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Gente do Sertão
José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG
Rasgando caminhos, vai o Jequitinhonha, ferido pelas dragas assassinas, numa triste agonia em busca do mar. Percorre longas distâncias, em contato com a pobreza estampada no semblante do povo ribeirinho. Cortada pelo rio, Mendanha se encontra sempre hospitaleira no aconchego de sua gente, tendo no alto sua igrejinha, a todos abençoando, sob os cuidados da zelosa Luíza Preta, pessoa muito estimada por todo o arraial. Quanta estória interessante, quanto caso digno de nota o seu povo nos transmite! João Brás, caboclo tisnado, baixinho, escorado numa rústica bengala, quando deparava com alguém que lhe desse ouvidos, ficava horas a fio contando casos de assombração. Não era à toa que morava próximo ao cemitério. Mente fantasiosa e visionária, ele transformava as montanhas, povoadas de mocós, em palco de seus casos extraordinários.
Coerente com suas tradições religiosas, o povoado de Mendanha comemora com entusiasmo a Semana Santa, as festas do Divino, a sua padroeira, Nossa Senhora das Mercês e outras mais. Conserva, até hoje, no domingo de páscoa, a queima do Judas, seguida da leitura de seu testamento, e a subida no pau de sebo em busca de prendas. Quem lhe conseguir chegar ao topo, é premiado. Uma senhora maratona! No sobe-escorrega da meninada, não poderia faltar a presença do popular Nascimento, velho de guerra. Tudo isto faz parte da cultura folclórica da região.
Mendanha continua hospitaleira, o Jequitinhonha, morrendo de sede e os mocós, correndo por entre as pedras das montanhas distantes!
Curvelo,07/08/1999
Escrito por Curvelo Imperial às 22h41
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Gente do Sertão
José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG
Pelos caminhos de ferro do sertão, o trem seguia sua trajetória num galopar ritmado e constante. Naquela época, a gente percorria longas distâncias, de estação a estação, para chegar, noite escura, em Pirapora. Era uma viagem, um tanto quanto romântica. No serpentear das curvas, a máquina lançava fagulhas na escuridão do céu, que iam se apagando ao longo da estrada de ferro. Os passageiros contavam seus casos, e as estórias formavam-se cheias de fantasia e criatividade. De cada parada, guardo uma lembrança: em Porto Faria, de um certo Antônio Sete Flechas, violonista dos bons, apesar de sua demência, que andava dizendo que por ali, as galinhas caminhavam de cincerro no pescoço e que gente virava anjo. Em Contria, comentava-se as peripécias de um tal Rodolfo Pereira, com suas tiradas filosóficas, como: "tem cada uma que mais parece duas, e se desdobrar, dá até três." Pagar passagem não era de seu feitio, pois era emérito caroneiro. Toda vez que viajava, era chamado ao carro do chefe do trem. Certa vez, quando ele procurava o chefe no lugar de costume, assustou-se ao deparar com a presença do itinerante - nome dado ao fiscal de trem - tentando voltar-se. Curioso, o fiscal lhe perguntou:
- O que o senhor deseja?
- Estou vendendo uns filhotes de "passo preto".
- O senhor está com eles aí ?
- Se não morreu ou fugiu algum, eu tenho uns seis ou oito.
Certo dia, estava ele viajando todo tranqüilo, quando o chefe apareceu na porta do vagão de passageiros com um telegrama, e em voz alta pronunciou:
- Rodolfo Pereira..
Todo vaidoso, ele respondeu:
- Seu criado.
- Na próxima estação, o senhor vai descer pra comprar o bilhete.
Assim ele foi vivendo, até que certa ocasião, resolveu dar uma esticadinha até a capital. Aí, foi outra estória. Abordado na rua por um vigarista, que, segundo ele, "com sua lábia, me arrastou que nem um carcará na corda", Rodolfo logo se envolveu numa complicada compra de um anel de estimação, posto à venda por necessidade. Apesar de valioso, o negócio poderia ser fechado a preço baixo, pois, de acordo com o tal vigarista, a sua família o esperava com urgência no nordeste. O anel cintilava que nem uma estrela e o cara insistiu tanto, que o caboclo caiu que nem um patinho, fechando o negócio. No dia seguinte, matutando com seus botôes no quarto da pensão, observou, surpreso, o azinhavrado anel de latão. Achou um desaforo, e pôs-se na rua atrás do malvado. Por sorte, o encontrou. O danado, ao vê-lo, saiu desatinado pelas ruas, acompanhado pelos gritos de Rodolfo: pega ladrão, pega ladrão. Enfim, o trapaceiro foi preso e os dois dirigiram-se para a delegacia, onde a discussão continuou braba. O delegado, já sem paciência, aos gritos desabafou: esses gravatas-tortas só vêm aqui pra dar trabalho pra gente!
Curvelo, 10/01/1999
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Escrito por Curvelo Imperial às 22h26
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Gente do Sertão José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG O coronelismo, durante o período da República Velha, como também no Estado Novo, desempenhou o papel de manipulador das massas populares, competindo aos chefes políticos, a decisão das eleições. O povo não tinha voz, nem vez . Era sempre encabrestado, a fim de prevalecer o poder de mando. Em época de eleição, a jagunçada aparecia para garantir a vitória do candidato apontado pela oligarquia política dominante. Os cemitérios ficavam despovoados com o ressuscitamento dos defuntos, que se encaminhavam às urnas para dar o seu voto e a sua assinatura de além-túmulo. As atas eram lavradas, a bico de pena, de conformidade com aqueles que almejavam alcançar, o poder. Crianças, jovens, velhos e defuntos, todos depositavam sua assinatura em tão importante documento. A vitória do candidato era dada de acordo com os interesses dos chefes políticos locais. Os romances regionalistas brasileiros retratam, dentro de uma visão crítica e sociológica, esse quadro jocoso, porém, triste, das primeiras fases da nossa desastrosa vida republicana. Entretanto, nos tempos atuais, nada mudou, pois cabe ao jogo do poder o uso da mídia e do lobby, como meios eficazes para a classe dominante ganhar sempre as eleições. Estado de Minas Cartas à Redação 16/07/1992
Escrito por Curvelo Imperial às 21h16
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Gente do Sertão
Gente do Sertão
José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG
O tropeiro, geralmente de estirpe reinol, foi um dos personagens mais notáveis deste País. Durante anos, seguiu as trilhas serpenteantes dos caminhos com sua tropa, levando mercadorias a seu destino. Joaquim Eugênio Pereira, meu bisavô, descendente de família portuguesa, foi um deles. Inúmeras vezes, na sua mocidade, fez o trajeto do Rio de Janeiro, capital do império, a Formosa , em Goiás. A tropa seguia guiada por sua madrinha - mulinha toda enfeitada, agitando cincerros e guizos - a indicar o caminho. Em tempos memoráveis, quando a tranqüilidade provinciana assentava-se sobre as famílias curvelanas, e o comércio tinha significado expressivo na região, havia aqui vários ranchos de tropeiro. Quando chegavam as tropas com seus balaios, de lado a lado, carregados de mercadorias, no rancho de João Pitanguy, era uma festa para a criançada. Corriam todas ao encontro dos tropeiros para ser presenteadas e brincavam sobre os balaios numa satisfação contagiante. Dentre eles, destacou-se Tão Barroso, alto, claro, de longas barbas brancas, figura paternal e amiga, homem bom e atencioso para com as crianças. Quando ele apeava no rancho, sempre trazia para elas panelinhas de pedra do Serro do Frio. À noite os tropeiros reuniam-se, cantavam e tocavam viola, tendo à sua volta a constante presença da meninada. As modinhas encantavam os corações nas noites enluaradas, com certo mormaço, característico do sertão mineiro. O tropeiro, portanto, muito contribuiu para a nossa formação histórica e, até hoje, povoa a imaginária fantasia das lendas.
Estado de Minas
Cartas a Redação
Publicação em partes: 22/04/1995 e 06/05/1995
Escrito por Curvelo Imperial às 10h30
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