais significativos afloram-se ao meu espírito, destacando-se a lembrança dos circos.

O circo sempre foi uma constante na alma da criançada, deixando também nos mais velhos uma profunda saudade.

O circo de cavalinhos na antiga praça do mercado, com seus palhaços, trapezistas voadores e globo da morte, fantasiava ainda mais a mente fértil das crianças, deixando presentes, em seus corações, imagens indeléveis. Para elas, de olhos fixos no espetáculo, o mais simples ato no picadeiro representava uma valiosa motivação, para enriquecer a sua existência sonhadora.

Por falar em circo, me recordo de um fato que marcou, de maneira singular, a vida no picadeiro: a história de Kátia Karamanov. Era uma jovem de apenas 18 anos, olhos grandes e azuis, cabelos castanhos, corpo esguio, identificando-se com a mais bela ninfa mitológica greco-romana, que dedicou toda sua vida ao trapézio, executando as mais difíceis acrobacias.

Viera com seu pai, Iuri Karamanov, da região dos Urais, na velha Rússia, onde seus antepassados teriam desaparecido durante a revolução de 1917, em que os bolcheviques, liderados por Lênin, derrubaram o império dos Kzares, para implantar uma ditadura comunista e discricionária, a URSS. Ao passarem pela França, ali permaneceram algum tempo, organizando espetáculos para sua sobrevivência. Foi lá que ficaram conhecendo um tal de Mirabeau, cômico de um teatro falido, que, por dificuldades financeiras, aderiu à companhia dos russos.

Os números artísticos foram aumentando e, pouco a pouco, com a adesão de artistas de procedência eslava, como os irmãos Marlov, o velho russo conseguiu estruturar um respeitável circo de espetáculos, que recebera o nome de Grã Circo Karamanov. A bela Kátia trabalhava com Leonardo e Ricardo Marlov no trapézio voador, demonstrando por este, uma paixão surgida à primeira vista. Mirabeau – o pierrot chorão – ficava no picadeiro alegrando a platéia com a sua graça, principalmente as crianças, que procuravam aquela casa de espetáculos constantemente, para ver o popular palhaço. O velho Iuri, muito bem vestido, era o apresentador.

Não é que um dia a empresa circense resolveu dar um giro pelo mundo, chegando até ao Brasil? Neste país de meu Deus, fincaram barracas e ganharam campo. Certa ocasião aportaram em Curvelo, onde Mirabeau conquistou a criançada com o seu modo de ser e, ao sair pelas ruas anunciando o espetáculo em longas pernas de pau, cantava com o sotaque afrancesado: "E o palhaço, o que é ?" E, à sua retaguarda, uma multidão de crianças, aos gritos, respondia: " ladrão de mulher".

Entretanto, quem via aquele francês no picadeiro, escondendo o seu rosto atrás da máscara de palhaço, nunca haveria de pensar que guardava no seu íntimo um ciúme doentio, misturado a uma paixão, cada vez mais violenta, pela trapezista Kátia, principalmente quando a via no trabalho, a segurar as mãos firmes do companheiro. Todos sabiam que Kátia amava Ricardo, aliás, durante os espetáculos, a troca de beijos entre eles já fazia parte da apresentação.

O pierrot chorão, sempre no picadeiro, escondendo sua expressão de ódio e amor atrás da máscara, esforçava-se para tirar gargalhadas da platéia.

- Meu Deus, como é duro trabalhar nesta profissão!, falava consigo mesmo. E Kátia, sempre no trapézio, enchia os olhos dos espectadores e também de Mirabeau, com sua singular beleza.

-Como é linda a Kátia!, dizia, com uma voz surda nas entranhas, o artista da graça. Dentro do esconderijo de sua timidez, viera suportando a dor da paixão não correspondida, que cada dia mais lhe incendiava o espírito debilitado. Talvez, nem um analista, um psicólogo, pudesse entender a profundidade daquele psicótico amor.

Os espetáculos se multiplicavam, e o velho proprietário sempre a anunciar a seqüência dos números. Entretanto, desta vez, o cômico não apareceu no picadeiro. Estaria doente? Kátia surge com os companheiros de trapézio. Na sua apresentação ao público, é recebida ao som romântico de "Luzes da Ribalta". Iniciam-se os saltos acrobáticos no trapézio voador, arrancando aplausos da platéia.

Justamente na última parte, quando ela iria dar o salto mortal, para segurar as mãos de Ricardo e beijar-lhe os lábios, um tiro por trás das cortinas da entrada do picadeiro, acertou-lhe de cheio o peito esquerdo, fazendo-a cair desfalecida sobre a rede estendida. De repente, um reboliço se fez notar em meio à multidão que aplaudia a filha de Karamanov. E Mirabeau, onde está? Ninguém sabe o seu paradeiro!

Depois desse episódio, não se teve mais notícias daquele pierrot chorão, daquele palhaço que sabia arrancar das crianças e dos velhos, um sorriso contagiante. Quem o procurar, poderá talvez encontrá-lo em algum teatro da França, dos mais humildes, quem sabe, perdido no labirinto do seu ser, escondendo atrás da máscara aquele rosto psicopático, com fisionomia de assassino.

De fato, a alma humana possui enigmas, que a gente, muitas vezes, desconhece!...

O Regional

Curvelo, Julho/Agosto/1975

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h00
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