CÍRCULO MONÁRQUICO DE CURVELO


Gente do Sertão

Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Partindo de Pirapora, em determinado dia de agosto, desci de barco o São Francisco. Sobre o seu leito ondulante, correntezas formavam as chamadas covas-de-cana, ao sol causticante do meio dia. Depois de navegar alguns quilômetros, ancorei à sua margem direita para conhecer aquelas paragens sertanejas, e segui a pé as trilhas desnudas e tortuosas, batidas pelo homem do sertão. À certa altura, divisei uma casa de taipa, quase em ruínas, ao lado de frondoso umbuzeiro. Caminhei até lá. Quando me aproximei, lobriguei um velho trigueiro, de cabelos e barbas brancas, sentado à sombra da árvore, soltando boas baforadas do seu rude cachimbo. O seu olhar calmo e morteiro o definia como o pensador e estoriador daquelas redondezas. Dono de mente fértil, parava horas e horas os vaqueiros que por ali passavam, atrás de alguma rês tresmalhada, para lhes contar inacreditáveis casos. De sorte que o mesmo aconteceu comigo, ao me aproximar dele.

- Qual sua graça, meu senhor?

- Ambrósio da Silva.

Baiano de Juazeiro e devoto do padre Cícero, sentindo dificuldades para sobreviver naquela antiga cidade, resolveu partir para Minas. Subiu o Velho Chico num vapor, pois naquela época, a navegação fluvial era o único meio que ligava Juazeiro a Pirapora, transportando, além de passageiros, mercadorias para o mercado atacadista e varejista de outras regiões. Em Pirapora, seria mais fácil ganhar a vida, não mais regressando à sua terra natal. Casou-se, ficando viúvo após quatro anos, sem filhos. Depois de me contar toda a sua vida, ele, que carregava no peso dos seus noventa anos um amontoado de lendas sertanejas, criadas pela sua imaginação supersticiosa, narrou para mim, que o ouvia de cócoras, uma passagem dele com o caboclo d’água, quando ainda moço, aos vinte e cinco anos. Certa noite, quando pescava, ao subir o rio numa pequena canoa, a embarcação foi virada inesperadamente por um monstrinho com feições humanas, jogando-o na correnteza bravia. Aquele antagonista furioso atracou-se com ele num formidável duelo. Rolaram ambos na corrente, semelhantes a dois gigantes em ferrenha luta. Em dado momento, com muito custo arrancou sua peixeira, cravando-a até o cabo no tórax disforme do inimigo, que com berros impressionantes o largou, desaparecendo nas águas. Ofegante, quase sem forças, ele chegou à praia, caindo na areia.

Assim, com a linguagem característica, que só as mentes sertanejas podem produzir, terminou a sua dantesca narrativa!

A tarde caía quando me despedi e regressei pelas trilhas abertas no sertão. A passos morosos, fui pensando... Ah!.. como é mentiroso e visionário este barranqueiro!..

Curvelo, 06/03/1962

O Pão de Santo Antônio

12/03/1967

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h55
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