CÍRCULO MONÁRQUICO DE CURVELO


 

Coroação de Dom Manuel II

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

O episódio do regicídio, que abalou Portugal em 1º de fevereiro de 1908, sinalizou uma crise institucional das mais lamentáveis. Ao regressarem de Vila Viçosa, foram assassinados pela Carbonária, no Terreiro do Paço, em Lisboa, El rei Dom Carlos I e seu filho Dom Luiz Filipe, príncipe herdeiro da Coroa. O infante Dom Manuel, Duque de Beja, regressara dias antes, devido a seus estudos preparatórios para se ingressar na Escola Naval. Quando ele foi esperar os pais e o irmão, estava armada a emboscada, vendo-se no meio de um tiroteio que lhe atingiu o braço. A Carbonária, sociedade secreta, que tinha como objetivo atuar nos movimentos revolucionários, principalmente em Portugal, França e Espanha, assentava suas raízes na Itália, destacando-se como seus principais líderes, Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi. Este foi cognominado Herói dos Dois Mundos, pois atuou durante a unificação italiana, no século XIX, e também no Brasil, onde se destacou na Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul.

Consternados com a morte do seu rei, os portugueses pressentiam dias obscuros na vida nacional, pois uma crise política estava instaurada. Desafiando aqueles momentos difíceis da nação, é coroado rei dos portugueses, Dom Manuel II, que, com pulso firme, se dispôs a sacrificar-se pelo seu povo. Com apenas 18 anos, traumatizado ainda pela tragédia do regicídio, assumiu a chefia do Estado Português, com a determinação de assegurar a proteção das instituições nacionais e do Estado de Direito. Enfrentou, com energia, a oposição republicana, manipulada pelo terrorismo da carbonária, pois chegou a ser ameaçado de morte, o que teve repercussão na imprensa internacional. Mesmo assim, a sua subida ao trono foi um sucesso, sendo aclamado por todo o país: "Rei e Povo estão unidos"!

Dom Manuel II manifestou singular preocupação com a questão social, pois a revolução industrial do século XIX, que mudou toda a ordem mundial, iria repercutir no alvorecer do século XX. Uma nova teoria econômica, fundamentada na dialética, que seria apresentada na obra Le Capital, de Marx, e em seu Manifesto Comunista, em parceria com Engels, norteavam o proletariado para a luta de classes, ao suscitar sérios questionamentos. Sabiamente, a Igreja, nesta época, apresentou sua teoria, fundamentada nos princípios evangélicos, através da encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, rebatendo o materialismo dialético e orientando a humanidade a seguir os caminhos seguros da caridade cristã.

No seu curto reinado, Dom Manuel II teve que enfrentar a exacerbada oposição do Partido Republicano. Este, com sua ação reivindicatória, punha em questão os sérios problemas econômicos do País, devido à sua fraca industrialização. Respeitando os princípios constitucionais, o rei aliou-se ao Partido Socialista, que existia desde 1875, apesar de nunca ter tido representação parlamentar. O objetivo principal dessa aliança, não enfocava a inexpressiva classe operária do país, nem tão pouco as divergências internas de cunho doutrinário. A estratégia visava, sobretudo, o equacionamento formulado para combater o radicalismo do Partido Republicano, retirando dele o apoio do proletariado urbano, para estabelecer o equilíbrio da Coroa portuguesa.

Em 1909, o rei convidou o sociólogo francês, Léon Poinsard, para elaborar um estudo em seu país, objetivando combater o clientelismo derivado do rotativismo. O cientista político-social concluiu que a solução mais eficaz, para a concretização da reorganização do trabalho e administração locais, estaria na reforma política que, como conseqüência, viria a se realizar naturalmente. O rei expôs ao presidente do Conselho de Ministros, Venceslau de Lima, a importância de se reorganizar o Partido Socialista, pois entendia que a sua colaboração com o regime era imprescindível. Os socialistas seriam os únicos capazes de desviar a classe operária, que apoiava o Partido Republicano. A chefia do Governo, com a liderança socialista, apesar dos esforços para atingir o seu objetivo, não conseguiu impedir que o Congresso Nacional Operário atravessasse sérias dificuldades, devido ao boicote que sofreu por anarquistas e republicanos, com a realização de um outro congresso. Entretanto, os socialistas não desanimaram, pois tinham a garantia do apoio régio, que assegurava a oposição aos republicanos. Alfredo Aquiles Monteverde, dirigente do Partido Socialista, relatou ao rei, em outubro de 1909, a falência do Congresso Sindicalista, e lhe agradeceu o interesse pela classe operária. No entanto, a instabilidade governamental continuava, mesmo com todo o apoio régio, pois o governo necessitava, com urgência, de medidas concretas, que mostrassem a aproximação aos socialistas. Em julho de 1910, no governo de Teixeira de Sousa, criou-se uma comissão integrada por três socialistas, dentre eles Azedo Gneco, com o objetivo de estudar a fundação de um instituto de trabalho nacional.. Apesar dessa medida, a insatisfação ainda persistia nos meios socialistas. Aquiles Monteverde, então, alegou que se deveria conceder à comissão, meios eficazes e de caráter permanente, para que os delegados socialistas pudessem ter acesso ilimitado aos meios de transporte, a fim de promoverem sua propaganda. Ciente da situação, o Rei encaminhou ao governo a reivindicação, acatada imediatamente pelo ministro de obras públicas, que aceitou a criação do Instituto de Trabalho Nacional.

Quanto à política externa do Rei, foi bastante intensa, apesar do seu curto e tumultuado reinado. Visitou oficialmente a França, Espanha e Inglaterra, esperando destes países o seu apoio para o fortalecimento do trono lusitano. Em novembro de 1909, a Coroa inglesa lhe havia conferido o título de Cavaleiro da prestigiada Ordem da Jarreteira. No mesmo ano, recebeu a visita de Afonso XIII, rei da Espanha, e em 1910, do presidente eleito do Brasil, Hermes da Fonseca.

A exemplo de seu pai, El Rei Dom Carlos I, o monarca procurou desenvolver uma política de aproximação com a Grã-Bretanha, não só por orientação geo-política, como também para assegurar a proteção da Casa de Bragança, pois havia estreita amizade entre a Coroa portuguesa e a Casa real britânica, na pessoa do seu rei, Eduardo VII. Para selar esse intento, já estava desenhado o projeto do casamento do rei português com uma princesa inglesa, cujo enlace não se realizou devido à morte do rei britânico, amigo pessoal de Dom Calos I, e às sucessivas crises internas da nação lusitana. Esta situação, norteou o novo governo liberal inglês a não se interessar em defender o trono português.

Crises políticas sucederam-se com freqüência, em decorrência das constantes questiúnculas, que contribuíram para a divisão dos partidos da base monárquica. A fragmentação da base do governo, refletiu consideravelmente nas eleições legislativas de 28 de agosto de 1910, ao corroborar a vitória do partido republicano, que aumentou o número de deputados de oposição no Parlamento. Como o Congresso de Setúbal, de 24 a 25 de abril de 1909, já havia decidido a tomada do poder, a causa revolucionária foi favorecida com o resultado do recente pleito eleitoral. A crise se ampliou de forma significativa, e em 4 de outubro de 1910, estourou a revolução, que no dia seguinte, 5 de outubro, culminou com a proclamação da República, em Lisboa. O palácio das Necessidades, residência oficial do rei, foi bombardeado, exigindo a retirada do monarca que, a conselho de seus líderes, dirigiu-se ao Palácio Nacional de Mafra, onde iria encontrar-se com a rainha sua mãe, e sua avó, a rainha-mãe Dona Maria Pia de Sabóia. Diante da vitória republicana, o rei decidiu-se embarcar na Ericeira, no iate real "Amélia", com destino ao Porto. Percebendo a grave situação, os oficiais a bordo teriam demovido Dom Manuel dessa intenção, ou raptaram-no, simplesmente, levando-o para Gibraltar. Ao desembarcar em Gibraltar, a família real logo recebeu a notícia de que o Porto aderira à República. O golpe de Estado estava terminado. A família real seguiu, dali, para o Reino Unido, onde foi recebida pelo rei Jorge V.

Exilado na Inglaterra, o rei Dom Manuel, acompanhado de seus bens particulares, fixou residência em Fulwell Park, Twickenharn, nos arredores de Londres, local onde sua mãe, Amélia de Orleães, nascera, também no exílio, durante a ocupação do trono francês por Napoleão III, em 1848. Somente após a queda do império, em 1871, os Orleães puderam voltar ao seu país.

Apesar das tentativas de restauração da monarquia em 1911,1912 e 1919, Dom Manuel procurou construir ali um ambiente português, mantendo-se em evidência na sociedade inglesa. Casou-se com sua prima, Dona Augusta Vitória, em 4 de setembro de 1913, princesa alemã de Hohenzollern-Sigmaringen, na capela do castelo de Hohenzollern.. Continuou a seguir, de perto, a política portuguesa, exercendo influência junto aos círculos políticos, nomeadamente, as organizações monárquicas. Alimentou uma constante preocupação de que a anarquia, da primeira república, provocasse uma eventual intervenção espanhola, o que poderia desestabilizar a soberania nacional. Desempenhou importante papel no campo da diplomacia, quando a Inglaterra não aceitou as credenciais de um novo diplomata português, devido à instabilidade provocada pelo golpe republicano, refletida na sucessiva troca de embaixadores. Nesta ocasião, as negociações de liquidação da dívida de Portugal com a Inglaterra, encontravam-se em andamento, exigindo uma política conciliatória das mais coerentes. O Ministro dos Negócios Estrangeiros se viu na obrigação de recorrer ao rei Dom Manuel, para desbloquear esta situação. Satisfeito por ajudar o seu país, o monarca, com seu prestígio, recorreu ao governo inglês, incluindo provavelmente o seu amigo Jorge V, o que teve imediato resultado para o governo português.



Escrito por Curvelo Imperial às 17h17
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Dom Manuel sempre gozou de elevado grau de patriotismo, e mesmo deposto e exilado, declarou em 1915, no seu testamento, a doação de seus bens ao Estado português, para a fundação de um Museu, manifestando também a vontade de ser sepultado em Portugal. Sob a liderança do carismático Henrique de Paiva Couceiro, os monarquistas exilados se concentraram na Galiza, com o beneplácito do governo espanhol, para entrarem em Portugal e restaurarem a monarquia. O Paladino- alcunha dada pela imprensa republicana ao líder monarquista – acreditava que bastaria uma demonstração de forças para que o povo rural aderisse à insurreição, porém, nada aconteceu como se planejara. Dom Manuel apoiou estas incursões, apesar de seus parcos recursos financeiros, nos primeiros anos do exílio. Porém, ocorreu um fato que merece consideração. A primeira incursão, feita sob a bandeira azul e branca, mas sem a coroa, foi precedida por um manifesto de Paiva Couceiro, que a defendia como um movimento neutro, porém, reclamava um plebiscito para decidir a forma de regime. Dom Manuel, sendo um monarca constitucional e legalmente jurado, não aceita ser sujeito a um referendo. Só após a aceitação de que a restauração seria baseada na sua pessoa e na Carta constitucional de 1826, o rei passou a apoiar os exilados da Galiza.

A segunda incursão ocorreu em 1912, mas, apesar de ter sido melhor preparada, não obteve sucesso. O governo espanhol viu-se obrigado a ceder às pressões diplomáticas, diante do reconhecimento da república portuguesa. Os conjurados, diante desta situação, tiveram que decidir se seriam desarmados, ou se retornariam a seu país. O governo espanhol acabou por desarmar os combatentes restantes, cuja presença na Galiza já era considerada ilegal. Dom Manuel, entretanto, nunca aceitou a restauração baseada na força, porém, a maioria dos monarquistas mais radicais não acatava a sua orientação. O monarca defendia que a restauração só poderia legitimar-se através de vias legais, com a participação popular através do voto. Dom Manuel, preocupado diante dessa delicada situação, da falta de sintonia entre ele e o grupo restauracionista, previa o surgimento de um movimento anarquista, que só poderia trazer sérios problemas para o seu país.

Com o começo da primeira grande guerra, a situação agravou-se, pois os relacionamentos políticos e diplomáticos entre a Inglaterra e Portugal, poderiam sofrer sérios problemas. Dom Manuel receava que a aproximação da Espanha às potências ocidentais, levasse a Inglaterra a substituir Portugal pelo seu vizinho, como seu aliado, e que o próprio país seria o preço cobrado por Afonso XIII pela sua entrada na guerra. Dom Manuel, sendo anglófilo, admirador do espírito britânico, defende, a partir da entrada de Portugal na guerra, uma participação mais ativa, instando os monarquistas a unirem-se aos republicanos, objetivando a unidade lusitana, pois seria desaconselhável qualquer movimento de cunho restauracionista durante o conflito. Ele chegou, mesmo no exílio, a solicitar sua incorporação no exército republicano português. Entretanto, a maioria dos monarquistas portugueses, sendo germanófilos, não responderam às expectativas do rei, pois acreditavam que a vitória do Kaiser facilitaria a restauração da monarquia. Dom Manuel, por sua vez, temia a perda de suas colônias, em decorrência da ambição germânica, caso os alemães conquistassem a vitória, e, com o apoio britânico, a unidade lusitana estaria garantida, não importando qual a forma de governo adotada. No entanto, aqueles mais próximos ao rei, que se ofereceram para lutar, foram recusados, pois o governo republicano não aceitou serviços de nenhum monarquista. O próprio monarca ofereceu seus serviços aos aliados, para servir como melhor pudesse. Foi colocado como oficial da Cruz Vermelha Britânica, onde desempenhou importante papel, ao longo da guerra, participando de conferências e recolhimento de fundos, visitando hospitais, e mesmo os feridos na frente, o que acabou sendo-lhe muito gratificante. As visitas às frentes de batalha foram dificultadas pelo governo francês, porém, sua amizade com Jorge V, desbloqueou todos esses entraves. Apesar de tudo, seu esforço não foi reconhecido. Anos mais tarde, em entrevista a Antônio Ferro, lamentou-se: "A sala de operações do Hospital Português, em Paris, durante a guerra, foi montada por mim. Sabe o que puseram na sua placa de fundação? ´De um português de Londres’". Coube ao rei a criação do departamento ortopédico do hospital de Sheperds Bush, que, por sua insistência, continuou a funcionar até 1925, assistindo aos mutilados de guerra. Jorge V, ao convidar Dom Manuel para ocupar a tribuna de honra e assistir ao desfile da vitória, em 1919, demonstrou uma prova de reconhecimento dos ingleses para com o monarca e Portugal.

Com a queda da monarquia constitucional em Portugal, deflagrou-se um movimento de renovação nacional, conhecido como Integralismo Lusitano. Formado por um agrupamento sócio-político tradicionalista português, exerceu sua influência entre 1914 e 1932, e, por intermédio dos seus dirigentes fundadores e discípulos, na oposição ao Estado Novo de Oliveira Salazar. Este movimento originou-se entre os católicos e monarquistas portugueses exilados na Bélgica, em 1913, a princípio, de caráter cultural, em reação ao anticlericalismo da primeira república. Em 1914, o movimento tornou-se político, incorporando também republicanos desiludidos com a república, ao ser formalmente constituído, no mesmo ano, na cidade de Coimbra, em torno da revista Nação Portuguesa. Entretanto, os proponentes nunca deixaram de evidenciar que, a forma monárquica que defendiam, diferia da que fora derrubada em 1910. Eles propunham a forma tradicional das corporações e dos municípios, e não aceitavam a representação parlamentar assentada exclusivamente em partidos ideológicos, defendida pela constituição. Dom Manuel, apesar de concordar com eles, manteve, é claro, sua fidelidade aos princípios constitucionais, aos quais prestou juramento. Quaisquer alterações na constituição, segundo o monarca, teriam que passar pela apreciação das cortes reais da nação, uma vez restabelecida a monarquia.

Com o crescimento das forças das idéias integralistas entre as hostes monarquistas, aumentavam as exigências sobre Dom Manuel, pedindo a sua manifestação, porém, ele continuava fiel a seu juramento à carta constitucional portuguesa. Diante desta problemática e do fracasso da Monarquia do Norte, ao acusar o rei pela sua falta de interesse na restauração, a Junta do Integralismo Lusitano declarou-se desobrigada de sua fidelidade para com o antigo monarca, em outubro de 1919. Em julho de 1920, representantes do movimento reuniram-se com o ramo Legitimista, e decidiram transferir sua lealdade ao terceiro filho de Dom Miguel II, o então ainda menor, Dom Duarte Nuno, Duque de Bragança. Em 1942, ele casou-se no Brasil com Dona Maria Francisca de Orléans e Bragança, princesa do Brasil , bisneta de Dom Pedro II. De seu casamento, nasceu Dom Duarte Pio, Duque de Bragança e atual Chefe da Casa Real Portuguesa.

De fato, Dom Manuel foi um monarca iluminado, pois durante o seu reinado, desempenhou, com objetividade, suas funções de Chefe de Estado. Bibliógrafo, nutriu atenção especial pela veracidade histórica, destacando-se os livros antigos e a literatura portuguesa. Cognominado O Patriota, manteve preocupação constante pelos assuntos pátrios. Também os monarquistas lhe deram o nome de O Rei–Saudade, pela saudade que lhes deixou, após a abolição da monarquia.

A sua morte repentina no exílio, levou o governo português, chefiado por Antônio de Oliveira Salazar, a lhe conferir honras de Chefe de Estado. Os restos mortais do rei foram sepultados no Panteão dos Bragança, no mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Os seus bens particulares, juntamente com os da Casa de Bragança, foram constituídos, por iniciativa do Governo de Salazar, na Fundação da Casa de Bragança. Ë oportuno que se destaque a importância de São Vicente, padroeiro de Lisboa, na história secular da monarquia e da nação portuguesas. Foi proclamado padroeiro de Lisboa em 1173, quando suas relíquias foram transferidas do Algarve, para uma igreja fora das muralhas da cidade. Em 1582, começou a edificação da igreja, no lugar onde Dom Afonso Henriques tinha mandado construir um primeiro templo, também em honra de São Vicente.

Ficam aqui as nossas considerações, acerca da história do grande povo lusitano. De fato, Dom Manuel II, coroado rei dos portugueses em meio ao tumulto das revoluções republicanas, soube desempenhar suas funções de Chefe de Estado com firmeza e dignidade, até o final de seus dias, numa demonstração de que a história é a testemunha da vida! Curvelo, 10/02/09

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 17h10
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Tragédia no Circo

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Não sei o que é o certo: se o poeta tem alma de criança, ou se a criança possui alma de poeta. A verdade é que a criança, vivendo nesta roda da vida, que é o mundo, cheio de conturbações, sabe conservar dentro do seu próprio eu, um mundo diferente, repleto de sonhos e ilusões. Despreocupada com os problemas cotidianos, é sempre detentora de uma mente fantasiosa, tudo servindo de motivação para o seu viver. Porém, essa fase é passageira!..

As cantigas de roda, os brinquedos de pegador, as peladas nas praças da cidade, os papagaios a colorirem o céu azul de agosto, são fontes de recordação de uma infância que está bem longe e que desapareceu nos horizontes do tempo, deixando apenas saudade.

É bom recordar o passado, porque é justamente nele que a gente vai encontrar certos momentos felizes, despidos de preocupações.

Fico, muitas vezes, procurando os fatos que me marcaram o passado e, entre as névoas do pensamento, começo a perceber que o objeto perdido torna-se cada vez mais claro aos meus olhos, como uma embarcação a se aproximar do porto. Os acontecimentos mais significativos afloram-se ao meu espírito, destacando-se a lembrança dos circos.

O circo sempre foi uma constante na alma da criançada, deixando também nos mais velhos uma profunda saudade.

O circo de cavalinhos na antiga praça do mercado, com seus palhaços, trapezistas voadores e globo da morte, fantasiava ainda mais a mente fértil das crianças, deixando presentes, em seus corações, imagens indeléveis. Para elas, de olhos fixos no espetáculo, o mais simples ato no picadeiro representava uma valiosa motivação, para enriquecer a sua existência sonhadora.

Por falar em circo, me recordo de um fato que marcou, de maneira singular, a vida no picadeiro: a história de Kátia Karamanov. Era uma jovem de apenas 18 anos, olhos grandes e azuis, cabelos castanhos, corpo esguio, identificando-se com a mais bela ninfa mitológica greco-romana, que dedicou toda sua vida ao trapézio, executando as mais difíceis acrobacias.

Viera com seu pai, Iuri Karamanov, da região dos Urais, na velha Rússia, onde seus antepassados teriam desaparecido durante a revolução de 1917, em que os bolcheviques, liderados por Lênin, derrubaram o império dos Kzares, para implantar uma ditadura comunista e discricionária, a URSS. Ao passarem pela França, ali permaneceram algum tempo, organizando espetáculos para sua sobrevivência. Foi lá que ficaram conhecendo um tal de Mirabeau, cômico de um teatro falido, que, por dificuldades financeiras, aderiu à companhia dos russos.

Os números artísticos foram aumentando e, pouco a pouco, com a adesão de artistas de procedência eslava, como os irmãos Marlov, o velho russo conseguiu estruturar um respeitável circo de espetáculos, que recebera o nome de Grã Circo Karamanov. A bela Kátia trabalhava com Leonardo e Ricardo Marlov no trapézio voador, demonstrando por este, uma paixão surgida à primeira vista. Mirabeau – o pierrot chorão – ficava no picadeiro alegrando a platéia com a sua graça, principalmente as crianças, que procuravam aquela casa de espetáculos constantemente, para ver o popular palhaço. O velho Iuri, muito bem vestido, era o apresentador.

Não é que um dia a empresa circense resolveu dar um giro pelo mundo, chegando até ao Brasil? Neste país de meu Deus, fincaram barracas e ganharam campo. Certa ocasião aportaram em Curvelo, onde Mirabeau conquistou a criançada com o seu modo de ser e, ao sair pelas ruas anunciando o espetáculo em longas pernas de pau, cantava com o sotaque afrancesado: "E o palhaço, o que é ?" E, à sua retaguarda, uma multidão de crianças, aos gritos, respondia: " ladrão de mulher".

Entretanto, quem via aquele francês no picadeiro, escondendo o seu rosto atrás da máscara de palhaço, nunca haveria de pensar que guardava no seu íntimo um ciúme doentio, misturado a uma paixão, cada vez mais violenta, pela trapezista Kátia, principalmente quando a via no trabalho, a segurar as mãos firmes do companheiro. Todos sabiam que Kátia amava Ricardo, aliás, durante os espetáculos, a troca de beijos entre eles já fazia parte da apresentação.

O pierrot chorão, sempre no picadeiro, escondendo sua expressão de ódio e amor atrás da máscara, esforçava-se para tirar gargalhadas da platéia.

- Meu Deus, como é duro trabalhar nesta profissão!, falava consigo mesmo. E Kátia, sempre no trapézio, enchia os olhos dos espectadores e também de Mirabeau, com sua singular beleza.

-Como é linda a Kátia!, dizia, com uma voz surda nas entranhas, o artista da graça. Dentro do esconderijo de sua timidez, viera suportando a dor da paixão não correspondida, que cada dia mais lhe incendiava o espírito debilitado. Talvez, nem um analista, um psicólogo, pudesse entender a profundidade daquele psicótico amor.

Os espetáculos se multiplicavam, e o velho proprietário sempre a anunciar a seqüência dos números. Entretanto, desta vez, o cômico não apareceu no picadeiro. Estaria doente? Kátia surge com os companheiros de trapézio. Na sua apresentação ao público, é recebida ao som romântico de "Luzes da Ribalta". Iniciam-se os saltos acrobáticos no trapézio voador, arrancando aplausos da platéia.

Justamente na última parte, quando ela iria dar o salto mortal, para segurar as mãos de Ricardo e beijar-lhe os lábios, um tiro por trás das cortinas da entrada do picadeiro, acertou-lhe de cheio o peito esquerdo, fazendo-a cair desfalecida sobre a rede estendida. De repente, um reboliço se fez notar em meio à multidão que aplaudia a filha de Karamanov. E Mirabeau, onde está? Ninguém sabe o seu paradeiro!

Depois desse episódio, não se teve mais notícias daquele pierrot chorão, daquele palhaço que sabia arrancar das crianças e dos velhos, um sorriso contagiante. Quem o procurar, poderá talvez encontrá-lo em algum teatro da França, dos mais humildes, quem sabe, perdido no labirinto do seu ser, escondendo atrás da máscara aquele rosto psicopático, com fisionomia de assassino.

De fato, a alma humana possui enigmas, que a gente, muitas vezes, desconhece!...

O Regional

Curvelo, Julho/Agosto/1975

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h00
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Gente do Sertão

Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Partindo de Pirapora, em determinado dia de agosto, desci de barco o São Francisco. Sobre o seu leito ondulante, correntezas formavam as chamadas covas-de-cana, ao sol causticante do meio dia. Depois de navegar alguns quilômetros, ancorei à sua margem direita para conhecer aquelas paragens sertanejas, e segui a pé as trilhas desnudas e tortuosas, batidas pelo homem do sertão. À certa altura, divisei uma casa de taipa, quase em ruínas, ao lado de frondoso umbuzeiro. Caminhei até lá. Quando me aproximei, lobriguei um velho trigueiro, de cabelos e barbas brancas, sentado à sombra da árvore, soltando boas baforadas do seu rude cachimbo. O seu olhar calmo e morteiro o definia como o pensador e estoriador daquelas redondezas. Dono de mente fértil, parava horas e horas os vaqueiros que por ali passavam, atrás de alguma rês tresmalhada, para lhes contar inacreditáveis casos. De sorte que o mesmo aconteceu comigo, ao me aproximar dele.

- Qual sua graça, meu senhor?

- Ambrósio da Silva.

Baiano de Juazeiro e devoto do padre Cícero, sentindo dificuldades para sobreviver naquela antiga cidade, resolveu partir para Minas. Subiu o Velho Chico num vapor, pois naquela época, a navegação fluvial era o único meio que ligava Juazeiro a Pirapora, transportando, além de passageiros, mercadorias para o mercado atacadista e varejista de outras regiões. Em Pirapora, seria mais fácil ganhar a vida, não mais regressando à sua terra natal. Casou-se, ficando viúvo após quatro anos, sem filhos. Depois de me contar toda a sua vida, ele, que carregava no peso dos seus noventa anos um amontoado de lendas sertanejas, criadas pela sua imaginação supersticiosa, narrou para mim, que o ouvia de cócoras, uma passagem dele com o caboclo d’água, quando ainda moço, aos vinte e cinco anos. Certa noite, quando pescava, ao subir o rio numa pequena canoa, a embarcação foi virada inesperadamente por um monstrinho com feições humanas, jogando-o na correnteza bravia. Aquele antagonista furioso atracou-se com ele num formidável duelo. Rolaram ambos na corrente, semelhantes a dois gigantes em ferrenha luta. Em dado momento, com muito custo arrancou sua peixeira, cravando-a até o cabo no tórax disforme do inimigo, que com berros impressionantes o largou, desaparecendo nas águas. Ofegante, quase sem forças, ele chegou à praia, caindo na areia.

Assim, com a linguagem característica, que só as mentes sertanejas podem produzir, terminou a sua dantesca narrativa!

A tarde caía quando me despedi e regressei pelas trilhas abertas no sertão. A passos morosos, fui pensando... Ah!.. como é mentiroso e visionário este barranqueiro!..

Curvelo, 06/03/1962

O Pão de Santo Antônio

12/03/1967

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h55
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Canudos e a Monarquia

Canudos e a Monarquia

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

O triste episódio de Canudos marcou uma das páginas mais horrendas da nossa história. A "Tróia de Taipa" dos jagunços, instalada às margens do rio Vaza-Barris, no sertão da Bahia, transformou-se em uma poderosa barreira contra as expedições do governo Prudente de Morais, empenhadas em dizimar aqueles incansáveis sertanejos. Liderados por Antônio Conselheiro, eles se opunham ao autoritarismo de uma república que, ao longo de sua existência, usou sempre da força para se manter. Os revolucionários pediam a volta do Imperador e a conseqüente restauração da monarquia. De mãos crispadas e rostos marcados pelo sofrimento, enfrentaram com altivez e determinação a criminosa intervenção do governo republicano. De fato, a Guerra de Canudos jamais foi vencida, pois deixou à posteridade um grande exemplo de luta contra qualquer tipo de opressão.

Estado de Minas

Cartas à Redação

18/04/1993

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h32
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Rasgando caminhos, vai o Jequitinhonha, ferido pelas dragas assassinas, numa triste agonia em busca do mar. Percorre longas distâncias, em contato com a pobreza estampada no semblante do povo ribeirinho. Cortada pelo rio, Mendanha se encontra sempre hospitaleira no aconchego de sua gente, tendo no alto sua igrejinha, a todos abençoando, sob os cuidados da zelosa Luíza Preta, pessoa muito estimada por todo o arraial. Quanta estória interessante, quanto caso digno de nota o seu povo nos transmite! João Brás, caboclo tisnado, baixinho, escorado numa rústica bengala, quando deparava com alguém que lhe desse ouvidos, ficava horas a fio contando casos de assombração. Não era à toa que morava próximo ao cemitério. Mente fantasiosa e visionária, ele transformava as montanhas, povoadas de mocós, em palco de seus casos extraordinários.

Coerente com suas tradições religiosas, o povoado de Mendanha comemora com entusiasmo a Semana Santa, as festas do Divino, a sua padroeira, Nossa Senhora das Mercês e outras mais. Conserva, até hoje, no domingo de páscoa, a queima do Judas, seguida da leitura de seu testamento, e a subida no pau de sebo em busca de prendas. Quem lhe conseguir chegar ao topo, é premiado. Uma senhora maratona! No sobe-escorrega da meninada, não poderia faltar a presença do popular Nascimento, velho de guerra. Tudo isto faz parte da cultura folclórica da região.

Mendanha continua hospitaleira, o Jequitinhonha, morrendo de sede e os mocós, correndo por entre as pedras das montanhas distantes!

Curvelo,07/08/1999

 



Escrito por Curvelo Imperial às 22h41
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

Pelos caminhos de ferro do sertão, o trem seguia sua trajetória num galopar ritmado e constante. Naquela época, a gente percorria longas distâncias, de estação a estação, para chegar, noite escura, em Pirapora. Era uma viagem, um tanto quanto romântica. No serpentear das curvas, a máquina lançava fagulhas na escuridão do céu, que iam se apagando ao longo da estrada de ferro. Os passageiros contavam seus casos, e as estórias formavam-se cheias de fantasia e criatividade. De cada parada, guardo uma lembrança: em Porto Faria, de um certo Antônio Sete Flechas, violonista dos bons, apesar de sua demência, que andava dizendo que por ali, as galinhas caminhavam de cincerro no pescoço e que gente virava anjo. Em Contria, comentava-se as peripécias de um tal Rodolfo Pereira, com suas tiradas filosóficas, como: "tem cada uma que mais parece duas, e se desdobrar, dá até três." Pagar passagem não era de seu feitio, pois era emérito caroneiro. Toda vez que viajava, era chamado ao carro do chefe do trem. Certa vez, quando ele procurava o chefe no lugar de costume, assustou-se ao deparar com a presença do itinerante - nome dado ao fiscal de trem - tentando voltar-se. Curioso, o fiscal lhe perguntou:

- O que o senhor deseja?

- Estou vendendo uns filhotes de "passo preto".

- O senhor está com eles aí ?

- Se não morreu ou fugiu algum, eu tenho uns seis ou oito.

Certo dia, estava ele viajando todo tranqüilo, quando o chefe apareceu na porta do vagão de passageiros com um telegrama, e em voz alta pronunciou:

- Rodolfo Pereira..

Todo vaidoso, ele respondeu:

- Seu criado.

- Na próxima estação, o senhor vai descer pra comprar o bilhete.

Assim ele foi vivendo, até que certa ocasião, resolveu dar uma esticadinha até a capital. Aí, foi outra estória. Abordado na rua por um vigarista, que, segundo ele, "com sua lábia, me arrastou que nem um carcará na corda", Rodolfo logo se envolveu numa complicada compra de um anel de estimação, posto à venda por necessidade. Apesar de valioso, o negócio poderia ser fechado a preço baixo, pois, de acordo com o tal vigarista, a sua família o esperava com urgência no nordeste. O anel cintilava que nem uma estrela e o cara insistiu tanto, que o caboclo caiu que nem um patinho, fechando o negócio. No dia seguinte, matutando com seus botôes no quarto da pensão, observou, surpreso, o azinhavrado anel de latão. Achou um desaforo, e pôs-se na rua atrás do malvado. Por sorte, o encontrou. O danado, ao vê-lo, saiu desatinado pelas ruas, acompanhado pelos gritos de Rodolfo: pega ladrão, pega ladrão. Enfim, o trapaceiro foi preso e os dois dirigiram-se para a delegacia, onde a discussão continuou braba. O delegado, já sem paciência, aos gritos desabafou: esses gravatas-tortas só vêm aqui pra dar trabalho pra gente!

Curvelo, 10/01/1999

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Escrito por Curvelo Imperial às 22h26
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Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

O coronelismo, durante o período da República Velha, como também no Estado Novo, desempenhou o papel de manipulador das massas populares, competindo aos chefes políticos, a decisão das eleições. O povo não tinha voz, nem vez . Era sempre encabrestado, a fim de prevalecer o poder de mando. Em época de eleição, a jagunçada aparecia para garantir a vitória do candidato apontado pela oligarquia política dominante. Os cemitérios ficavam despovoados com o ressuscitamento dos defuntos, que se encaminhavam às urnas para dar o seu voto e a sua assinatura de além-túmulo. As atas eram lavradas, a bico de pena, de conformidade com aqueles que almejavam alcançar, o poder. Crianças, jovens, velhos e defuntos, todos depositavam sua assinatura em tão importante documento. A vitória do candidato era dada de acordo com os interesses dos chefes políticos locais. Os romances regionalistas brasileiros retratam, dentro de uma visão crítica e sociológica, esse quadro jocoso, porém, triste, das primeiras fases da nossa desastrosa vida republicana. Entretanto, nos tempos atuais, nada mudou, pois cabe ao jogo do poder o uso da mídia e do lobby, como meios eficazes para a classe dominante ganhar sempre as eleições.

 

Estado de Minas

Cartas à Redação

16/07/1992

 



Escrito por Curvelo Imperial às 21h16
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Gente do Sertão

Gente do Sertão

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

O tropeiro, geralmente de estirpe reinol, foi um dos personagens mais notáveis deste País. Durante anos, seguiu as trilhas serpenteantes dos caminhos com sua tropa, levando mercadorias a seu destino. Joaquim Eugênio Pereira, meu bisavô, descendente de família portuguesa, foi um deles. Inúmeras vezes, na sua mocidade, fez o trajeto do Rio de Janeiro, capital do império, a Formosa , em Goiás. A tropa seguia guiada por sua madrinha - mulinha toda enfeitada, agitando cincerros e guizos - a indicar o caminho. Em tempos memoráveis, quando a tranqüilidade provinciana assentava-se sobre as famílias curvelanas, e o comércio tinha significado expressivo na região, havia aqui vários ranchos de tropeiro. Quando chegavam as tropas com seus balaios, de lado a lado, carregados de mercadorias, no rancho de João Pitanguy, era uma festa para a criançada. Corriam todas ao encontro dos tropeiros para ser presenteadas e brincavam sobre os balaios numa satisfação contagiante. Dentre eles, destacou-se Tão Barroso, alto, claro, de longas barbas brancas, figura paternal e amiga, homem bom e atencioso para com as crianças. Quando ele apeava no rancho, sempre trazia para elas panelinhas de pedra do Serro do Frio. À noite os tropeiros reuniam-se, cantavam e tocavam viola, tendo à sua volta a constante presença da meninada. As modinhas encantavam os corações nas noites enluaradas, com certo mormaço, característico do sertão mineiro. O tropeiro, portanto, muito contribuiu para a nossa formação histórica e, até hoje, povoa a imaginária fantasia das lendas.

Estado de Minas

Cartas a Redação

Publicação em partes: 22/04/1995 e 06/05/1995

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h30
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Graciliano Ramos

Graciliano Ramos

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

O Brasil inteiro reverencia a memória do alagoano Graciliano Ramos. Como escritor, foi notável. Os personagens por ele criados, passaram da ficção à realidade: partiram das palavras, caminharam por sobre os livros e mergulharam no quotidiano da vida. De reação extremamente psicológica, eles dão ao leitor a visão de um Brasil cheio de contrastes, apresentando o submundo de um país tão rico. Quem vê, no "Vidas Secas", Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e o sofrimento da cachorra Baleia, humanizada na alucinação de sua fome, delirante, ao enxergar gordos preás à sua frente, começa a se perguntar: isto é ficção ou realidade? Sim, é alguma coisa que se mistura, que transcende o espírito humano. O Velho Graça, que foi prefeito de Palmeira dos Índios, em seu Estado, teve a vida marcada por perseguições políticas, chegando a ser encarcerado nos porões da ditadura Vargas, onde escreveu "Memórias do Cárcere". A república fascista do Estado Novo o puniu, por ser coerente com sua ideologia. Realmente, Graciliano Ramos foi, e será sempre, um exemplo de dignidade.

Estado de Minas

13/11/1992

Cartas à Redação

 



Escrito por Curvelo Imperial às 09h02
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Pasteur

Pasteur

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Fundador da microbiologia, o químico francês, Louis Pasteur, foi, sem dúvida, um dos cientistas mais famosos do mundo. Sua contribuição para o desenvolvimento científico, trouxe extraordinário beneficio a toda a humanidade. Atuando em diversos ramos da pesquisa macrobiótica, conseguiu erradicar a doença que devastava o bicho-da-seda, descobrindo o conseqüente meio para evitá-la. As vacinas contra o antraz e o cólera aviário trouxeram incalculáveis benefícios aos produtores rurais, contribuindo para que eles economizassem o equivalente à soma das indenizações que a França obrigou-se a pagar à Alemanha, na Guerra de 1870. Em diversos segmentos da ciência, encontra-se a sua presença, como, por exemplo, na pasteurização do leite, palavra que provém do seu nome. Depois de um acidente vascular cerebral aos 59 anos, Pasteur ainda realizou um dos maiores trabalhos de sua vida: a pesquisa sobre a raiva, que o tornou conhecido em toda a França, mais do que Carlos Magno ou Napoleão Bonaparte. Pasteur tinha íntima ligação com o Brasil, pois era grande admirador de Dom Pedro II, que sempre o prestigiou. Certa ocasião, quando o imperador encontrava-se na Academia de Ciências de Paris, para ouvir de Pasteur sua exposição sobre o resultado de suas pesquisas, o cientista virou-se para S. Majestade e disse: "nosso augusto colega, Dom Pedro de Alcântara, como todos sabem, gosta de esconder seu cetro imperial sob as condecorações acadêmicas que recebe do mundo inteiro". De fato, Pasteur é um ícone da microbiologia, cujo talento é reverenciado por todo o mundo científico.

Estado de Minas

30/12/1995

Cartas à Redação

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 08h57
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Eça de Queirós

Eça de Queirós

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

Considerado pela crítica, um dos maiores escritores do século XIX, Eça de Queirós encontra-se ao lado de Balzac, Flaubert, Dickens, Dostoiévski e Tolstói, monstros sagrados da literatura universal. Quem lê Eça, depara com o seu indiscutível talento de cronista da vida social portuguesa daquela época, ao realçar, de modo admirável, as reações psicológicas de seu povo. Realista ou naturalista, o escritor aprofundou-se na intimidade da alma lusitana, revelando a hipocrisia, sob a aparência de sinceridade, que dominava a sociedade portuguesa. Na viagem que o escritor faz através de sua fecunda produção literária, passa a encontrar-se e a conversar com seus personagens, entre eles Affonso da Maia, Gonçalo Mendes Ramires, Basílio, Jacinto de Tormes e tantos outros que povoam aquele universo, onde ficção e realidade se confundem. Ao abrirmos seus livros, os personagens começam a brotar das palavras, tomar forma, caminhar sobre suas páginas, dentro de um cenário onde se percebe o sutil jogo das mulheres ao trair seus

maridos. Dotado de espírito crítico, Eça apresentou na sua fecunda obra a radiografia da sociedade de seu tempo. Assim também o fez seu contemporâneo Machado de Assis, com a sociedade carioca da sua época. De fato, é difícil fazer um diagnóstico da grandiosidade de seus romances, pois eles enfocam as mais diversas reações psico-sociais de uma tradicional nação. Nascido em Póvoa de Varzim, em 1845, José Maria d`Eça de Queirós, apesar de viver a maior parte de sua vida, como diplomata, fora de Portugal, foi o mais autêntico analista da lusitana sociedade de seu tempo.

Estado de Minas

22/12/1995

Cartas à Redação

 

 

 

 

 

 



Escrito por Curvelo Imperial às 10h19
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Consciência Nacional

 

Consciência Nacional

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

A nação brasileira assiste, indignada, à demolição das sagradas instituições nacionais, solapadas pelo relativismo histórico. Este encontra no materialismo e no niilismo, resposta para alterar a ordem moral, legada ao povo pela civilização cristã. A quartelada de novembro de 1889, destituiu o governo imperial de forma arbitrária, sob a inspiração positivista. A sua dialética, que induz à luta de classes, levou o Brasil a perder a sua identidade, vivendo em constante crise econômica e social. Desde a imposição do regime republicano pela força, espelhado nos governos oligárquicos das republiquetas da América Latina, o povo brasileiro jamais conquistou a sua cidadania. O eleitor perdeu a sua consciência política, ao votar em homens indignos de ocupar o Parlamento, que ao povo pertence. O casuísmo nos é apresentado ao longo do tempo nas mais contraditórias formas, de acordo com a ótica da história. O certo é que nós, povo brasileiro, vivemos numa constante ditadura. É profundamente lamentável ver um tesouro vivo como o nosso querido Brasil, rico em biodiversidade, sendo cobiçado pelos ladrões internacionais, principalmente a nossa Amazônia, uma das maiores florestas tropicais do mundo. O nosso cerrado, de uma riqueza incalculável devido ao seu bioma, é destruído pelas mãos assassinas daqueles que buscam uma riqueza imediata e passageira, com a fabricação de carvão para as indústrias siderúrgicas. Tudo isso, porque não temos governos cônscios das suas mais sagradas responsabilidades, em defesa do patrimônio nacional. A educação, fundamentada em programas importados, que nada têm a ver com as nossas raízes culturais, não estimula o espírito questionador, tão necessário nos dias atuais. Professores mal-remunerados e tratados com indiferença pelo poder público, esforçam-se para bem formar o ser humano, esperança de um futuro melhor. Os médicos da Saúde Pública, também com baixos salários e sem equipamentos e materiais adequados, não conseguem prestar bom atendimento à população, e os doentes continuam vitimados por esta triste situação. A Previdência Social arrecada milhões e milhões, desviados, já faz tempo, para obras faraônicas, geralmente inacabadas. Os nossos transportes, de fundamental importância para o progresso nacional, cada vez mais se encontram sucateados. A crise dos transportes se estendeu por todo lado. Já tivemos o apagão energético que sacrificou a população, agora o apagão aéreo deixa os passageiros desesperados, sem perspectiva de solução, tamanha a incompetência das autoridades responsáveis. O transporte ferroviário, progressivamente desativado, é o transporte de primeira linha nos países desenvolvidos, com baixos custos e mais rápida locomoção. O Brasil, país-continente, necessita deste meio de transporte, sem o qual está fadado ao fracasso. O governo imediatista dos anos 50, inspirado na profecia de São João Bosco, construiu uma nova capital no Planalto Central. Não se preocupou com as ferrovias, priorizando as rodovias, principalmente a Belém-Brasília, que teve como uma de suas vítimas o destacado engenheiro Bernardo Sayão. Um país se constrói com grandes homens, e não com obras homéricas para celebrizar governos passageiros. O Imperador Dom Pedro II, um dos maiores estadistas do mundo, construiu dez mil km de estrada de ferro. Ele tinha um arrojado projeto ferroviário para construir a Linha -Centro, que passando por Minas e pelo Planalto Central, em Goiás, onde está Brasília, concluiria-se no Pará. Porém, com a República, interesses escusos, movidos pelo clientelismo político, prejudicaram o desenvolvimento do Brasil. Urge, pois, a necessidade de se desenvolver uma dinâmica malha ferroviária, atingindo os quadrantes do nosso país. Por que não o trem bala, tão desenvolvido em vários países? Que se agilize também uma moderna navegação de cabotagem, devido à enorme extensão das costas brasileiras, e o sistema fluvial para o transporte de passageiros e mercadorias. Aí, sim, seria um investimento compensador, que se reverteria em benefício da população brasileira. Basta o desaparecimento de minadouros e pequenos cursos d’água, sacrificados pelo capitalismo selvagem das empresas de reflorestamento e mineração, sem nenhum projeto de impacto ambiental. O São Francisco, rio da unidade nacional, vem sofrendo todo tipo de agressão ao longo do seu curso. E como estão as nossas fronteiras, o nosso espaço aéreo e as 200 milhas marítimas, defendidos pelos governos militares? É urgente a necessidade de aparelhá-los ao máximo, para defesa do nosso patrimônio nacional. Após o período militar, inaugura-se a Nova República com a eleição de Tancredo Neves, pelo colégio eleitoral. Ele não chegou a tomar posse, devido a uma súbita doença que o levou à morte. O vice-presidente, José Sarney, imediatamente assumiu o poder, iniciando as primeiras medidas econômicas: o cruzado, o cruzado novo e assim por diante. Planos econômicos fracassados, um após o outro, para combater a inflação galopante. Sucederam-se outros mandatos. Fernando Collor de Mello, prometendo acabar com os marajás, venceu as eleições. Assim que tomou posse, seqüestrou a poupança bancária nacional, deixando o povo ao deus-dará. Foi um governo agitado, em constante crise, e os caras-pintadas ganharam as ruas exigindo a sua deposição. É claro que foram manipulados por uma oposição interesseira. Por que não há mais tomadas de posição dessa natureza, nos dias atuais? É tempo de questionar. Com a queda de Collor, o vice-presidente, Itamar Franco, assume o poder, com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda. Mais planos econômicos, URV e, por fim, o real.. Fernando Henrique conquista o poder nas eleições seguintes, sucedendo a Itamar Franco. Neo- liberal, promove leilão das empresas estatais. Um mandato só não basta, e o Congresso aprova o segundo mandato, para continuidade das tais reformas. Mais um casuísmo. Sucede-lhe Luiz Inácio Lula da Silva, com um governo tumultuado por sucessivas bandalheiras, onde os responsáveis não são penalizados. Apesar de tudo, discute-se um terceiro mandato para o presidente. Interessante, que nem Juscelino Kubitscheck de Oliveira e os tão acusados governos militares tiveram tamanha ambição. Cumpriram à risca o mandato constitucional. No presidencialismo, ditadura civil e constitucional, no caso do Brasil, o mandatário manipula o Congresso Nacional, através de negociatas, para aprovar medidas contra os interesses da nação brasileira. A aproximação do Brasil com a Bolívia e a Venezuela, não agrada à consciente elite brasileira. São governos inspirados num socialismo caduco e ultrapassado, que nada oferece de vantajoso ao nosso país. Vejam o que vem acontecendo com a crise do gás, e as propostas inconcebíveis de Chávez, de se tornar sócio da Petrobras, empresa séria fundada por Getúlio Vargas e desrespeitada pelo governo pseudo-comunista da Bolívia. Com certeza, a Nação brasileira protesta veementemente contra este estado de coisas, à espera de uma liderança confiável que garanta a estabilidade nacional. Desde a malfadada traição, liderada por um grupo de medíocres militares, que instituiu a República Provisória do Brasil pelo Decreto n.º l, há mais de cem anos, o nosso país perdeu a necessária estabilidade para o seu desenvolvimento. Igual episódio aconteceu em Portugal a 1º de fevereiro de 1908, quando o terrorismo assassinou o rei Dom Carlos I e seu filho, o príncipe real Luís Filipe, no terreiro do Paço, cujo regicídio os portugueses lembrarão no seu centenário. Com sua morte, foi coroado rei de Portugal o seu filho Dom Manuel II, e em 1910 um golpe militar derrubou a monarquia A partir daí, inaugura-se a controvertida fase republicana lusa, com suas crises e golpes militares. A história da República do Brasil nos revela também uma constante instabilidade, provocada por crises institucionais. A República Velha, por exemplo, marcada pela política do café-com-leite, conforme o Tratado de Ouro Fino, com suas sucessivas crises, que levaram o presidente Arthur da Silva Bernardes a governar sob estado de sítio. Já com Prudente de Morais Barros, primeiro presidente civil, também um movimento conduziu o seu governo ao completo esgotamento: a guerra de Canudos, ocorrida na conformação geográfica da serra do Monte Santo, na Bahia, contada em "Os Sertões", de Euclides da Cunha, uma das maiores obras da literatura brasileira. O cearense Antônio Vicente Mendes Maciel, depois de dez anos desaparecido no sertão, surgiu com seu atavismo em Salvador, na Bahia, vestido de túnica de brim azul, longos cabelos ao ombro, desalinhadas e compridas barbas, face escaveirada que nem um profeta. Era o Antônio Conselheiro, que começava a pregar contra o anti-Cristo, representado pela nova e fracassada república. Os curiosos se lhe achegavam, aderindo rapidamente aos seus seguidores, que cresciam assustadoramente. Incomodadas, as autoridades locais tomaram medidas contra ele, que, perseguido, refugiou-se com seus adeptos numa velha fazenda às margens do rio Vasa-Barris. Lá construiu a "Tróia de Taipa dos Jagunços", de onde desafiou quatro expedições do exército que jamais conseguiram vencê-lo. Foi, de fato, um dos episódios de maior expressão da história brasileira, pelo seu poder de resistência em defesa da restauração da monarquia. Nesta revolução estava presente também a idéia do sebastianismo, lenda impregnada no inconsciente sertanejo, a nós herdada pela tradição histórica portuguesa. Conta-se que Dom Sebastião I, Rei de Portugal, da dinastia de Borgonha, desaparecido na batalha de Alcálcer-Quibir, na África, iria um dia surgir do mar montado a cavalo. Estácio de Sá., fundador do Rio de Janeiro, trouxe na sua esquadra a imagem de São Sebastião, entregue aos cuidados dos frades Capuchinhos. Ele consagrou a cidade ao santo mártir, a qual passou a chamar-se São Sebastião do Rio de Janeiro, atitude que seria, talvez, uma homenagem também à pessoa do jovem rei Dom Sebastião I. O nome da cidade poderá também estar relacionado com a expulsão dos franceses do Rio, que se deu a 20 de janeiro de 1567, dia de São Sebastião. Quem conhece bem a nossa verdadeira história, fica apaixonado pelo ato de heroísmo de nosso povo em conquistar a sua brasilidade. Acontecimentos fundamentados na monarquia, a qual, com seu esplendor, unificou o Brasil-Continente. Apesar de sucessivas crises provocas pelos ilegítimos governos republicanos, o Brasil é o maior líder da América Latina. A nossa formação social, cultural e política, fundamentada no inconsciente monárquico, difere radicalmente da formação dos demais países latino-americanos. O episódio da revolução de outubro de 1930, que derrubou o governo Washington Luiz, sepultando a República Velha, é digno de reflexão. Aliás, este governo tinha como ministro da Justiça, o ilustre curvelano, da tradicional família Viana, Dr. Augusto Viana do Castello, e ministro da Fazenda, o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. Getúlio Vargas chega ao poder com a vitória da Aliança Liberal, e assume o governo provisório. Promete uma nova Constituição para o país. Eclode, em 1932, a revolução constitucionalista em São Paulo. Uma assembléia constituinte é convocada e se instala em 1934. Em 1935, deflagra a intentona comunista, em 1937, Vargas dá o golpe de Estado, e uma nova Constituição, a polaca, redigida numa noite, pelo ministro Francisco da Silva Campos, é apresentada à nação brasileira. Está instalado o Estado Novo, com seus poderes ditatoriais. Quantos não se lembram mais desta ditadura, referindo-se apenas ao período militar? A ditadura Vargas teve acentuada influência do nazifascismo, que ocupava o poder na Europa. Na Itália, com Benito Mussolini, em Portugal, com Antônio de Oliveira Salazar, na Espanha, com o Generalíssimo Francisco Franco, que preparou o país para a restauração da monarquia após sua morte. Desta forma, o atual monarca, Juan Carlos de Bourbon, foi coroado rei dos espanhóis e chefe de Estado. Na Alemanha, Adolf Hitler chega ao poder por vias legítimas e instala o nazismo, movendo uma radical perseguição ao povo judeu. Na Argentina, Juan Domingo Perón instala um governo fascista, que cai com a sua deposição, após a morte prematura de sua carismática esposa, Eva Perón. Hitler invade a Polônia, e a Segunda Grande Guerra explode na Europa, refletindo-se na América. Estas são considerações acerca de um sistema político ilegítimo, imposto ao Brasil há mais de cem anos, e que o levou a graves conseqüências. Entretanto, é urgente a necessidade de que se reverta esta triste situação, a fim de colocar o nosso país na sua legítima vocação histórica. Conseguimos alguns avanços com a constituinte de 1988, que excluiu a Cláusula Pétrea do texto constitucional. Esta medida foi alcançada graças à iniciativa de S.A.I.R, o Príncipe Dom Luiz de Orléans e Bragança, atual Chefe da Casa Imperial do Brasil, que oficiou aos deputados constituintes, sendo solicitamente atendido. Ficou também acertado para 7 de setembro de 1993, o plebiscito sobre a forma e sistema de governo: monarquia constitucional ou república, e parlamentarismo ou presidencialismo, conforme Art. 2º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da nova Carta Magna. Assim que foi outorgada a "Constituição Cidadã" em outubro de 1988, e apresentada ao país pelo deputado, Dr. Ulysses Guimarães, que lhe deu este nome, ela sofreu o primeiro golpe: a antecipação do plebiscito para 21 de abril de 1993. No entanto, a república ganhou, mas não levou, pois não atingiu a maioria necessária para legitimar-se. Com este resultado das urnas, foi a monarquia que saiu vitoriosa. Passaram-se quase duas décadas, e o movimento pela restauração da monarquia, através dos Círculos Monárquicos espalhados pelo país, vem cumprindo sua missão histórica, propagando a vocação monárquica que se encontra no inconsciente coletivo brasileiro. Porém, este movimento deveria ser mais dinâmico, levando ao povo, através da mídia nacional, a valorosa mensagem de transformação, para que ela possa despertar, em cada um de nós, a idéia de restauração. Cabe, portanto, ao Príncipe Dom Luiz de Orléans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, assumir com energia esta importante causa. Que se multipliquem os Círculos Monárquicos e que sejam restabelecidos os que estão desativados. O de Fortaleza foi fundado pelo Dr. Juvenal Antônio de Arruda Furtado, intelectual que o administra e enobrece a nossa causa monárquica. Temos uma Família Imperial organizada, graças ao empenho e ação política dos nossos imperadores e seus descendentes, que mantiveram a tradição sucessória em pleno vigor. Está na hora de agir, cabendo a Dom Luiz I, Imperador "de jure" e defensor perpétuo do Brasil, espelhado no seu avô, Dom Luiz de Orléans e Bragança, o Príncipe Perfeito, palmilhar o território nacional, visitando as diferentes etnias, distribuídas pelo nosso querido Brasil: as tribos indígenas, os afro-brasileiros, os favelados e os demais segmentos da sociedade, tão importantes para a causa monárquica. É de fundamental importância que a divulgação das visitas imperiais, por menor que seja, pela imprensa nacional, ocupe lugar de destaque na mídia. Só assim, o povo brasileiro tomará conhecimento da existência de uma Família Imperial, organizada e preparada para assumir a Chefia do Estado Brasileiro a qualquer tempo, na pessoa de seu Chefe, SAIR o Príncipe Dom Luiz de Orléans e Bragança. Estão se aproximando as comemorações dos duzentos anos da chegada da Família Real ao Brasil. Há tempos, o atual prefeito municipal do Rio de Janeiro, César Maia, está preparando a cidade para o histórico evento, com variados trabalhos e publicações inéditas, objetivando a restauração da verdadeira imagem de Dom João VI. Dom João, como príncipe-regente, elevou a nossa Pátria à categoria de Reino Unido aos de Portugal e Algarves, deixando, portanto, de ser simplesmente colônia portuguesa. Primeiro rei a ser coroado nas Américas, construiu a infra-estrutura necessária para a proclamação da independência. Dom João VI e o Czar Alexandre I, da Rússia, foram os únicos soberanos que driblaram Napoleão Bonaparte. Tendo que voltar a Portugal, em decorrência da revolução contitucionalista do Porto de 1820, Dom João deixou aqui seu filho, o príncipe D. Pedro, que proclamou a independência em 1822, destacando-se nesse processo, a importante participação de sua esposa, a imperatriz Dona Leopoldina. Sagrado e coroado Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil, S.M. Dom Pedro I, foi o fundador da nossa nacionalidade. De fato, estamos no momento propício para a divulgação da causa monárquica. As comemorações do bicentenário da chegada da família real ao Brasil, com certeza, despertarão no país a consciência nacional, para que o povo reflita sobre a sua verdadeira história. Que o príncipe Dom Luiz de Orléans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, ocupe lugar de destaque neste importante evento. O sofrido povo brasileiro necessita, urgentemente, de um verdadeiro líder, para lhe confiar o futuro da nação. Só assim o nosso Brasil, despertado pelo orgulho nacional, poderá reencontrar a sua própria história, ao restaurar o grande Império das Américas. O futuro a Deus pertence, porém, cabe ao homem, agente da história, construí-lo através do tempo. É o que esperamos!

Curvelo, 24/11/2007



Escrito por Curvelo Imperial às 19h45
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Procópio Ferreira

 

Procópio Ferreira

José Emílio Ferreira Sores/CurveloMG

Sem dúvida, Procópio Ferreira foi um ator admirável, e ainda me lembro dele, já velho, percorrendo as cidades de Minas com a sua companhia de teatro. Em Curvelo, esteve algumas vezes, arrancando aplausos da platéia, com sua natural arte de representar. Em sua vida de luta alcançou, na simplicidade, a glória do teatro brasileiro. Quem conhece a peça "Deus lhe pague", de Joracy Camargo? Como ele a interpretava bem! Entretanto, guardo na lembrança que, quando ainda menino, assisti ao filme "O Comprador de Fazendas," comédia de arrancar risadas de qualquer cristão. Era uma enganosa arte de tapear, em que o velhaco vendedor montava, artificialmente, na calada da noite, ambiente favorável para impressionar o interessado. Além deste, Procópio fez outros filmes, destacando-se "A Sogra", estória de um agente ferroviário que era, também, proprietário de pensão. Naquela época, os cometas - nome dado aos representantes comerciais - só viajavam de trem para fazer a praça, de cidade em cidade. Depois, as mercadorias eram entregues através da rede ferroviária. As pensões e os hotéis localizavam-se próximos às estações ferroviárias, local de fácil acesso aos viajantes. Na pensão desse agente da estação morava sua sogra, cuidando dos afazeres domésticos. Porém, ela não perdia tempo em dar uma olhadela no entra-e-sai dos hóspedes. Quando se interessava por algum deles, logo lhe reparava os cabelos, pois o seu fraco era a cabeleira do pretendente. Certa ocasião, criou coragem e deu uma olhadela pela fresta da porta do quarto de um cidadão. Diante do espelho, ele escovou os negros cabelos, mas depois, para decepção dela, a careca do homem alumiou, pois tratava-se de uma cabeleira postiça. Entretanto, ela não perdia a esperança e, à procura de um novo amor, foi conferir outro hóspede. Desta vez, não teve dúvida, o fulano escovou e friccionou os cabelos e ao penteá-los, ela assegurou-se de que eram naturais. Estava conferido, a sogra fez cara de satisfação e logo pensou: é com este que eu vou.

Procópio Ferreira não se encontra mais entre nós, no entanto, sua presença continua vivinha da silva, no teatro brasileiro e no coração daqueles que o conheceram. Ele é, pois, um patrimônio nacional.

Curvelo, 22/01/2000

 

 

 

 

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Escrito por Curvelo Imperial às 20h50
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Cemitério do Peixe

Cemitério do Peixe

 

José Emílio Ferreira Soares/Curvelo/MG

 

Bem aos pés da serra do Camelinho fica o Cemitério do Peixe, município de Conceição do Mato Dentro. Como capela, é assistida pela paróquia Santo Antônio de Gouveia - Arquidiocese de Diamantina. Ele está geograficamente situado ao norte do seu município, próximo às margens do rio Paraúna. A sua história confunde-se com a história de seu povo, sedento de profunda religiosidade, herdada dos seus antepassados. O local sobre o qual se assenta aquele “arraial - fantasma”, desabitado quase o ano inteiro, se transforma de repente em um movimento religioso, ao receber piedosas romarias, vindas de lugares distantes, para cumprir promessas aos pés do seu padroeiro São Miguel e Almas. O  15 de agosto é o ponto alto da festa.

         As casas de chão batido, branquinhas na sua simplicidade, contornam o pequeno cemitério, que tem à sua frente a capela de São Miguel Arcanjo. Essas casinhas  irradiam  por toda a região um profundo sentimento místico, servem de abrigo para a festa no povoado e pertencem aos pequenos proprietários da região

.       Por que Cemitério do Peixe? Alguém poderá indagar! Conta a tradição oral que, em longas datas, para lá se dirigiu um destacamento policial, vindo de Conceição do Mato Dentro. Ficou sediado naquele ponto de passagem, hoje conhecido como Quartel do Peixe, para fiscalizar as mercadorias transportadas no lombo das tropas, vindas de distantes lugares com destino ao sertão.  Era o único caminho que ligava a região daquelas bandas à capital mineira. Aconteceu que dois soldados, alimentando-se com peixes estragados, vieram a falecer. Os corpos desses soldados foram sepultados no campo santo, que mais tarde passou a denominar-se “Cemitério do Peixe”.

         O Sr. Antônio Francisco Pinto, o famoso Caniquinho, era um próspero fazendeiro da região, proprietário da fazenda do Vassalo.  Respeitado na região por sua inteligência e sagacidade nos negócios, conhecido até mesmo no Rio de Janeiro, onde ia com freqüência,  desempenhou um papel de liderança entre aquela gente. Logo mandou cercar a área onde eles foram sepultados e providenciou a celebração de uma missa, anualmente, por alma dos soldados. Reavivando a tradição religiosa que se consolidaria através dos tempos, a celebração vem de longa data, segundo alguns, início do ano de 1890,  e era realizada ao ar livre, com muito respeito e piedade, no segundo domingo do mês de agosto, sempre começando uma semana antes. O padre Ernesto, então pároco de Congonhas do Norte, foi quem iniciou a celebração dessa missa.

        Caniquinho era profundamente religioso e preocupado com os menos favorecidos, e em 1915 pediu licença ao Arcebispo de Diamantina para promover melhor assistência religiosa àquele sofrido povo. Ele convidou os padres missionários redentoristas de Curvelo para pregar missão no Peixe e eles seguiram de trem para este trabalho, com muito sacrifício, propagando com seu carisma, a Copiosa Redenção. Com sua dedicação, Caniquinho mandou construir a capelinha em honra de São Miguel, a casa para hospedar os padres, hospedagem para as cantoras do coro, para a polícia, para o barbeiro e outras instalações necessárias. O Padre Thiago Boomaars, Mestre de Missões e seus confrades, desembarcaram na Estação do Barão de Guaicuí, onde pernoitaram. No dia seguinte, montaram a cavalo e foram apear na fazenda do Sr. João Baiano, onde descansaram, e ao amanhecer, arrearam a montaria chegando ao Peixe. Recebidos com festa e generosa hospitalidade, aqueles missionários-heróis lançaram no coração daquela gente a mensagem de Santo Afonso Maria de Liguori.  O povo simples e humilde da região, os trabalhadores das fazendas, os pequenos proprietários e até os grandes fazendeiros gostaram tanto das missões, que Caniquinho se viu na obrigação de programar novas missões para o ano seguinte, e elas passaram a acontecer todos os anos. Ele era um homem coerente com seus princípios religiosos, dotado de fé inabalável e, de fato, foi o fundador do Jubileu do Peixe, constituindo, naquela região, um centro de promessas e oração. Caniquinho documentou, junto ao Arcebispo de Diamantina, uma grande doação para as almas, de terras vizinhas ao cemitério, cuja demarcação pegava desde o alto da porteira até a barra do rio Paraúna. A nascente do córrego  que forneceria água para os romeiros e o chamado  “pasto das almas”, porque nele poderiam ficar os animais durante o jubileu, pagando um aluguel que era destinado à manutenção do cemitério, também passaram a incorporar a escritura de doação. Este  documento se encontra arquivado na Cúria da Arquidiocese de Diamantina.  Enfim, tornou-se sólida tradição por aquelas bandas, os sepultamentos passarem a ser feitos no Cemitério do Peixe, suscitando uma grande devoção a São Miguel e às almas daqueles cujos corpos lá se encontram.. Desta maneira, as famílias tinham, ali bem perto, sepultados seus entes queridos. Por serem parentes e, sobretudo, antepassados, criou-se tal devoção e confiança nas almas do Cemitério do Peixe, que era comum, em qualquer dificuldade, as pessoas  exclamarem: “Almas do Cemitério do Peixe, valei-me”. E não raro, a ajuda vinha mesmo. Poderia acontecer o que acontecesse, no dia da festa, a presença obrigatória de determinadas pessoas era evidente. Enfrentavam toda espécie de dificuldades para comparecer ao Jubileu do Peixe. Entre eles, Juca Rodrigues, Luiz da Serra, Levindo Pinto, Antonico Dumont, João Baiano, Cupertino Ribas, Jorge Rodrigues, Gustavo Alves, os Vieira, o próprio Caniquinho e muitos outros não faltavam nesta época. Além de cumprirem promessa, também era uma boa oportunidade para encontrar com amigos e parentes. Também não poderiam faltar, como em toda romaria, os comerciantes de gado, de animais e de arreios, fotógrafos e outros que chegavam em busca de algum negócio lucrativo. O povo passou a marcar os casamentos, batizados e primeira comunhão para a data da festa, devido à falta de padres durante o ano e à dificuldade de ir à cidade. Muitos namoros e casamentos começaram nesta festa, que ficou conhecida como Festa do Cemitério do Peixe ou, simplesmente, Festa do Peixe.

         Caniquinho, fundador do Jubileu do Peixe,  morreu em 1941, porém deixou uma devoção que cresce ao correr do tempo, continuando em sua homenagem e em homenagem às almas de todos os antepassados, amigos e parentes ali enterrados, sob a proteção de São Miguel.e em homenagem ua homenagemeios. Até hoje os redentoristas continuam animando, com a mensagem de Santo Afonso, o Jubileu do Peixe, mostrando àquele povo simples e sofredor, os legítimos caminhos do Cristo Redentor. Empenhado, com todo o entusiasmo que lhe é peculiar, o padre Mauro Carvalhais de Oliveira abraça esta nobre causa missionária, celebrando, todo ano, o Santo Jubileu, dentro de um espírito de fé e renovação de vida. Assim, o Cemitério do Peixe se transforma, a cada ano, num local de oração e penitência, aos pés de São Miguel Arcanjo.  



Escrito por Curvelo Imperial às 22h24
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