CÍRCULO MONÁRQUICO DE CURVELO


 

 

Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares-Curvelo-MG.

 

         O movimento revolucionário de 30, que levou ao poder Getúlio Vargas, apoiado pela Aliança Liberal, teve consideráveis reflexos em Curvelo. A cidade vivia clima de expectativa, devido à insuficiente comunicação da época. Não é que três “valentes” rapazes apearam de seus cavalos, na porta do então Agente Executivo, Cel. José Soares dos Santos, para lhe comunicar terem visto, pelas bandas do Alto do Tote, um grupo de homens postos para invadir Curvelo?  Logo, o chefe do governo municipal tomou as devidas providências, e pessoas da sociedade armaram-se de unhas e dentes. A população ficou apreensiva. A cidade encontrava-se desguarnecida, pois a polícia local fora fortalecer as tropas de Belo Horizonte, combatendo juntamente com o 12 RI. Diante disso, Zeca de Assis Leal fardou-se de sargento, formando um batalhão de bate-paus para defender a cidade. Os curvelanos armaram-se, uns de medo e outros de coragem.

         Em 24 de outubro, quando os revolucionários encontravam-se na praça Voluntários da Pátria, diante do fórum, ouviram do Dr. Gastão Coimbra, do alto da sacada, a leitura do telegrama, comunicando a deposição do Presidente Washington Luiz. Tiros de regozijo ressoaram pela cidade, dando a sensação de um ataque armado. O seu efeito psicológico fez com que muitos, apavorados, embrenhassem pelo mato adentro, mulheres parissem  fora do tempo e outros,  se armassem para defender o seu solar.

         Assim, Curvelo inaugurou a era Vargas, depois de um bang-bang, que, na verdade,  nunca existiu.         

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h54
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares-Curvelo-MG

 

     A psicose revolucionária que culminou com a queda de Jango, em 64, cujo objetivo principal foi a luta contra o comunismo, teve notável participação de Curvelo. De fato, um grupo de pseudo-esquerdistas curvelanos, presente em um comício em Corinto, foi de lá escarreirado, sob as balas de um coronel sem patente. Pois bem, logo depois instalou-se o QG no prédio da Associação Rural, onde já funcionava a Câmara Municipal de Curvelo. Reuniram-se, ali, as elites dominantes da região, comandadas por um capitão do Exército. Não é que, neste clima de pânico, noticiou-se uma suposta invasão de Curvelo  por tropas do exército, fiéis a João Goulart? A primeira medida tomada pelo visionário comandante seria estourar a ponte sobre o Córrego da Paciência, que liga os municípios de Curvelo e Paraopeba.  Um político curvelano organizou o batalhão dos “caçadores”.  Armados de espingardas de caçada - só faltou cachorro perdigueiro - e munidos também de matalotagem, para fazerem um senhor piquenique nas horas de folga, aqueles bravos curvelanos, em incômodas carrocerias de caminhão, foram enfrentar sofisticadas armas do exército. Entretanto, tudo não passou de um blefe. E os valentes  “espingardeiros,” após penosa empreitada, quando  regressaram ao recinto da Câmara,  apenas ouviram do chefe do Executivo Municipal:  “Os comunistas serão presos”.  Portanto, os curvelanos cumpriram sua missão e, posteriormente, foi deflagrada a revolução em 31 de março.

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 18h01
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

 

 

     A sociedade curvelana sempre acolheu tipos populares que aqui chegaram, os quais prestavam-lhe serviços domésticos e outros mais. Houve alguns deles que passaram a morar em casas de família e ficaram conhecidos, muitas vezes, pelo nome do  proprietário. Um deles foi João da Paz, o João Bobo, que viveu no lar de Seu Luiz da Paz, e outro foi João Barata, porque se encontrava sob a proteção da família de José Barata A esta consideração atribui-se, portanto, a aceitação dessa gente simples no seio das famílias, também devido ao tamanho exíguo da comunidade na época, onde os laços de conhecimento entre todos eram bem mais estreitos. Todos conheciam todos. À medida em que a cidade foi crescendo com  o progresso econômico, começou-se a perceber um certo distanciamento entre as pessoas, o que contribuiu para o deslocamento dos tipos populares para a periferia. Hoje, muitos deles são conduzidos a hospitais e asilos.

      De vez em quando, a gente deparava na rua com Antônio Sete Flechas, um dos últimos remanescentes da geração dos tipos populares. Parece que ele teria vindo da região de Porto Faria. Quantas  vezes ele contou que, por aquelas bandas, as galinhas costumavam andar de cincerro no pescoço e que lá, o povo virava anjo! Exímio violonista, apesar da demência, dava um show que não estava no gibi, motivo pelo qual era conhecido também por Antônio Violão.  Apaixonado pelo militarismo, andava constantemente com o chapéu cheio de medalhas, imaginando se identificar com um comandante qualquer.

     O tempo passa e os últimos remanescentes começam a desaparecer. Assim é o gira-mundo da vida!.. 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 09h36
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Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

      Na vida social de Curvelo, desde longa data, apareceram tipos populares que se notabilizaram pelo seu modo de ser, suas variadas reações psíco-sociais e suas doidices, o que vinha justamente evidenciá-los diante das famílias, que bondosamente os aceitavam em sua casa. Ali eles prestavam-lhes serviços e tinham o de comer. Dentre estas figuras pitorescas que marcaram a vida de nossa terra, encontrava-se Saluzinho, sempre vestido à moda inglesa: paletó comprido batendo nas canelas, calças largas, sapato de numeração 33 a 44 – porque, de acordo com ele, todo número lhe servia – também a indispensável gravata, bengala, chapéu, tudo isso compondo sua estatura baixa, ostentando no rosto sereno, ralo bigode.

     Pois bem, Saluzinho, na sua labuta diária, não deixou de registrar fatos notáveis, que nunca irão desaparecer na lembrança do povo. Quando o chamavam de Salu Rodeiro, era perigoso ele mandar a pessoa à pedra noventa, pois o seu nome era Salustiano Luiz Beltrão. É claro que todo mundo sabia disso, ora essa!.. Frequentemento, tio Geraldo e Paulo Cunha  caminhavam até a sua  humilde casa, de paredes de enchimento, para conversar com ele na hora do jantar. Lá o encontravam como um lorde, todo engravatado, sentado numa tosca mesa de refeição, aos cuidados de sua irmã, Maria Brasil. Esta, por sua vez, era também uma figura notória, apesar de trabalhadora como ela só e de possuir um coração de anjo. Quantas vezes buscou água no chafariz  da praça de Santa Rita, palmilhando o mesmo itinerário, pés nus sobre o chão de terra! A molecada, quando a via aproximar-se, cercava-lhe o caminho com pedrinhas, só para ouvir suas reclamações. O ritual era o de sempre: ela baixava a pesada lata no chão, tirava as pedras do caminho, retornava a carga sobre a rodilha na cabeça e seguia em frente  resmungando. E assim, se foram anos!

     Enquanto a gente divaga por este mundo de Deus em busca de saudáveis reminiscências, começo a ouvir  os planos astronômicos que Saluzinho tinha em mente e a ver suas realizações a se concretizarem. Como num sonho, ele desaparecia da realidade e passava a vislumbrar o seu fazendão de gado, porcos e frangos com fartura, em cujas posses ele comandava seus camaradas de pés embotinados, semelhantes aos da estória de Jeca Tatu. Lá, suas galinhas não seriam as magricelas que transitavam pelo quintal de chão batido, lideradas por Seu Defunto – galinho de estimação e inseparável amigo, que até dormia com ele na cama.

     Saluzinho, durante toda a sua existência, foi um romântico extremado e um cidadão bem informado. Nutria um afeto especial por Adhemar de Barros, político da velha guarda e ex-governador de São Paulo. Em época de eleições, quando lhe perguntavam em quem votaria, a resposta era conclusiva: Adhemar de Barros. Também apreciava mulheres altas – quanto mais altas melhor, para alimentarem sua paixão. Pra ele, a maior satisfação seria chegar em seu quarto conjugal e deparar com aquela mulherona, comprida que nem uma palmeira, todinha para a sua serventia. Sempre alguém lhe dizia ao pé do ouvido, que o velho  político paulista providenciara pra ele lindas senhoritas, dentro dos conformes. Não é que um belo dia ele resolveu caminhar até a casa de  Lia – moça da elite curvelana – para lhe pedir a mão em casamento? Arrumou-se todo, pôs água de cheiro e subiu a rua. A pretendida veio-lhe atender à porta.

         - Bom dia, Saluzinho.

         - Bom dia, Dona Lia. Eu queria conversar com a senhora.

         - Pois não, vamos entrar.

         Chapéu na mão, assentou-se na sala e foi logo ao assunto:

         - Eu vim aqui pedir a sua mão em casamento.

         - Está certo, Saluzinho, seria uma honra para mim me casar com você,                                               

          porém, como sabe, eu sou uma moça rica, gosto de vestidos caros, jóias                                                                             requintadas, e para isso preciso de muito dinheiro. Você é um rapaz muito bom, trabalhador, não resta a menor dúvida, mas não vai poder atender às minhas exigências de senhorita vaidosa.

Ele pensou, analisou os fatos e certificou-se de que aquela noiva não era para ele. Sem saber o que dizer, como num desabafo de paixão, respondeu      simplesmente:

          - É, eu também tenho as minhas pendurezas!...

        Entretanto, nunca desanimou, sonhando sempre com mulheres esguias.      Durante o dia, quem passava por sua porta ou mesmo de longe, ouvia o raque-raque do seu torno tocado a pé, feito por ele mesmo, a fabricar pião – o pião das cantigas de roda – também bilboquês, cabos de espanador e talvez o piloto - espécie de jogo muito usado naquela época - tudo  para vender. À tardinha, durante a Semana Santa, pegava a Bíblia pra ler a palavra de Deus em voz alta, na porta da rua. Também em plenos olhos da noite, cutucava um violão desafinado, cantando com voz tatibitate para a imensa solidão. Acredito que nesse momento de êxtase, ele via as mulheres mais lindas do mundo, de uma altura incalculável, em volta de sua modesta pessoa.

     E a mente de Saluzinho fazia prodígio! Foi por causa disso mesmo, de seu alto espírito visionário, que numa daquelas campanhas políticas, quando foram eleitos Dr. Evaristo Soares de Paula, prefeito, e Targino Raimundo de Figueiredo, vice-prefeito, que seu nome, na base da troça, foi lançado como candidato à Câmara Municipal de Curvelo. Cédulas e panfletos foram distribuídos pela cidade afora com seu retrato, tirado na praça de Santa Rita, em posição hitlerista, careca exposta ao sol, numa elegância fora do comum. Quem lia seus boletins de propaganda, deparava com o mais interessante lema: “ Mais carnaval/ mais angu/ para vereador/ Salu”. Foi assim que ele saiu em campanha, prometendo trazer água de Três Marias, através de tubulações enormes, juntamente com os mais encorpados peixes.

     Passaram-se os anos, o tempo correu... Convencido de que fora eleito, ia sempre à Prefeitura reivindicar alguma coisa em favor do povo. Durante dezenas de anos, Saluzinho residiu numa casa em péssimo estado de conservação, praticamente despida de paredes. Interessante é que, quando ele saía, a trancava a sete chaves. Mais tarde, a caridade cristã reconstruiu-a, proporcionando-lhe um  relativo conforto e ali, ele passou o resto de sua vida. Aos poucos, sua saúde foi sendo debilitada pelo peso dos anos, manifestando-se um incômodo que ele chamava de “espinhela caída”, do qual uma vez me queixara na rua, além de outras doenças. Certo dia, tive notícia de que Saluzinho tinha sido internado no hospital e que, depois de alguns dias, viera a falecer. Sim, ele sucumbira de verdade, entretanto o seu espírito, de homem sonhador e romântico, nunca há de desaparecer. Nunca mais!.. 

 

 

    

 

   



Escrito por Curvelo Imperial às 09h55
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Santo Afonso, o Paladino de Cristo

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

   Quem procura conhecer a vida de Santo Afonso Maria de Liguori, logo fica fascinado com a grandeza do seu modo de se relacionar com seu semelhante. Filho primogênito de numerosa família da nobreza napolitana, nasceu em Marianella, no Reino de Nápoles, em 27 de setembro de 1696. Dotado de rara inteligência, recebeu de sua família esmerada educação em Ciências Humanas e línguas clássicas e modernas, desenvolvendo, também, a pintura, música e arquitetura, além de sua vocação poética. São várias suas composições musicais,  conhecidas, também, na Itália contemporânea. Dentre elas, destacam-se o Dueto da Paixão, Tu Scendi dalle Stelle, o Cântico de Natal, de reconhecida popularidade na Itália e numerosos outros hinos. Mais tarde, concluiu seus estudos universitários, doutorando-se em Direito civil e canônico em 1712, passando a exercer a advocacia. A sua brilhante atuação profissional lhe possibilitou o cognome de Príncipe dos Tribunais. Em 1723, depois de um longo processo de reflexão e discernimento, decidiu abandonar a carreira jurídica para ingressar-se nos estudos eclesiásticos, apesar da severa oposição de seu pai. Aos 30 anos, em 21 de dezembro de 1726, recebeu o Sacramento da Ordem. Nos primeiros anos de presbítero, trabalhou com os sem-teto e com os jovens marginalizados de Nápoles. Homem de visão apostólica, implantou as “Capelas da Tarde”, centros liderados pelos próprios jovens para a oração, proclamação da palavra de Deus, atividades sociais, educacionais e comunitárias. Quando ele faleceu, havia 72 dessas capelas com mais de dez mil participantes ativos. Posteriormente, a persistência de Afonso o levou a fundar, em Scala, província de Salerno, no sul da Itália, a Congregação do Santíssimo Redentor, em  9 de novembro de 1732, cuja missão era evangelizar os miseráveis que viviam no submundo da sociedade napolitana. Os Redentoristas, assim chamados, procuraram seguir o exemplo de Jesus Cristo, anunciando a Boa Nova aos pobres e abandonados. Afonso dedicou especial atenção a esta nova empreitada. Como intelectual, escreveu importantes obras sobre espiritualidade e teologia, traduzidas em setenta e duas línguas. Entretanto, a  mais importante contribuição para a Igreja foi, sem dúvida, na área da reflexão teológica moral, com a sua Teologia Moral. Esta se baseou na experiência pastoral de Afonso e na sua hábil maneira de buscar no cotidiano, os fundamentos de uma nova visão de Igreja. Rejeitou o rigorismo estrito do seu tempo, então influenciado pelo poder das elites, e combateu o estéril legalismo que estava sufocando a teologia. Afonso sagrou-se bispo de Santa Ágata dos Godos ou do Goths em 1762, com 66 anos.

No convento de Pagani, província de  Salerno, ele faleceu em 1º de agosto de 1787, junto à comunidade que fundara. Afonso Maria Cosme Damião Miguel Liguori foi canonizado pelo Papa Gregório XVI e, depois,  Pio IX o proclamaria Doutor da Santa Igreja. Em 1950, S.S o Papa Pio XII o declarou Patrono dos Confessores e dos Teólogos Moralistas. Diante disso, ele se tornou o Príncipe dos Moralistas. Afonso era um ardente devoto de Maria Santíssima, a qual passou a ser venerada através dos redentoristas sob o ícone de Perpétuo Socorro. Mais tarde, coube a São Clemente Maria Hofbauer propagar a Congregação Redentorista por toda a Europa. De fato, os redentoristas continuam cumprindo a missão, que Santo Afonso lhes confiou, de verdadeiros Paladinos de Cristo!

Cur



Escrito por Curvelo Imperial às 17h10
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Um Centro de Devoção no Sertão de Curvelo

 

                                      José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

      Quando os redentoristas aqui chegaram em 1906, Dom Joaquim Silvério de Souza, arcebispo de Diamantina e devoto de Santo Afonso Maria de Ligório, abriu-lhes as portas da sua jurisdição episcopal, para que fundassem uma casa de missões no sertão do Curvelo. Assim que eles se instalaram, iniciaram as suas novenas em honra de São Geraldo, o santo titular do futuro santuário-basílica. Aos poucos a devoção foi-se espalhando, avolumando-se de maneira considerável e chegando às comunidades mais longínquas.

      No século XVIII, aquele jovem italiano, Gerardo Maiella, nascido em Muro de Lucano, movido pela sede de Deus,  resolveu sair de sua casa para palmilhar os caminhos de Santo Afonso. O princípio foi penoso para ele, pois tanto os capuchinhos quanto os redentoristas não acreditavam que aquele frágil moço fosse suportar o peso do trabalho no convento. Porém, ele estava determinado a se tornar santo, desde quando deixou o teto paterno. Depois de muito insistir, ele foi recebido na Congregação do Santíssimo Redentor, onde, no convívio com Santo Afonso, o irmão Geraldo experimentou toda sorte de serviço desempenhando-o com dedicação, sobrando-lhe tempo para atender aos pobres que lhe batiam à porta do convento.

      Dotado de grande sensibilidade, Geraldo acolhia o Pai Eterno, o Deus-Trino,   no silêncio do seu ser. Protetor das parturientes, dedicava-lhes zelo especial, para que pudessem dar à luz num parto bem sucedido.

      Na sua curta existência, prestou à Igreja grandes serviços, morrendo de tuberculose  com apenas 29 anos no convento de Materdomini, na sua pátria. Geraldo era um ardente devoto da Virgem Santíssima, mãe de Deus e mãe dos homens, motivo pelo qual, conta-se que no momento de sua morte, teve a visão de Maria acompanhada dos anjos, a iluminar sua cela.

       Sem dúvida, com a Basílica de São Geraldo, Curvelo tornou-se um importante centro devocional,  para onde acorrem romeiros de várias partes do Brasil para agradecer as graças recebidas, principalmente durante a sua oitava. Dentre as diversas romarias, pode-se destacar a da longínqua Belém do Pará, que está aqui presente todos os anos, representada por um grande número de devotos. De fato, com a instalação deste grande centro de devoção, cumpriu-se a promessa no grande sertão das Gerais.

 

Curvelo, 28/06/2010 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 16h47
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Gente do Sertão

Gente do Sertão

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

         Velho São Francisco, que percorre as distâncias longínquas num galopar constante, enfrentando o agreste sertão, para depois, morrer no mar. Quem contempla suas águas revoltas, tem a sensação de um caudal de prata, ao reflexo dos primeiros raios de sol, dando, assim, colorido de arco-íris  àquela paisagem, que desponta aos olhos dos viventes beira-rio.Para os barranqueiros, nas toscas choças de capim, avizinhadas pelos elegantes umbuzeiros,  ele representa a vida. Dia e noite eles percorrem-lhe o leito, para pescar e vender a mercadoria nas feiras mais próximas, às vezes, por preço ínfimo. Estes pescadores que vagueiam por suas águas, são detentores de imaginação rica em crendices e preconceitos regionais. Assim, os homens do rio nunca se esquecem de ostentar grandes carrancas esculpidas à frente dos seus barcos, para espantar os maus espíritos, pois são conhecedores dos desafios nas correntezas e dos ataques dos animais.

        Juquinha Barqueiro encarna muito bem aquela figura são-franciscana, pelas suas características de pescador que conhece o rio na palma da mão,  personificando-o, muitas vezes, para conversar com ele, sabendo a hora exata do seu repouso. Ali nascera e ali casara com Nhá Regina. Nunca conheceram outras plagas, a não ser contemplar as lindas garças brancas naquele mundo tranqüilo, onde a vida pode respirar ar puro de liberdade e segurança. As garças brancas resmungam entre si, numa linguagem de amor, que o homem jamais entenderia. É neste mundo encantado do São Francisco, que vive Juquinha Barqueiro – à sombra dos umbuzeiros – alimentados pela vida que brota do leito do rio.

         Certa noite, quando vinha do trabalho, encontrou uma criancinha loura com grandes olhos azuis, que brilhavam à luz pálida do luar. Ela chorava compulsivamente, parecendo pedir proteção. O velho pescador pegou-a e a levou para sua choça de capim. No dia seguinte, ao indagar, sem sucesso, sobre a origem daquele menino, viu-se na obrigação de criá-lo. Entretanto, de boca em boca, começou a espalhar-se a notícia de uma criança loura, a quem o rio tivera dado à luz. O  menino tornou-se conhecido por Filho-das-Águas, e, mais tarde, iria ser respeitado em toda a região. O modo peculiar de comunicar-se com seus entes queridos, bem como a expressão que lhe brotava dos olhos cor do céu, penetrando como Raio X o fundo das águas, encantava a todos.Geralmente, quando  o rio começava a dormir, o Filho-das- Águas largava a choça do velho canoeiro para assentar-se à sua beira, cismando horas à fio. Parecia até que o menino louro procurava alguma coisa misteriosa sob aquelas águas revoltas e brabas, que galopavam rumo ao norte. Ele sentia uma atração inexplicável pelo rio, visitando-o todas as noites, enquanto o silêncio caía sobre o rancho dos velhos e o sono lhes tomava os sentidos.

         Enquanto o menino ia crescendo, aumentava a necessidade de se comunicar com o rio. Aliás, línguas soltas já haviam levado ao povo a notícia de que, aquele menino não era igual aos outros da redondeza. Alguém o vira conversar com a Mãe d’Água, que aparecera à meia noite numa canoa solitária, a pentear seus longos cabelos. Contam que, certa vez, o Caboclo d’Água viera a seu encontro e pelejara pra levá-lo consigo, definitivamente, para o fundo do rio, sob uma lapa onde morava, travando-se entre eles uma luta dantesca. De fato, o Filho das Águas começou a se tornar uma figura mística nas barrancas do São Francisco, sendo venerado por todos os pescadores. O menino dos cabelos de ouro e olhos da cor do céu continuava vivendo com Juquinha Barqueiro e Nhá Regina, desenvolvendo a arte de pescar, familiarizando-se, desta forma, com os mistérios do rio. Muitos pescadores transmitiam-lhe estórias interessantes, como a de que  viram a Mãe d’Água assentada à proa de um barco, nas horas de repouso do rio, contemplando o regresso dos pescadores à luz das estrelas. Diante disso, o menino se tornava cada vez mais amante do Velho Chico, principalmente quando se encontrava numa canoa, de pé, a transitar pra lá e pra cá. O Filho das Águas, aos poucos, se tornou um belo rapaz, graças aos cuidados dos velhos barranqueiros e também tornou-se um destemido pescador, como os seus pais de criação, amando as águas e a garças brancas que confabulavam lá longe.

        Certo dia, ele saíra para pescar e não voltara. Já era tarde e chovia torrencialmente,  o que lhe dificultava a subida árdua do rio. O jovem empregara toda sua resistência no  pesado remo, que lançava sua tosca canoa contra a forte correnteza. A chuva caía com violência , transformando-se em vendaval. Encapelavam-se as torrentes, que nem Hércules lhes poderia resistir à força. O grande caudal diluviava num relance, tornando-se verdadeiro mar. O minúsculo barco, balançando com insegurança, assemelhava-se aos barquinhos de papel usados pelas crianças nas enxurradas. Quem estivesse à beira do rio, não conseguiria distinguir-lhe o vulto, tamanha era a tempestade.

         Passou o tempo, passou a borrasca. O rio voltou à tranqüilidade anterior, com suas correntes rolando em direção ao norte, entretanto, ninguém teve mais notícias daquele rapaz dos cabelos de ouro e olhos da cor do céu. A tristeza se tornou hóspede constante do velho Juquinha Barqueiro e Nhá Regina, na pequena choça de capim. Apesar de muitos sacrifícios e lutas à procura  do jovem, não encontraram nenhum vestígio dele. Com o passar dos dias, ficou apenas a lembrança daquele moço misterioso ao lado dos barqueiros, a alimentar o seu espírito. Para uns, o Filho das Águas teria morrido na enchente, mas para muitos, estava vivo, aparecendo nas horas de repouso do rio, ao lado da Mãe d’ Água, assentados  no seu barco, cismando juntos o rio, as estrelas e o luar. A tradição oral diz que o Filho das Águas não morreu, porém, ficou encantado.

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h53
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Coroação de Dom Manuel II

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

O episódio do regicídio, que abalou Portugal em 1º de fevereiro de 1908, sinalizou uma crise institucional das mais lamentáveis. Ao regressarem de Vila Viçosa, foram assassinados pela Carbonária, no Terreiro do Paço, em Lisboa, El rei Dom Carlos I e seu filho Dom Luiz Filipe, príncipe herdeiro da Coroa. O infante Dom Manuel, Duque de Beja, regressara dias antes, devido a seus estudos preparatórios para se ingressar na Escola Naval. Quando ele foi esperar os pais e o irmão, estava armada a emboscada, vendo-se no meio de um tiroteio que lhe atingiu o braço. A Carbonária, sociedade secreta, que tinha como objetivo atuar nos movimentos revolucionários, principalmente em Portugal, França e Espanha, assentava suas raízes na Itália, destacando-se como seus principais líderes, Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi. Este foi cognominado Herói dos Dois Mundos, pois atuou durante a unificação italiana, no século XIX, e também no Brasil, onde se destacou na Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul.

Consternados com a morte do seu rei, os portugueses pressentiam dias obscuros na vida nacional, pois uma crise política estava instaurada. Desafiando aqueles momentos difíceis da nação, é coroado rei dos portugueses, Dom Manuel II, que, com pulso firme, se dispôs a sacrificar-se pelo seu povo. Com apenas 18 anos, traumatizado ainda pela tragédia do regicídio, assumiu a chefia do Estado Português, com a determinação de assegurar a proteção das instituições nacionais e do Estado de Direito. Enfrentou, com energia, a oposição republicana, manipulada pelo terrorismo da carbonária, pois chegou a ser ameaçado de morte, o que teve repercussão na imprensa internacional. Mesmo assim, a sua subida ao trono foi um sucesso, sendo aclamado por todo o país: "Rei e Povo estão unidos"!

Dom Manuel II manifestou singular preocupação com a questão social, pois a revolução industrial do século XIX, que mudou toda a ordem mundial, iria repercutir no alvorecer do século XX. Uma nova teoria econômica, fundamentada na dialética, que seria apresentada na obra Le Capital, de Marx, e em seu Manifesto Comunista, em parceria com Engels, norteavam o proletariado para a luta de classes, ao suscitar sérios questionamentos. Sabiamente, a Igreja, nesta época, apresentou sua teoria, fundamentada nos princípios evangélicos, através da encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, rebatendo o materialismo dialético e orientando a humanidade a seguir os caminhos seguros da caridade cristã.

No seu curto reinado, Dom Manuel II teve que enfrentar a exacerbada oposição do Partido Republicano. Este, com sua ação reivindicatória, punha em questão os sérios problemas econômicos do País, devido à sua fraca industrialização. Respeitando os princípios constitucionais, o rei aliou-se ao Partido Socialista, que existia desde 1875, apesar de nunca ter tido representação parlamentar. O objetivo principal dessa aliança, não enfocava a inexpressiva classe operária do país, nem tão pouco as divergências internas de cunho doutrinário. A estratégia visava, sobretudo, o equacionamento formulado para combater o radicalismo do Partido Republicano, retirando dele o apoio do proletariado urbano, para estabelecer o equilíbrio da Coroa portuguesa.

Em 1909, o rei convidou o sociólogo francês, Léon Poinsard, para elaborar um estudo em seu país, objetivando combater o clientelismo derivado do rotativismo. O cientista político-social concluiu que a solução mais eficaz, para a concretização da reorganização do trabalho e administração locais, estaria na reforma política que, como conseqüência, viria a se realizar naturalmente. O rei expôs ao presidente do Conselho de Ministros, Venceslau de Lima, a importância de se reorganizar o Partido Socialista, pois entendia que a sua colaboração com o regime era imprescindível. Os socialistas seriam os únicos capazes de desviar a classe operária, que apoiava o Partido Republicano. A chefia do Governo, com a liderança socialista, apesar dos esforços para atingir o seu objetivo, não conseguiu impedir que o Congresso Nacional Operário atravessasse sérias dificuldades, devido ao boicote que sofreu por anarquistas e republicanos, com a realização de um outro congresso. Entretanto, os socialistas não desanimaram, pois tinham a garantia do apoio régio, que assegurava a oposição aos republicanos. Alfredo Aquiles Monteverde, dirigente do Partido Socialista, relatou ao rei, em outubro de 1909, a falência do Congresso Sindicalista, e lhe agradeceu o interesse pela classe operária. No entanto, a instabilidade governamental continuava, mesmo com todo o apoio régio, pois o governo necessitava, com urgência, de medidas concretas, que mostrassem a aproximação aos socialistas. Em julho de 1910, no governo de Teixeira de Sousa, criou-se uma comissão integrada por três socialistas, dentre eles Azedo Gneco, com o objetivo de estudar a fundação de um instituto de trabalho nacional.. Apesar dessa medida, a insatisfação ainda persistia nos meios socialistas. Aquiles Monteverde, então, alegou que se deveria conceder à comissão, meios eficazes e de caráter permanente, para que os delegados socialistas pudessem ter acesso ilimitado aos meios de transporte, a fim de promoverem sua propaganda. Ciente da situação, o Rei encaminhou ao governo a reivindicação, acatada imediatamente pelo ministro de obras públicas, que aceitou a criação do Instituto de Trabalho Nacional.

Quanto à política externa do Rei, foi bastante intensa, apesar do seu curto e tumultuado reinado. Visitou oficialmente a França, Espanha e Inglaterra, esperando destes países o seu apoio para o fortalecimento do trono lusitano. Em novembro de 1909, a Coroa inglesa lhe havia conferido o título de Cavaleiro da prestigiada Ordem da Jarreteira. No mesmo ano, recebeu a visita de Afonso XIII, rei da Espanha, e em 1910, do presidente eleito do Brasil, Hermes da Fonseca.

A exemplo de seu pai, El Rei Dom Carlos I, o monarca procurou desenvolver uma política de aproximação com a Grã-Bretanha, não só por orientação geo-política, como também para assegurar a proteção da Casa de Bragança, pois havia estreita amizade entre a Coroa portuguesa e a Casa real britânica, na pessoa do seu rei, Eduardo VII. Para selar esse intento, já estava desenhado o projeto do casamento do rei português com uma princesa inglesa, cujo enlace não se realizou devido à morte do rei britânico, amigo pessoal de Dom Calos I, e às sucessivas crises internas da nação lusitana. Esta situação, norteou o novo governo liberal inglês a não se interessar em defender o trono português.

Crises políticas sucederam-se com freqüência, em decorrência das constantes questiúnculas, que contribuíram para a divisão dos partidos da base monárquica. A fragmentação da base do governo, refletiu consideravelmente nas eleições legislativas de 28 de agosto de 1910, ao corroborar a vitória do partido republicano, que aumentou o número de deputados de oposição no Parlamento. Como o Congresso de Setúbal, de 24 a 25 de abril de 1909, já havia decidido a tomada do poder, a causa revolucionária foi favorecida com o resultado do recente pleito eleitoral. A crise se ampliou de forma significativa, e em 4 de outubro de 1910, estourou a revolução, que no dia seguinte, 5 de outubro, culminou com a proclamação da República, em Lisboa. O palácio das Necessidades, residência oficial do rei, foi bombardeado, exigindo a retirada do monarca que, a conselho de seus líderes, dirigiu-se ao Palácio Nacional de Mafra, onde iria encontrar-se com a rainha sua mãe, e sua avó, a rainha-mãe Dona Maria Pia de Sabóia. Diante da vitória republicana, o rei decidiu-se embarcar na Ericeira, no iate real "Amélia", com destino ao Porto. Percebendo a grave situação, os oficiais a bordo teriam demovido Dom Manuel dessa intenção, ou raptaram-no, simplesmente, levando-o para Gibraltar. Ao desembarcar em Gibraltar, a família real logo recebeu a notícia de que o Porto aderira à República. O golpe de Estado estava terminado. A família real seguiu, dali, para o Reino Unido, onde foi recebida pelo rei Jorge V.

Exilado na Inglaterra, o rei Dom Manuel, acompanhado de seus bens particulares, fixou residência em Fulwell Park, Twickenharn, nos arredores de Londres, local onde sua mãe, Amélia de Orleães, nascera, também no exílio, durante a ocupação do trono francês por Napoleão III, em 1848. Somente após a queda do império, em 1871, os Orleães puderam voltar ao seu país.

Apesar das tentativas de restauração da monarquia em 1911,1912 e 1919, Dom Manuel procurou construir ali um ambiente português, mantendo-se em evidência na sociedade inglesa. Casou-se com sua prima, Dona Augusta Vitória, em 4 de setembro de 1913, princesa alemã de Hohenzollern-Sigmaringen, na capela do castelo de Hohenzollern.. Continuou a seguir, de perto, a política portuguesa, exercendo influência junto aos círculos políticos, nomeadamente, as organizações monárquicas. Alimentou uma constante preocupação de que a anarquia, da primeira república, provocasse uma eventual intervenção espanhola, o que poderia desestabilizar a soberania nacional. Desempenhou importante papel no campo da diplomacia, quando a Inglaterra não aceitou as credenciais de um novo diplomata português, devido à instabilidade provocada pelo golpe republicano, refletida na sucessiva troca de embaixadores. Nesta ocasião, as negociações de liquidação da dívida de Portugal com a Inglaterra, encontravam-se em andamento, exigindo uma política conciliatória das mais coerentes. O Ministro dos Negócios Estrangeiros se viu na obrigação de recorrer ao rei Dom Manuel, para desbloquear esta situação. Satisfeito por ajudar o seu país, o monarca, com seu prestígio, recorreu ao governo inglês, incluindo provavelmente o seu amigo Jorge V, o que teve imediato resultado para o governo português.



Escrito por Curvelo Imperial às 17h17
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Dom Manuel sempre gozou de elevado grau de patriotismo, e mesmo deposto e exilado, declarou em 1915, no seu testamento, a doação de seus bens ao Estado português, para a fundação de um Museu, manifestando também a vontade de ser sepultado em Portugal. Sob a liderança do carismático Henrique de Paiva Couceiro, os monarquistas exilados se concentraram na Galiza, com o beneplácito do governo espanhol, para entrarem em Portugal e restaurarem a monarquia. O Paladino- alcunha dada pela imprensa republicana ao líder monarquista – acreditava que bastaria uma demonstração de forças para que o povo rural aderisse à insurreição, porém, nada aconteceu como se planejara. Dom Manuel apoiou estas incursões, apesar de seus parcos recursos financeiros, nos primeiros anos do exílio. Porém, ocorreu um fato que merece consideração. A primeira incursão, feita sob a bandeira azul e branca, mas sem a coroa, foi precedida por um manifesto de Paiva Couceiro, que a defendia como um movimento neutro, porém, reclamava um plebiscito para decidir a forma de regime. Dom Manuel, sendo um monarca constitucional e legalmente jurado, não aceita ser sujeito a um referendo. Só após a aceitação de que a restauração seria baseada na sua pessoa e na Carta constitucional de 1826, o rei passou a apoiar os exilados da Galiza.

A segunda incursão ocorreu em 1912, mas, apesar de ter sido melhor preparada, não obteve sucesso. O governo espanhol viu-se obrigado a ceder às pressões diplomáticas, diante do reconhecimento da república portuguesa. Os conjurados, diante desta situação, tiveram que decidir se seriam desarmados, ou se retornariam a seu país. O governo espanhol acabou por desarmar os combatentes restantes, cuja presença na Galiza já era considerada ilegal. Dom Manuel, entretanto, nunca aceitou a restauração baseada na força, porém, a maioria dos monarquistas mais radicais não acatava a sua orientação. O monarca defendia que a restauração só poderia legitimar-se através de vias legais, com a participação popular através do voto. Dom Manuel, preocupado diante dessa delicada situação, da falta de sintonia entre ele e o grupo restauracionista, previa o surgimento de um movimento anarquista, que só poderia trazer sérios problemas para o seu país.

Com o começo da primeira grande guerra, a situação agravou-se, pois os relacionamentos políticos e diplomáticos entre a Inglaterra e Portugal, poderiam sofrer sérios problemas. Dom Manuel receava que a aproximação da Espanha às potências ocidentais, levasse a Inglaterra a substituir Portugal pelo seu vizinho, como seu aliado, e que o próprio país seria o preço cobrado por Afonso XIII pela sua entrada na guerra. Dom Manuel, sendo anglófilo, admirador do espírito britânico, defende, a partir da entrada de Portugal na guerra, uma participação mais ativa, instando os monarquistas a unirem-se aos republicanos, objetivando a unidade lusitana, pois seria desaconselhável qualquer movimento de cunho restauracionista durante o conflito. Ele chegou, mesmo no exílio, a solicitar sua incorporação no exército republicano português. Entretanto, a maioria dos monarquistas portugueses, sendo germanófilos, não responderam às expectativas do rei, pois acreditavam que a vitória do Kaiser facilitaria a restauração da monarquia. Dom Manuel, por sua vez, temia a perda de suas colônias, em decorrência da ambição germânica, caso os alemães conquistassem a vitória, e, com o apoio britânico, a unidade lusitana estaria garantida, não importando qual a forma de governo adotada. No entanto, aqueles mais próximos ao rei, que se ofereceram para lutar, foram recusados, pois o governo republicano não aceitou serviços de nenhum monarquista. O próprio monarca ofereceu seus serviços aos aliados, para servir como melhor pudesse. Foi colocado como oficial da Cruz Vermelha Britânica, onde desempenhou importante papel, ao longo da guerra, participando de conferências e recolhimento de fundos, visitando hospitais, e mesmo os feridos na frente, o que acabou sendo-lhe muito gratificante. As visitas às frentes de batalha foram dificultadas pelo governo francês, porém, sua amizade com Jorge V, desbloqueou todos esses entraves. Apesar de tudo, seu esforço não foi reconhecido. Anos mais tarde, em entrevista a Antônio Ferro, lamentou-se: "A sala de operações do Hospital Português, em Paris, durante a guerra, foi montada por mim. Sabe o que puseram na sua placa de fundação? ´De um português de Londres’". Coube ao rei a criação do departamento ortopédico do hospital de Sheperds Bush, que, por sua insistência, continuou a funcionar até 1925, assistindo aos mutilados de guerra. Jorge V, ao convidar Dom Manuel para ocupar a tribuna de honra e assistir ao desfile da vitória, em 1919, demonstrou uma prova de reconhecimento dos ingleses para com o monarca e Portugal.

Com a queda da monarquia constitucional em Portugal, deflagrou-se um movimento de renovação nacional, conhecido como Integralismo Lusitano. Formado por um agrupamento sócio-político tradicionalista português, exerceu sua influência entre 1914 e 1932, e, por intermédio dos seus dirigentes fundadores e discípulos, na oposição ao Estado Novo de Oliveira Salazar. Este movimento originou-se entre os católicos e monarquistas portugueses exilados na Bélgica, em 1913, a princípio, de caráter cultural, em reação ao anticlericalismo da primeira república. Em 1914, o movimento tornou-se político, incorporando também republicanos desiludidos com a república, ao ser formalmente constituído, no mesmo ano, na cidade de Coimbra, em torno da revista Nação Portuguesa. Entretanto, os proponentes nunca deixaram de evidenciar que, a forma monárquica que defendiam, diferia da que fora derrubada em 1910. Eles propunham a forma tradicional das corporações e dos municípios, e não aceitavam a representação parlamentar assentada exclusivamente em partidos ideológicos, defendida pela constituição. Dom Manuel, apesar de concordar com eles, manteve, é claro, sua fidelidade aos princípios constitucionais, aos quais prestou juramento. Quaisquer alterações na constituição, segundo o monarca, teriam que passar pela apreciação das cortes reais da nação, uma vez restabelecida a monarquia.

Com o crescimento das forças das idéias integralistas entre as hostes monarquistas, aumentavam as exigências sobre Dom Manuel, pedindo a sua manifestação, porém, ele continuava fiel a seu juramento à carta constitucional portuguesa. Diante desta problemática e do fracasso da Monarquia do Norte, ao acusar o rei pela sua falta de interesse na restauração, a Junta do Integralismo Lusitano declarou-se desobrigada de sua fidelidade para com o antigo monarca, em outubro de 1919. Em julho de 1920, representantes do movimento reuniram-se com o ramo Legitimista, e decidiram transferir sua lealdade ao terceiro filho de Dom Miguel II, o então ainda menor, Dom Duarte Nuno, Duque de Bragança. Em 1942, ele casou-se no Brasil com Dona Maria Francisca de Orléans e Bragança, princesa do Brasil , bisneta de Dom Pedro II. De seu casamento, nasceu Dom Duarte Pio, Duque de Bragança e atual Chefe da Casa Real Portuguesa.

De fato, Dom Manuel foi um monarca iluminado, pois durante o seu reinado, desempenhou, com objetividade, suas funções de Chefe de Estado. Bibliógrafo, nutriu atenção especial pela veracidade histórica, destacando-se os livros antigos e a literatura portuguesa. Cognominado O Patriota, manteve preocupação constante pelos assuntos pátrios. Também os monarquistas lhe deram o nome de O Rei–Saudade, pela saudade que lhes deixou, após a abolição da monarquia.

A sua morte repentina no exílio, levou o governo português, chefiado por Antônio de Oliveira Salazar, a lhe conferir honras de Chefe de Estado. Os restos mortais do rei foram sepultados no Panteão dos Bragança, no mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Os seus bens particulares, juntamente com os da Casa de Bragança, foram constituídos, por iniciativa do Governo de Salazar, na Fundação da Casa de Bragança. Ë oportuno que se destaque a importância de São Vicente, padroeiro de Lisboa, na história secular da monarquia e da nação portuguesas. Foi proclamado padroeiro de Lisboa em 1173, quando suas relíquias foram transferidas do Algarve, para uma igreja fora das muralhas da cidade. Em 1582, começou a edificação da igreja, no lugar onde Dom Afonso Henriques tinha mandado construir um primeiro templo, também em honra de São Vicente.

Ficam aqui as nossas considerações, acerca da história do grande povo lusitano. De fato, Dom Manuel II, coroado rei dos portugueses em meio ao tumulto das revoluções republicanas, soube desempenhar suas funções de Chefe de Estado com firmeza e dignidade, até o final de seus dias, numa demonstração de que a história é a testemunha da vida! Curvelo, 10/02/09

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h10
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Tragédia no Circo

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Não sei o que é o certo: se o poeta tem alma de criança, ou se a criança possui alma de poeta. A verdade é que a criança, vivendo nesta roda da vida, que é o mundo, cheio de conturbações, sabe conservar dentro do seu próprio eu, um mundo diferente, repleto de sonhos e ilusões. Despreocupada com os problemas cotidianos, é sempre detentora de uma mente fantasiosa, tudo servindo de motivação para o seu viver. Porém, essa fase é passageira!..

As cantigas de roda, os brinquedos de pegador, as peladas nas praças da cidade, os papagaios a colorirem o céu azul de agosto, são fontes de recordação de uma infância que está bem longe e que desapareceu nos horizontes do tempo, deixando apenas saudade.

É bom recordar o passado, porque é justamente nele que a gente vai encontrar certos momentos felizes, despidos de preocupações.

Fico, muitas vezes, procurando os fatos que me marcaram o passado e, entre as névoas do pensamento, começo a perceber que o objeto perdido torna-se cada vez mais claro aos meus olhos, como uma embarcação a se aproximar do porto. Os acontecimentos mais significativos afloram-se ao meu espírito, destacando-se a lembrança dos circos.

O circo sempre foi uma constante na alma da criançada, deixando também nos mais velhos uma profunda saudade.

O circo de cavalinhos na antiga praça do mercado, com seus palhaços, trapezistas voadores e globo da morte, fantasiava ainda mais a mente fértil das crianças, deixando presentes, em seus corações, imagens indeléveis. Para elas, de olhos fixos no espetáculo, o mais simples ato no picadeiro representava uma valiosa motivação, para enriquecer a sua existência sonhadora.

Por falar em circo, me recordo de um fato que marcou, de maneira singular, a vida no picadeiro: a história de Kátia Karamanov. Era uma jovem de apenas 18 anos, olhos grandes e azuis, cabelos castanhos, corpo esguio, identificando-se com a mais bela ninfa mitológica greco-romana, que dedicou toda sua vida ao trapézio, executando as mais difíceis acrobacias.

Viera com seu pai, Iuri Karamanov, da região dos Urais, na velha Rússia, onde seus antepassados teriam desaparecido durante a revolução de 1917, em que os bolcheviques, liderados por Lênin, derrubaram o império dos Kzares, para implantar uma ditadura comunista e discricionária, a URSS. Ao passarem pela França, ali permaneceram algum tempo, organizando espetáculos para sua sobrevivência. Foi lá que ficaram conhecendo um tal de Mirabeau, cômico de um teatro falido, que, por dificuldades financeiras, aderiu à companhia dos russos.

Os números artísticos foram aumentando e, pouco a pouco, com a adesão de artistas de procedência eslava, como os irmãos Marlov, o velho russo conseguiu estruturar um respeitável circo de espetáculos, que recebera o nome de Grã Circo Karamanov. A bela Kátia trabalhava com Leonardo e Ricardo Marlov no trapézio voador, demonstrando por este, uma paixão surgida à primeira vista. Mirabeau – o pierrot chorão – ficava no picadeiro alegrando a platéia com a sua graça, principalmente as crianças, que procuravam aquela casa de espetáculos constantemente, para ver o popular palhaço. O velho Iuri, muito bem vestido, era o apresentador.

Não é que um dia a empresa circense resolveu dar um giro pelo mundo, chegando até ao Brasil? Neste país de meu Deus, fincaram barracas e ganharam campo. Certa ocasião aportaram em Curvelo, onde Mirabeau conquistou a criançada com o seu modo de ser e, ao sair pelas ruas anunciando o espetáculo em longas pernas de pau, cantava com o sotaque afrancesado: "E o palhaço, o que é ?" E, à sua retaguarda, uma multidão de crianças, aos gritos, respondia: " ladrão de mulher".

Entretanto, quem via aquele francês no picadeiro, escondendo o seu rosto atrás da máscara de palhaço, nunca haveria de pensar que guardava no seu íntimo um ciúme doentio, misturado a uma paixão, cada vez mais violenta, pela trapezista Kátia, principalmente quando a via no trabalho, a segurar as mãos firmes do companheiro. Todos sabiam que Kátia amava Ricardo, aliás, durante os espetáculos, a troca de beijos entre eles já fazia parte da apresentação.

O pierrot chorão, sempre no picadeiro, escondendo sua expressão de ódio e amor atrás da máscara, esforçava-se para tirar gargalhadas da platéia.

- Meu Deus, como é duro trabalhar nesta profissão!, falava consigo mesmo. E Kátia, sempre no trapézio, enchia os olhos dos espectadores e também de Mirabeau, com sua singular beleza.

-Como é linda a Kátia!, dizia, com uma voz surda nas entranhas, o artista da graça. Dentro do esconderijo de sua timidez, viera suportando a dor da paixão não correspondida, que cada dia mais lhe incendiava o espírito debilitado. Talvez, nem um analista, um psicólogo, pudesse entender a profundidade daquele psicótico amor.

Os espetáculos se multiplicavam, e o velho proprietário sempre a anunciar a seqüência dos números. Entretanto, desta vez, o cômico não apareceu no picadeiro. Estaria doente? Kátia surge com os companheiros de trapézio. Na sua apresentação ao público, é recebida ao som romântico de "Luzes da Ribalta". Iniciam-se os saltos acrobáticos no trapézio voador, arrancando aplausos da platéia.

Justamente na última parte, quando ela iria dar o salto mortal, para segurar as mãos de Ricardo e beijar-lhe os lábios, um tiro por trás das cortinas da entrada do picadeiro, acertou-lhe de cheio o peito esquerdo, fazendo-a cair desfalecida sobre a rede estendida. De repente, um reboliço se fez notar em meio à multidão que aplaudia a filha de Karamanov. E Mirabeau, onde está? Ninguém sabe o seu paradeiro!

Depois desse episódio, não se teve mais notícias daquele pierrot chorão, daquele palhaço que sabia arrancar das crianças e dos velhos, um sorriso contagiante. Quem o procurar, poderá talvez encontrá-lo em algum teatro da França, dos mais humildes, quem sabe, perdido no labirinto do seu ser, escondendo atrás da máscara aquele rosto psicopático, com fisionomia de assassino.

De fato, a alma humana possui enigmas, que a gente, muitas vezes, desconhece!...

O Regional

Curvelo, Julho/Agosto/1975

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h00
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Gente do Sertão

Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Partindo de Pirapora, em determinado dia de agosto, desci de barco o São Francisco. Sobre o seu leito ondulante, correntezas formavam as chamadas covas-de-cana, ao sol causticante do meio dia. Depois de navegar alguns quilômetros, ancorei à sua margem direita para conhecer aquelas paragens sertanejas, e segui a pé as trilhas desnudas e tortuosas, batidas pelo homem do sertão. À certa altura, divisei uma casa de taipa, quase em ruínas, ao lado de frondoso umbuzeiro. Caminhei até lá. Quando me aproximei, lobriguei um velho trigueiro, de cabelos e barbas brancas, sentado à sombra da árvore, soltando boas baforadas do seu rude cachimbo. O seu olhar calmo e morteiro o definia como o pensador e estoriador daquelas redondezas. Dono de mente fértil, parava horas e horas os vaqueiros que por ali passavam, atrás de alguma rês tresmalhada, para lhes contar inacreditáveis casos. De sorte que o mesmo aconteceu comigo, ao me aproximar dele.

- Qual sua graça, meu senhor?

- Ambrósio da Silva.

Baiano de Juazeiro e devoto do padre Cícero, sentindo dificuldades para sobreviver naquela antiga cidade, resolveu partir para Minas. Subiu o Velho Chico num vapor, pois naquela época, a navegação fluvial era o único meio que ligava Juazeiro a Pirapora, transportando, além de passageiros, mercadorias para o mercado atacadista e varejista de outras regiões. Em Pirapora, seria mais fácil ganhar a vida, não mais regressando à sua terra natal. Casou-se, ficando viúvo após quatro anos, sem filhos. Depois de me contar toda a sua vida, ele, que carregava no peso dos seus noventa anos um amontoado de lendas sertanejas, criadas pela sua imaginação supersticiosa, narrou para mim, que o ouvia de cócoras, uma passagem dele com o caboclo d’água, quando ainda moço, aos vinte e cinco anos. Certa noite, quando pescava, ao subir o rio numa pequena canoa, a embarcação foi virada inesperadamente por um monstrinho com feições humanas, jogando-o na correnteza bravia. Aquele antagonista furioso atracou-se com ele num formidável duelo. Rolaram ambos na corrente, semelhantes a dois gigantes em ferrenha luta. Em dado momento, com muito custo arrancou sua peixeira, cravando-a até o cabo no tórax disforme do inimigo, que com berros impressionantes o largou, desaparecendo nas águas. Ofegante, quase sem forças, ele chegou à praia, caindo na areia.

Assim, com a linguagem característica, que só as mentes sertanejas podem produzir, terminou a sua dantesca narrativa!

A tarde caía quando me despedi e regressei pelas trilhas abertas no sertão. A passos morosos, fui pensando... Ah!.. como é mentiroso e visionário este barranqueiro!..

Curvelo, 06/03/1962

O Pão de Santo Antônio

12/03/1967

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h55
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Canudos e a Monarquia

Canudos e a Monarquia

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

O triste episódio de Canudos marcou uma das páginas mais horrendas da nossa história. A "Tróia de Taipa" dos jagunços, instalada às margens do rio Vaza-Barris, no sertão da Bahia, transformou-se em uma poderosa barreira contra as expedições do governo Prudente de Morais, empenhadas em dizimar aqueles incansáveis sertanejos. Liderados por Antônio Conselheiro, eles se opunham ao autoritarismo de uma república que, ao longo de sua existência, usou sempre da força para se manter. Os revolucionários pediam a volta do Imperador e a conseqüente restauração da monarquia. De mãos crispadas e rostos marcados pelo sofrimento, enfrentaram com altivez e determinação a criminosa intervenção do governo republicano. De fato, a Guerra de Canudos jamais foi vencida, pois deixou à posteridade um grande exemplo de luta contra qualquer tipo de opressão.

Estado de Minas

Cartas à Redação

18/04/1993

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h32
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Rasgando caminhos, vai o Jequitinhonha, ferido pelas dragas assassinas, numa triste agonia em busca do mar. Percorre longas distâncias, em contato com a pobreza estampada no semblante do povo ribeirinho. Cortada pelo rio, Mendanha se encontra sempre hospitaleira no aconchego de sua gente, tendo no alto sua igrejinha, a todos abençoando, sob os cuidados da zelosa Luíza Preta, pessoa muito estimada por todo o arraial. Quanta estória interessante, quanto caso digno de nota o seu povo nos transmite! João Brás, caboclo tisnado, baixinho, escorado numa rústica bengala, quando deparava com alguém que lhe desse ouvidos, ficava horas a fio contando casos de assombração. Não era à toa que morava próximo ao cemitério. Mente fantasiosa e visionária, ele transformava as montanhas, povoadas de mocós, em palco de seus casos extraordinários.

Coerente com suas tradições religiosas, o povoado de Mendanha comemora com entusiasmo a Semana Santa, as festas do Divino, a sua padroeira, Nossa Senhora das Mercês e outras mais. Conserva, até hoje, no domingo de páscoa, a queima do Judas, seguida da leitura de seu testamento, e a subida no pau de sebo em busca de prendas. Quem lhe conseguir chegar ao topo, é premiado. Uma senhora maratona! No sobe-escorrega da meninada, não poderia faltar a presença do popular Nascimento, velho de guerra. Tudo isto faz parte da cultura folclórica da região.

Mendanha continua hospitaleira, o Jequitinhonha, morrendo de sede e os mocós, correndo por entre as pedras das montanhas distantes!

Curvelo,07/08/1999

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h41
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

Pelos caminhos de ferro do sertão, o trem seguia sua trajetória num galopar ritmado e constante. Naquela época, a gente percorria longas distâncias, de estação a estação, para chegar, noite escura, em Pirapora. Era uma viagem, um tanto quanto romântica. No serpentear das curvas, a máquina lançava fagulhas na escuridão do céu, que iam se apagando ao longo da estrada de ferro. Os passageiros contavam seus casos, e as estórias formavam-se cheias de fantasia e criatividade. De cada parada, guardo uma lembrança: em Porto Faria, de um certo Antônio Sete Flechas, violonista dos bons, apesar de sua demência, que andava dizendo que por ali, as galinhas caminhavam de cincerro no pescoço e que gente virava anjo. Em Contria, comentava-se as peripécias de um tal Rodolfo Pereira, com suas tiradas filosóficas, como: "tem cada uma que mais parece duas, e se desdobrar, dá até três." Pagar passagem não era de seu feitio, pois era emérito caroneiro. Toda vez que viajava, era chamado ao carro do chefe do trem. Certa vez, quando ele procurava o chefe no lugar de costume, assustou-se ao deparar com a presença do itinerante - nome dado ao fiscal de trem - tentando voltar-se. Curioso, o fiscal lhe perguntou:

- O que o senhor deseja?

- Estou vendendo uns filhotes de "passo preto".

- O senhor está com eles aí ?

- Se não morreu ou fugiu algum, eu tenho uns seis ou oito.

Certo dia, estava ele viajando todo tranqüilo, quando o chefe apareceu na porta do vagão de passageiros com um telegrama, e em voz alta pronunciou:

- Rodolfo Pereira..

Todo vaidoso, ele respondeu:

- Seu criado.

- Na próxima estação, o senhor vai descer pra comprar o bilhete.

Assim ele foi vivendo, até que certa ocasião, resolveu dar uma esticadinha até a capital. Aí, foi outra estória. Abordado na rua por um vigarista, que, segundo ele, "com sua lábia, me arrastou que nem um carcará na corda", Rodolfo logo se envolveu numa complicada compra de um anel de estimação, posto à venda por necessidade. Apesar de valioso, o negócio poderia ser fechado a preço baixo, pois, de acordo com o tal vigarista, a sua família o esperava com urgência no nordeste. O anel cintilava que nem uma estrela e o cara insistiu tanto, que o caboclo caiu que nem um patinho, fechando o negócio. No dia seguinte, matutando com seus botôes no quarto da pensão, observou, surpreso, o azinhavrado anel de latão. Achou um desaforo, e pôs-se na rua atrás do malvado. Por sorte, o encontrou. O danado, ao vê-lo, saiu desatinado pelas ruas, acompanhado pelos gritos de Rodolfo: pega ladrão, pega ladrão. Enfim, o trapaceiro foi preso e os dois dirigiram-se para a delegacia, onde a discussão continuou braba. O delegado, já sem paciência, aos gritos desabafou: esses gravatas-tortas só vêm aqui pra dar trabalho pra gente!

Curvelo, 10/01/1999

!



Escrito por Curvelo Imperial às 22h26
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

O coronelismo, durante o período da República Velha, como também no Estado Novo, desempenhou o papel de manipulador das massas populares, competindo aos chefes políticos, a decisão das eleições. O povo não tinha voz, nem vez . Era sempre encabrestado, a fim de prevalecer o poder de mando. Em época de eleição, a jagunçada aparecia para garantir a vitória do candidato apontado pela oligarquia política dominante. Os cemitérios ficavam despovoados com o ressuscitamento dos defuntos, que se encaminhavam às urnas para dar o seu voto e a sua assinatura de além-túmulo. As atas eram lavradas, a bico de pena, de conformidade com aqueles que almejavam alcançar, o poder. Crianças, jovens, velhos e defuntos, todos depositavam sua assinatura em tão importante documento. A vitória do candidato era dada de acordo com os interesses dos chefes políticos locais. Os romances regionalistas brasileiros retratam, dentro de uma visão crítica e sociológica, esse quadro jocoso, porém, triste, das primeiras fases da nossa desastrosa vida republicana. Entretanto, nos tempos atuais, nada mudou, pois cabe ao jogo do poder o uso da mídia e do lobby, como meios eficazes para a classe dominante ganhar sempre as eleições.

 

Estado de Minas

Cartas à Redação

16/07/1992

 



Escrito por Curvelo Imperial às 21h16
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